Job – “trabalho” em inglês – dá título a uma peça escrita pelo estadunidense Max Wolf Friedlich, cuja versão brasileira, dirigida por Fernando Philbert e com os atores Bianca Bin e Edson Fieschi, entra em cartaz na Grande João Pessoa, neste fim de semana. Serão três sessões no Intermares Hall, situado na BR 230, em Cabedelo: na sexta-feira, às 21h; no sábado, às 19h; e no domingo, às 18h. Os ingressos estão disponíveis no site Sympla e custam de R$ 70 (meia para as fileiras de P a S) a R$ 200 (inteira para as fileiras de A a E).
No enredo, a exaustão laboral leva a protagonista Jane (Bianca) a encarar limites que jamais pensou ultrapassar. Ela trabalha como moderadora de conteúdo de redes sociais, sendo responsável por manter as postagens dentro dos chamados “padrões da comunidade” e coibindo, por exemplo, discursos de ódio e vídeos com nudez. Exaurida, Jane tem uma violenta crise de burnout, que acaba sendo filmada e compartilhada na internet.

- Peça acontece basicamente no consultório, com passagens em flashback, escalando momentos de tensão entre analisada e analista
Mediante a repercussão do caso, ela é afastada do posto e encaminhada para uma avaliação psicológica. Mas ao chegar ao consultório de Loyd (Edson), a protagonista se dá conta de que conhece seu analista mais do que deveria — o encontro põe a dupla num permanente e perigoso estado de tensão.
Em entrevista para A União, Bianca Bin explica que apesar da possibilidade de ter acesso às montagens anteriores da peça, ela preferiu construir sua versão de Jane “do zero”, a partir das sensações que a premissa despertava na atriz, adicionando a esse perfil temas comuns a todos os públicos, dos EUA ou do Brasil.
“A hiperexposição, o contato constante com estímulos muito intensos... Ela vive no limite entre o suportável e o insuportável e isso, de alguma forma, dialoga com o nosso tempo. Então, fui buscando referências nas pessoas ao meu redor e, também, na forma como a gente tem lidado com a saúde mental hoje”, afirma.
A peça centraliza sua ação no consultório, com os personagens narrando boa parte desses acontecimentos em flashback. Numa das sequências de maior impacto, Jane aponta uma arma para Loyd. Segundo Bianca, em casos como o de Job, com apenas dois atores em cena, a sinergia precisa ser total.
“Em dupla, tudo fica mais exposto, qualquer deslocamento é percebido, mas, com o Edson, foi um processo muito bonito de construção. A gente foi encontrando essa afinação na prática, no ensaio, na repetição, mas, principalmente, na confiança. É uma relação muito baseada na escuta, no tempo do outro, no respeito”, sustenta.
Realizado em solo norte-americano por Michael Herwitz, Job, um thriller, estreou em 2023 no circuito independente dos Estados Unidos, mas a boa resposta do público e da crítica transportou o espetáculo para o âmbito da Broadway e, na sequência, para outros países. No Brasil, a peça foi traduzida por Alexandre Tenório e lançada em São Paulo no segundo semestre de 2025, com repercussão positiva das platéias. Em solo nacional, a produção é do próprio Edson Fieschi, por meio da Borges & Fieschi Produções Culturais: o ator que empresta corpo e voz para o intrigante Loyd soma mais de 40 anos de carreira no teatro e na TV.
Repensar limites
Imersa no teatro desde a adolescência, Bianca Bin tornou-se conhecida do grande público em 2009, ao passar num teste da TV Globo para viver a protagonista de Malhação. Nos anos seguintes, continuou a ser escalada para papéis centrais em outras novelas, afastando-se, por hora, dos palcos — Açucena em Cordel encantado (2011); Carolina em Guerra dos sexos (2012); Amélia em Joia rara (2013); e Maria em Êta mundo bom! (2016). Mas sua personagem de maior destaque foi a heroína Clara, de O outro lado do paraíso (2017).
Mesmo diante do êxito na TV, Bianca decidiu deslocar-se para o cinema e retomar seu vinculo com o teatro: na última década, estrelou os longas-metragens Canastra suja (2016), As verdades e O amante de Júlia (ambos de 2022). No mesmo período, integrou as peças Jardim de inverno (2022) e O nome do bebê (2023).
A TV acabou ficando para segundo plano, por uma razão bem definida: o longo tempo dedicado a ela. Ainda assim, fez participações em Êta mundo melhor! (sequência da novela de 2016, no ar em 2025 e 2026) e no remake de Dona Bêja — produção que chegou em 2026 ao catálogo da HBO Max, com apenas 40 capítulos.
A “recusa” a novelas com um número mais extenso de capítulos tornou-se um fato anedótico em portais de entretenimento brasileiros, que divulgaram matérias sobre o assunto — a atriz teria declinado de papéis em A dona do pedaço (2019) e Salve-se quem puder (2020). Mas Bianca esclarece, reconhecendo a importância do gênero em sua vida, ela não descarta uma volta.
“Se surgir um projeto que faça sentido artisticamente e que esteja alinhado com o momento que eu estou vivendo, claro que pode acontecer. Mas acho que, hoje, minhas escolhas passam por esse lugar de cuidado, comigo e com o que quero entregar”, crava.
Ao mesmo tempo, a intérprete assevera que estar em empreitadas mais pontuais, nos palcos ou nos estúdios do cinema, e num ritmo menos frenético do que o da teledramaturgia — com a gravação de seis capítulos por semana — garante a ela uma presença maior em tais iniciativas e um diálogo mais estreito com o texto, com os colegas e com o público.
“Precisava de um espaço onde eu pudesse estar mais inteira. Projetos menores, como o teatro, me oferecem isso: uma troca mais direta, um tempo diferente, uma possibilidade de aprofundamento que, às vezes, na correria de uma novela longa, fica mais difícil”, sinaliza.
Nascida em 1990 e, portanto, parte de uma das primeiras gerações com acesso extenso à internet e às redes sociais, Bianca recorda que, num primeiro momento, tais ferramentas promoviam uma aproximação positiva com as outras pessoas, algo, que, com o passar dos anos, deu lugar a conflitos e uma captura constante de atenção.
“Eu já me senti sobrecarregada, sim, não como a Jane, claro, mas o suficiente para entender que é preciso estabelecer limites. Hoje, eu tento ter uma relação mais equilibrada. Filtrar, silenciar quando necessário, respeitar meus momentos. Acho que é um aprendizado constante”, aponta.
Questionada sobre uma possível abordagem pedagógica de Job em torno das relações de trabalho e da superexposição na internet , a atriz conclui que o teatro não precisa necessariamente ensinar, mas plantar a inquietação. “A arte tem esse lugar de abrir caminhos internos. Se o espetáculo fizer com que alguém repense os seus próprios limites, a forma como está vivendo e consumindo esse mundo digital, isso já é muito significativo para nós. Nem sempre a gente sai com respostas, mas sair com perguntas já é extremamente potente”, finaliza.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 25 de março de 2026.