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Encontros com a África

publicado: 29/04/2026 09h12, última modificação: 29/04/2026 09h12
Naldinho Freire lança uma coleção de suas canções no disco Tesouros e fala sobre a viagem cultural feita a Cabo Verde
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Naldinho Freire lança o disco também em comemoração aos seus 60 anos | Fotos: Marina Oliveira/Divulgação

por Daniel Abath*

O lançamento do álbum Tesouro na capital de Cabo Verde, Praia, desdobrou-se em uma experiência que ultrapassou os limites do palco, conectando--se diretamente com as práticas educativas, tradições culturais e propostas de intercâmbio entre Brasil e África. Em meio a apresentações musicais e encontros institucionais, a passagem do cantor e compositor paraibano Naldinho Freire e da intérprete Sílvia Patriota pelo país africano, em abril, reuniu música, formação e trocas simbólicas em diferentes espaços do arquipélago.

Imagem: Divulgação

A viagem integrou a participação do artista no festival internacional de música realizado em Cabo Verde, o Atlantic Music Expo (AME), que congrega profissionais da indústria musical de diferentes países do globo, a partir de uma carta-convite do diretor-geral do evento, Benito Luz. A presença no AME 2026, que ocorreu de 6 a 9 de abril, foi o ponto de partida para a articulação das demais atividades dos paraibanos na ilha de Santiago. 

No dia 9, no espaço Djeu View, na cidade da Praia, Naldinho realizou o show de lançamento do álbum Tesouros, com participação de Sílvia Patriota e do músico cabo-verdiano Manuel di Candinho — Sílvia apresentou trabalho musical com base em sua pesquisa dedicada às canções do ícone da cantoria de viola no Brasil, Otacílio Batista.

No dia seguinte (10), os artistas rumaram para Tarrafal, vila de Santiago distante três horas da capital, onde uma nova apresentação foi integrada a atividades culturais e educativas promovidas na Casa do Livro e da Leitura de Tarrafal, espaço dedicado à formação de leitores e ao acesso à cultura. Integrando a literatura paraibana ao acervo da biblioteca da Casa do Livro e da Leitura, Naldinho e Sílvia entregaram, na ocasião, um kit com livros publicados pela Editora A União, ora à disposição do povo cabo-verdiano.

Iniciativa do escritor, músico e ex-ministro da Cultura de Cabo Verde, Mário Lúcio, a Casa do Livro e da Leitura acolhe conjunto de obras oriundas de doações nacionais e internacionais e mantém ações voltadas à democratização do acesso ao livro. De acordo com o músico, o projeto incorpora práticas cotidianas que incentivam a leitura, como a circulação de livros em feiras livres.

“Você vai comprar banana, sei lá, vai fazer uma feira livre, leva as frutas, mas também leva um livro. Junto, tá lá, em cima das coisas, os livros”, descreve. “Isso é muito interessante, é um projeto revolucionário, e nós tivemos a graça e a honra de sermos recebidos por ele”, afirma Naldinho, que esteve pela primeira vez em Cabo Verde em 2008 por intermédio da antiga amizade com Mário Lúcio.

Paraíba no Tarrafal

Naldinho relata que a experiência no Tarrafal se destacou pela dimensão pedagógica e pelo contato com a comunidade local. “Para mim e para Sílvia, que também trabalha com educação, foi uma vivência muito significativa. Quando a gente chegou lá, meu amigo… Muitas, muitas crianças, adolescentes e os professores da casa, todos reunidos para nos receber”, ele comenta. 

Na viagem a Cabo Verde, ele fez show com Sílvia Patriota e Cleudon Chaves

O encontro coincidiu com a implementação oficial da música no currículo escolar do município, tornando-se o primeiro da Ilha de Santiago a adotar a disciplina de forma estruturada. A cerimônia ocorreu pela manhã, com a presença de autoridades locais da educação, e foi seguida por atividades culturais abertas ao público.

“Foi uma coincidência importante. É o primeiro município da Ilha de Santiago que coloca música na escola, e a gente teve a felicidade de fazer parte dessa programação. À tarde foi o nosso show”, diz ele, que dividiu o palco com os próprios estudantes a interpretarem repertórios locais, incluindo a canção “Ilha de Santiago”, da cantora cabo-verdiana Mayra Andrade.

Tal contato com o público local foi marcado pela participação ativa das crianças e adolescentes, que acompanharam as apresentações com atenção e também integraram a programação artística. Naldinho menciona que houve um momento em que as crianças fizeram completo e atento silêncio para ouvir os paraibanos.

No repertório, “Mama África”, de Chico César, fez da calmaria um quebrantar de vozes acalorado e potente. Poderia vir do rádio, das antenas de TV ou da internet, mas a familiaridade com a canção se fez mais vibrante na fresca lembrança da passagem do compositor de Catolé do Rocha por Cabo Verde, quando de sua participação no Festival pela Paz, de Tarrafal, em setembro de 2024, data em que também se apresentou com Mário Lúcio.

Além das apresentações musicais, o evento contou com a participação de um grupo feminino de batuku, manifestação tradicional cabo-verdiana reconhecida como patrimônio cultural — o gênero musical, que também se traduz em dança, tem sua origem nas práticas de povos africanos escravizados e era inicialmente executado apenas por mulheres, com o uso do próprio corpo como instrumento de percussão.

“Porque, tu sabes, os povos escravizados foram retirados de suas terras, dos seus territórios; às vezes até nus. Nada. Tinham nada. Usavam o corpo como instrumento, e esses instrumentos, esses ritmos ficaram na memória, e eles preservaram. Antes era tocado só por mulheres, mas em alguns já tem homens participando. É uma tradição que se mantém viva e carrega uma memória histórica importante”, explica.

A passagem pelo Tarrafal foi encerrada com um jantar e uma reunião, na qual se discutiu a continuidade do intercâmbio cultural de Cabo Verde e Brasil (no caso, Paraíba). Entre as propostas apresentadas, está a vinda de um professor de música cabo-verdiano para a capital pessoense, com o objetivo de vivenciar a música da Paraíba em diferentes contextos de ensino e práticas musicais, estreitando os laços.

“Foi um momento de intercâmbio muito bacana; ter encontrado pessoas que estão nessa proposta de circulação pelo mundo e com interesse em África, na música do Brasil, e, se a gente tiver essa força do nosso governo, ou mesmo a iniciativa privada também chegando junto, como eles fazem lá, a gente pode construir os caminhos de levar a música que se faz aqui escoar. Acho que é importante isso: escoar a nossa produção”, ressaltou Freire.

Tesouros

Fazendo dialogar a canção brasileira com a música afro e latino-americana, o álbum Tesouros (já disponível nos streamings) reúne canções de Freire que se apresentam em torno de núcleos rítmicos da “cueca” chilena, conjunto de estilos de música e dança presentes em países da América do Sul.

Ao longo de 10 curtas faixas, que perfazem ao todo cerca de 14 minutos de audição,  o álbum faz troar camadas de cacuriá, bumba-meu-boi, coco, baiões, xotes e baques de maracatu, traduzidos em melodias e harmonias modernas, com textos que guardam profunda inspiração nos folguedos. Participam das canções o Grupo Voz Ativa, além dos artistas Wilma Araújo, Mariza Black, Júnior Valle, Ezra Cristina, Adeildo Vieira e Airô Barros.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 29 de abril de 2026.