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Filósofo, agitador, anárquico

publicado: 14/10/2026 09h03, última modificação: 14/10/2026 09h04
Jomard Muniz de Britto, que morreu segunda, marcou uma geração de artistas e intelectuais com sua visão experimental e que fugia dos cânones
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Jomard foi um importante professor da UFPB e artista experimental | Foto: Instagram/@Barsuper8

por Esmejoano Lincol*

O paraibano Bertrand Lira era, nos anos 1980, estudante do antigo curso de Comunicação Social da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Em sua trajetória acadêmica, manteve contato estreito com Jomard Muniz de Britto, docente na instituição. O pupilo saía intrigado das aulas de Fundamentos Científicos da Comunicação, ministradas pelo mestre — pernambucano que falecido na última segunda-feira (12), aos 89 anos. “Eu não anotava nada”, recorda o agora cineasta, já que o veterano sequer pegava no giz. “É porque o quadro negro era ele”, completa outro ex-aluno, o atual cineasta, também pernambucano, Hilton Lacerda.

Para além do título de precursor do tropicalismo em Pernambuco  — por meio do manifesto que assinou e que difundiu no estado) e da formação em Filosofia,  que o ajudou a angariar o arcabouço cultural que utilizava, concomitantemente, em todas as áreas em que atuou, Jomard ficou eternizado pelos ofícios da docência e do cinema, campos que se imbricavam com frequência. As aulas e os filmes, a propósito de sua condução incomum e desconstrutiva, influenciaram gerações de aprendizes no Nordeste, sobretudo na Paraíba. 

Inspirados e feitos por Jomard Muniz de Britto: Tatuagem, de Hilton Lacerda, presta homenagem ao professor, que dirigiu Inventário de um feudalismo cultural nordestino | Fotos: Arquivo A União

É o caso de Bertrand Lira, que acompanhou a repercussão de curtas como O palhaço degolado (1977), transcrição audiovisual do poema “Outdoors de recado”, do maranhense Wilson Araújo de Souza. Lira registrou os bastidores de outro de seus filmes, Esperando João (1981), com o ator Francisco Marto. “Ele ensinou coisas que serviram para a vida toda: a irreverência, os questionamentos. Ele era um provocador e havia toda uma efervescência cultural naquele momento. Nossa turma, por exemplo, tinha Chico César [cantor], Henrique Magalhães [quadrinista], Sílvio Osias [jornalista], Pedro Nunes [também realizador]...”.

João de Lima Gomes, atual presidente da Academia Paraibana de Cinema (APC), atestou, com pesar, o luto de Jomard enquanto imortal do instituição, ocupante da cadeira 42. Lima asseverou, em adição, o peso dos ensinamentos do catedrático. “Fui dele aluno em duas turmas, atuando no Nudoc [Núcleo de Documentação Cinematográfica] desde o segundo estágio em Cinema Direto [na França], quando Jomard externava em diversas camadas suas divergências e polêmicas com [o maestro e docente] Pedro Santos. As aulas eram sempre de muita diversidade de ideias e com seu viés anarquista procurava incendiar as turmas”.

Lima relembra, ainda, as conversas que ele e o colega Pedro Nunes tiveram com o professor sobre Gadanho, o curta de estreia da dupla: todas muito “estimulantes”, diz. Quando ministrava aulas na Paraíba, viajava de Recife à capital vizinha e pousava com frequência no extinto Hotel Aurora, no Centro de João Pessoa. A partir da segunda metade dos anos 1980, Jomard Muniz de Brito concentrou suas classes na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). “Acredito que estava cansado de tanta viagem”, conjectura o ex-aluno, sobre a saída da UFPB.

Homenagem “tatuada”

Hilton Lacerda conheceu Jomard Muniz de Britto nos bastidores da turnê Cinema transcendental, show de Caetano Veloso, que passou por Recife em 1979 — àquela altura, uma espécie de figura mítica local. “Mas fiquei mais próximo dele a partir da UFPE, porque tinha um amigo que era pupilo dele, Humberto Varejão. O meu crescimento foi pautado sempre pelo Jomard filósofo e, digamos, agitador cultural”. Ele assinala a impressão dos alunos sobre suas aulas nessa outra faculdade: “Ele criou uma espécie de conduta onde foge dos cânones”.

A Lua luta por Lula, restaurados recentemente

O encantamento com a obra e a figura de Jomard foi materializado no longa-metragem Tatuagem, lançado por Lacerda em 2013. Concebido como um registro documental sobre o mestre, o projeto acabou se tornando um amálgama de várias manifestações culturais pernambucanas. O perfil do professor, por sua vez, inspirou, objetivamente, o personagem Joubert (Sílvio Restiffe). “Era uma tentativa de descolonizar o olhar pelo excesso. Quando Jomard assistiu, ficou muito entusiasmado. Ele até me pediu o roteiro, mesmo que fosse um tipo de cinematografia que não conversava exatamente com o cinema que ele realizava”.

Em entrevista para A União, Lacerda lamentou não ter estar em Recife para o sepultamento do mestre, realizado na segunda-feira, no Cemitério de Santo Amaro, mas compartilhou o apelido que usava para caracterizar Jomard: “o homem da ponte”, responsável pelo intercâmbio entre os mundos marginal e acadêmico. “Ele tinha um pensamento de ‘proa’, que chacoalhava tudo ao seu redor. Com a morte física de Jomard, acho que a gente perde pouca coisa, porque o que ele deixou sempre vai estar presente”.

Provocação

Os quase 70 anos de carreira de Jomard Muniz de Britto foram analisados e documentados em diversas obras. JMB, o famigerado (2011), documentário de Luci Alcântara, emula a linguagem dos filmes do homenageado para recontar sua história. Já os pesquisadores Aristides Oliveira e Fabiana Moraes tentaram encapsular sua biografia em Jomard Muniz de Britto: professor em transe (Editora Cepe, 2017), que focalizou uma passagem importante — o contato com Paulo Freire e o auxílio na dispersão de seu método de alfabetização de adultos. Esse vínculo resultou na sua prisão, na década de 1960.

A ONG Cinelimite, por meio da sua Iniciativa de Digitalização de Filmes Brasileiros (IDFB), trabalha, atualmente, na restauração de 33 curtas dirigidos por Jomard, produzidos dos anos 1970 a 1980. Dois deles estão prontos e foram exibidos em mostras recentes: Inventário de um feudalismo cultural nordestino ou fricção histórico-existencial (1978) e A Lua luta por Lula (co-dirigido com Eduardo Lima, 1981); este último pode ser visto gratuitamente por meio do site da organização, www.cinelimite.com.

“Foi o próprio Jomard quem preservou esses materiais. Infelizmente, alguns títulos de sua filmografia estão perdidos em seus formatos originais. Para parte dessas obras, conseguimos localizar cópias antigas em vídeo, que agora passam a representar os melhores elementos para sua preservação”, explica William Plotnick, pesquisador estadunidense à frente do projeto. As cópias físicas, já digitalizadas, estão, agora sob os cuidados da família e, em 2027, devem ser depositadas no acervo permanente de uma instituição pública.

Em 2025, mesmo com a saúde debilitada pela doença de Parkinson, Jormard assistiu a cópias não finalizadas das restaurações e mostrou-se satisfeito com o resultado. Plotnick assinala que a grandeza de sua obra não repousa apenas na quantidade de títulos, mas na capacidade que possuem de misturar cinema, poesia, política e, sobretudo, provocação. “Quanto mais conheço sua produção, mais me convenço da importância de recuperar e recolocar esses filmes em circulação. Ele foi um dos grandes artistas experimentais do cinema brasileiro e de que sua obra ainda tem muito a oferecer às novas gerações”, conclui.  

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 14 de outubro de 2026.