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Essenciais do Brasil

publicado: 12/05/2026 09h14, última modificação: 12/05/2026 09h14
Dez anos depois, associação brasileira de críticos atualiza sua lista de 100 melhores filmes nacionais
Carlota Joaquina Princesa do Brazil - 01.jpg

Carlota Joaquina, princesa do Brazil é um dos novos filmes na lista dos 100 da Abraccine | Foto: Divulgação/Copacabana

por Renato Félix*

Em novembro de 2015, a Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) divulgou sua lista de 100 melhores filmes brasileiros (Limite, o clássico vanguardista de 1931, ficou com o primeiro lugar), resultado de uma eleição entre seus membros e convidados. Dez anos depois, a entidade refaz a lista, com 29 mudanças que refletem como o pensamento da crítica mudou nessa década. Mas o conceito da eleição também mudou: agora ela é chamada de 100 Filmes Brasileiros Essenciais. E não elege um melhor de todos. Como a lista de 2015, esta também resultará em que todos os filmes serão comentados.

A Paraíba perdeu espaço: em 2015, Aruanda (1960), de Linduarte Noronha, e O País de São Saruê (1979), de Vladimir Carvalho, estavam entre os 100; dessa vez, só Aruanda entrou.

A mudança no nome segue a filosofia da associação nas últimas eleições: 100 “essenciais” reduz o caráter mais subjetivo de “melhores” e favorece uma distribuição de mais representatividade nessas listas. Nem há uma relação por classificação, mas em ordem cronológica.

Da lista original, 71 produções permanecem, mostrando que seu status não caiu com os profissionais da análise cinematográfica. Dentre eles, estão filmes intocáveis como Cidade de Deus (2002), Vidas secas (1963), Deus e o Diabo na terra do Sol (1964) e Pixote: a lei do mais fraco (1980), entre outros. 

O oscarizado "Ainda Estou Aqui" | Foto: Divulgação/Videofilmes

As 29 mudanças mostram que a busca por diversidade deu um certo resultado. Por exemplo, a lista de 2015 tinha apenas cinco cineastas mulheres, cada uma com um filme. Agora, elas são 14, com novidades como Gilda de Abreu (O ébrio, 1946), Adélia Sampaio (primeira mulher negra a dirigir um longa no Brasil, com Amor maldito, 1984), e Carla Camurati (cujo Carlota Joaquina, princeza do Brasil, pilar da retomada do cinema brasileiro, em 1955, que incrivelmente não encontrou lugar na lista de 1995). A lista também está um pouco menos branca, com a presença de cineastas negros como Odilon Lopez (Um é pouco, dois é bom, 1970), Zózimo Bulbul (Alma no olho, 1973), Gabriel Martins (Marte Um, 2022) e a já citada Adélia Sampaio.

Uma questão da lista anterior era o imediatismo: 24%, quase um quarto dela, era composta por filmes do século 21. Esse número praticamente não se alterou: agora são 23%. O que mudou foram os filmes: essa foi a faixa temporal com o maior número de alterações: 12 filmes saíram (entre eles, O ano em que meus pais saíram de férias, 2006); 11 produções entraram (incluindo os indicados ao Oscar de Melhor Filme Ainda estou aqui, 2024, e O agente secreto, 2025).

Em 2015, Glauber Rocha havia sido o diretor com mais filmes na lista: cinco. Agora, o posto é de Nelson Pereira dos Santos, com quatro (os mesmos de há 10 anos): Glauber perdeu dois filmes, assim como Joaquim Pedro de Andrade, Hector Babenco e Carlos Reichenbach (cada um tinha quatro filmes e agora dois). Ninguém perdeu mais que José Padilha: seus três filmes da lista de 2015 ficaram de fora dessa vez.

Quem mais ganhou espaço aumentou dois filmes. Um deles é José Carlos Burle, diretor da época da Atlântida nos anos 1940 e 1950, que saiu do zero. E há cineastas cujos filmes apareceram nos anos posteriores à primeira lista: a dupla Juliana Rojas e Marco Dutra, Adirley Queiroz e Kléber Mendonça Filho (que, com seus dois novos filmes, totaliza três, empatando com José Mojica Marins, Glauber, Leon Hirzman, Rogério Sganzerla, Eduardo Coutinho e Walter Salles.

A visão da crítica continua subestimando a comédia, com pouquíssimas citações, os filmes infantis (só Os saltimbancos trapalhões, 1981, encontrou lugar) e a animação (só um filme, O menino e o mundo, 2014, o que já é mais que em 2015, quando nenhuma animação entrou na lista dos 100). E apesar de cineastas como Carlos Hugo Christensen e Lúcia Murat serem finalmente citados, outros ficaram de fora, mostrando que merecem mais atenção dos críticos: casos de Hugo Carvana e Vladimir Carvalho.

Os 100 filmes essenciais do cinema brasileiro, segundo a crítica

  • Limite (1931), de Mário Peixoto
  • Ganga bruta (1933), de Humberto Mauro
  • O ébrio (1946), de Gilda de Abreu
  • Também somos irmãos (1949), de José Carlos Burle
  • Carnaval Atlântida (1952), de José Carlos Burle
  • O cangaceiro (1953), de Lima Barreto
  • Rio, 40 graus (1956), de Nelson Pereira dos Santos
  • Rio, Zona Norte (1957), de Nelson Pereira dos Santos
  • O grande momento (1958), de Roberto Santos
  • O homem do Sputnik (1959), de Carlos Manga
  • Aruanda (1960), de Linduarte Noronha
  • O assalto ao trem pagador (1962), de Roberto Farias
  • O pagador de promessas (1962), de Anselmo Duarte
  • Os cafajestes (1962), de Ruy Guerra
  • Porto das Caixas (1962), de Paulo Cezar Saraceni
  • Vidas secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos
  • À meia-noite levarei sua alma (1964), de José Mojica Marins
  • A velha a fiar (1964), de Humberto Mauro
  • Deus e o Diabo na terra do Sol (1964), de Glauber Rocha
  • Noite vazia (1964), de Walter Hugo Khouri
  • Os fuzis (1965), de Ruy Guerra
  • A falecida (1965), de Leon Hirszman
  • São Paulo, sociedade anônima (1965), de Luiz Sergio Person
  • A entrevista (1966), de Helena Solberg
  • A hora e a vez de Augusto Matraga (1966), de Roberto Santos
  • O padre e a moça (1966), de Joaquim Pedro de Andrade
  • Todas as mulheres do mundo (1966), de Domingos de Oliveira
  • A margem (1967), de Ozualdo Candeias
  • Esta noite encarnarei no teu cadáver (1967), de José Mojica Marins
  • O caso dos irmãos Naves (1967), de Luiz Sergio Person
  • O menino e o vento (1967), de Carlos Hugo Christensen
  • Terra em transe (1967), de Glauber Rocha
  • O bandido da luz vermelha (1968), de Rogério Sganzerla
  • A mulher de todos (1969), de Rogério Sganzerla
  • Macunaíma (1969), de Joaquim Pedro de Andrade
  • O dragão da maldade contra o santo guerreiro (1969), de Glauber Rocha
  • O despertar da besta (Ritual dos sádicos) (1970), de José Mojica Marins
  • Matou a família e foi ao cinema (1970), de Julio Bressane
  • Um é pouco, dois é bom (1970), de Odilon Lopez
  • Bang bang (1971), de Andrea Tonacci
  • Sem essa, Aranha (1971), de Rogério Sganzerla
  • São Bernardo (1972), de Leon Hirszman
  • Toda nudez será castigada (1972), de Arnaldo Jabor
  • Alma no olho (1973), de Zózimo Bulbul
  • Compasso de espera (1973), de Antunes Filho
  • Os homens que eu tive (1973), de Tereza Trautman
  • A Rainha Diaba (1974), de Antonio Carlos da Fontoura
  • Dona Flor e seus dois maridos (1976), de Bruno Barreto
  • Iracema, uma transa amazônica (1976), de Jorge Bodanzky e Orlando Senna
  • Lúcio Flávio, o passageiro da agonia (1977), de Hector Babenco
  • Mar de rosas (1977), de Ana Carolina
  • A lira do delírio (1978), de Walter Lima Jr.
  • Tudo bem (1978), de Arnaldo Jabor
  • A mulher que inventou o amor (1980), de Jean Garrett
  • Bye Bye, Brasil (1980), de Carlos Diegues
  • Pixote, a lei do mais fraco (1980), de Hector Babenco
  • Eles não usam black-tie (1981), de Leon Hirszman
  • O homem que virou suco (1981), de João Batista de Andrade
  • Os saltimbancos trapalhões (1981), de J.B. Tanko
  • Das tripas coração (1982), de Ana Carolina
  • Onda nova (1983), de Ícaro Martins e José Antonio Garcia
  • Pra frente, Brasil (1983), de Roberto Farias
  • Amor maldito (1984), de Adélia Sampaio
  • Cabra marcado para morrer (1984), de Eduardo Coutinho
  • Memórias do cárcere (1984), de Nelson Pereira dos Santos
  • A marvada carne (1985), de André Klotzel
  • Filme demência (1986), de Carlos Reichenbach
  • A hora da estrela (1986), de Suzana Amaral
  • Ilha das Flores (1989), de Jorge Furtado
  • Que bom te ver viva (1989), de Lúcia Murat
  • Superoutro (1989), de Edgard Navarro
  • Alma corsária (1994), de Carlos Reichenbach
  • Carlota Joaquina, princesa do Brazil (1995), de Carla Camurati
  • Terra estrangeira (1995), de Daniela Thomas e Walter Salles
  • Baile perfumado (1997), de Lírio Ferreira e Paulo Caldas
  • Central do Brasil (1998), de Walter Salles
  • O auto da Compadecida (2000), de Guel Arraes
  • Bicho de sete cabeças (2001), de Laís Bodanzky
  • Lavoura arcaica (2001), de Luiz Fernando Carvalho
  • Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles e Kátia Lund
  • Edifício Master (2002), de Eduardo Coutinho
  • Madame Satã (2002), de Karim Aïnouz
  • Cinema, aspirinas e urubus (2005), de Marcelo Gomes
  • O céu de Suely (2006), de Karim Aïnouz
  • Serras da desordem (2006), de Andrea Tonacci
  • Jogo de cena (2007), de Eduardo Coutinho
  • Saneamento básico, o filme (2007), de Jorge Furtado
  • Santiago (2007), de João Moreira Salles
  • Trabalhar cansa (2011), de Juliana Rojas e Marco Dutra
  • O som ao redor (2013), de Kleber Mendonça Filho
  • O menino e o mundo (2013), de Alê Abreu
  • Branco sai, preto fica (2015), de Adirley Queirós
  • Que horas ela volta? (2015), de Anna Muylaert
  • Aquarius (2016), de Kleber Mendonça Filho
  • As boas maneiras (2017), de Juliana Rojas e Marco Dutra
  • Arábia (2018), de Affonso Uchoa e João Dumans
  • Marte um (2022), de Gabriel Martins
  • Mato seco em chamas (2022), de Adirley Queirós e Joana Pimenta
  • Ainda estou aqui (2024), de Walter Salles
  • O Agente Secreto (2025), de Kleber Mendonça Filho

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 12 de maio de 2026.