O artista cearense Francisco Breno Alves mergulhou fundo em suas origens para compor seu novo trabalho musical. A começar pelo apelido com o qual assina essa nova empreitada — xyyko, forma estilizada do prenome (e escrito em inicial minúscula), que, como revelou à reportagem, foi ressignificado no presente. O título do EP também faz menção às paisagens litorâneas de seu estado natal — Jangada, com duas faixas. O projeto estreia hoje nas plataformas de streaming, inaugurando o Rebanho Records, selo do arranjador Chico Corrêa, baiano radicado na Paraíba.
As faixas, produzidas e interpretadas por xyyko, mesclam elementos ancestrais, como os cânticos afros, e ingredientes contemporâneos, a exemplo das batidas eletrônicas dos sintetizadores. A canção- -título conta com trechos de narração do cinejornal A Jangada Voltou Só, rodado nos anos 1940, no Ceará, e assim titulado em razão dos versos compostos por Dorival Caymmi. A segunda canção é “Igreja do céu”: nesta, o artista “dobra” a própria voz e adiciona ao seu vocal convencional outro registro, modificado por inteligência artificial.
Natural de Itapipoca, cidade a 120 km de Fortaleza, xyyko conviveu com as paisagens praieiras desde muito jovem, graças aos passeios que fazia com o pai. Ele ressalta que os jangadeiros foram sua inspiração para as faixas deste EP. “Embora aquele cinejornal, cedido pela Cinemateca Brasileira, seja muito antigo, ele ainda é muito atual, em razão das condições laborais dos jangadeiros. A força de trabalho deles tem sido muito negligenciada. E essa vivência no mar e os valores laborais mexem com o som que eu faço”, sustenta.
Conciliando a música com a carreira na informática, xyyko foi aluno do Programa de Pós-Graduação em Computação, Comunicação e Artes da Universidade Federal da Paraíba. Ele estreitou seus laços com a música na adolescência e justamente por meio dos computadores, partindo da possibilidade de criar seus acordes no ambiente digital. “O amigo e mestre, DJ Rondi, que me ensinou a discotecar em vinil, foi o cara que falou: ‘Já pensou em produzir música do zero?’. Então saíram dali as primeiras composições”, recorda.
Morando em João Pessoa há cerca de seis anos, xyyko comenta a colaboração frutífera com o “xará” Chico Corrêa, dizendo que ele é um de seus “nortes” na música. Jangada, a propósito, é fruto de uma oficina criativa promovida pelo idealizador do selo Rebanho Records. “Mas os artistas da Paraíba, no geral, têm muita influência sobre mim. Se for para citar outros nomes, eu diria também o de FurmigaDub, um cara que admiro muito. Sem mencionar outros que a gente cresceu ouvindo, como Chico César e Elba Ramalho”, elenca.
Dentre os planos para o ano que acaba de começar, xyyko antecipa que pretende fazer um lançamento presencial de Jangada em João Pessoa. Ele ainda acalenta perspectivas para o trabalho seguinte — um novo EP, desta vez com a participação do tocador de rabeca Jeferson Leite. “E eu tenho outras ideias ‘quentes’ para fazer aqui na Paraíba. Acho que a música eletrônica tem mais espaço para crescer aqui na Paraíba. Quero perceber o Nordeste através desse prisma. Vamos ver aí o que acontece”, assevera.
Chico Corrêa explica que o Rebanho Records atua em parceria com YB, selo paulista e maior que ampara artistas independentes há mais de duas décadas. Mas o arranjador ressalta: por ora, sua intenção é atuar apenas com distribuição de discos, de forma curatorial. “Tem alguns artistas também que têm um papo de fazer umas coisas, mas por ora, estamos com esse recorte estético dentro da empresa de São Paulo. Tem muita gente boa lá, como Elza Soares, Nação Zumbi e Alessandra Leão. E eles lançaram a Tulipa Ruiz”, resume.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 16 de janeiro de 2026.
