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Gregos e troianos

publicado: 24/04/2026 09h03, última modificação: 24/04/2026 09h03
Letícia Sabatella e Daniel Dantas apresentam a peça Ilíada no Intermares Hall, em Cabedelo, hoje e amanhã
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Letícia Sabatella e Daniel Dantas fazem uma releitura de parte da obra clássica de Homero | Fotos: Divulgação

por Esmejoano Lincol*

Amplamente citado como um dos maiores poetas do ocidente, o grego Homero, cujo alegado ano de nascimento está situado entre os séculos 9 e 8 a.C., pode nunca ter existido. Pesquisadores como o estadunidense Adam Nicolson encampam estudos controversos sobre a figura por trás de uma das maiores narrativas da história – esta, sim, a única impressão que parece ser unânime sobre Ilíada, poema épico que acompanha o herói Aquiles em meio a Guerra de Tróia. A obra surge personificada na fala dos atores Letícia Sabatella e Daniel Dantas, ambos sob a direção de Otávio Camargo. Essa montagem ganha duas sessões na Grande João Pessoa neste fim de semana: hoje e amanhã (25), sempre às 20h, no Intermares Hall, situado na BR 230, em Cabedelo. Os ingressos estão disponíveis no site Bilheteria Digital e custam de R$ 70 (meia para as fileiras de P a S) a R$ 200 (inteira para as fileiras de A a E).

Letícia e Daniel se detêm na declamação dos cantos primeiro e vigésimo do poema, por meio da consagrada tradução do maranhense Manuel Odorico Mendes, datada do século 19. No primeiro segmento, os conflitos são estabelecidos: ao dividir o “espólio humano” angariado em Tróia, o guerreiro Agamenon toma por esposa Criseida enquanto Aquiles fica com Briseida. Forçado a devolver sua consorte, Agamenon sequestra Briseida, gerando a fúria de Aquiles. Já o segundo versa sobre a “A batalha dos deuses”, momento em que Olimpo decide intervir nos destinos do protagonista e dos troianos, que digladiam mortalmente.

O projeto faz parte de uma longeva empreitada da Iliadahomero, companhia de teatro que tem levado a público, desde 1999, versões da obra clássica, alternando os cantos e os artistas. A configuração apresentada agora surgiu em 2022, mas Letícia já havia levado a público outra interpretação, anos antes. “Cada um desenvolve a sua partitura. A minha é corporal, inspirada pelo som das palavras e pelo sentido manifesto do arquétipo delas. Daniel tem mergulhado nas releituras de Homero e nas aulas de grego. É caloroso, divertido, tem muita ironia e a nossa versão mais informal da história, antes de cada canto”, informa a atriz.

Ilíada também é perspectivada sob outros pontos de vista por seu elenco atual, mesmo nos versos originais. Na Antiguidade, por exemplo, não havia atrizes no palco – mesmo os personagens femininos eram interpretados por homens. Letícia ressalta, todavia, que o próprio Homero suscita debates nesse sentido. “Ele tece críticas a hipermasculinidade dos bravos guerreiros, extremamente humanos, com suas soberbas, covardias, ignorâncias, vulnerabilidades, e traça reflexões sobre a existência, o sentido da guerra e da vida. Um prato cheio para refletirmos sobre a sociedade e a masculinidade tóxica no patriarcado”, assevera.

Deuses humanos            

Os dois atores encenam o começo da obra e a passagem da batalha dos deuses
Daniel Dantas recorre à mística do teatro para dizer que, na verdade, foram os trechos da Ilíada que os escolheram e não o contrário. O ator aponta ainda que os acontecimentos narrados acabam por se complementar – a ofensa de Agamenon, que faz Aquiles abandonar a batalha, no canto I, ecoa no seu retorno à guerra, no canto XX. “Mas não sei se consigo fazer algum recorte ‘preferido’ do texto. Adoro o destempero de Agamenon, a fúria de Júpiter, fala cuidadosa de Nestor, Aquiles recontando para mãe os acontecimentos como se fosse, ele mesmo um rapsodo... Toda a linguagem e toda a dificuldade [do texto] me encantam”, crava.

Os atores encenam com cenários e figurinos sóbrios – assim sendo, toda a atenção da platéia acaba concentrada na emissão do texto. Comparando os desafios de apresentar um monólogo ou de associar-se a um elenco numeroso, Daniel atesta que ambas as experiências são difíceis, mas que os ensaios o fizeram reflexivo diante da idéia de encarar a platéia de Ilíada. “Apavorante. Mas era impossível não fazer. As repetições são as coisas mais traiçoeiras, os trechos em que as palavras são semelhantes mas não exatamente iguais, as piores armadilhas. O público? Faço o melhor que posso e torço para que ele venha comigo”, analisa.  

O intérprete é reticente quanto a cravar o motivo pelo qual os versos de Homero são celebrados na contemporaneidade frente a outros que foram apagados (inclusive literalmente) do imaginário coletivo. Mas Daniel sugere que o caráter basilar e identificável dos conflitos de Ilíada pode ser uma das razões. “O autor traz deuses humanos, ciumentos, raivosos, irracionais, medrosos (!) e homens quase divinos, capazes de enormes proezas e coisas abomináveis também. Parece, às vezes, lamentar as mortes e pontuar a inutilidade fundamental dos deuses. Talvez por isso digam que ele é o primeiro humanista”, assevera. 

Casal em cena

O contato com os textos clássicos não é novidade na carreira da dupla. Letícia, por exemplo, interpretou Antígona, de Sófocles, na peça Trágica.3, com direção de Guilherme Leme. Nesta adaptação, outros dois mitos ganharam novos contornos: Miwa Yanagizawa defendeu Electra, outra criação de Sófocles; e Denise del Vecchio fez Medeia, de Eurípides. “Foi uma performance cênico-musical e concorremos , eu, Fernando Alves Pinto e Marcelo H ao Prêmio Shell pela trilha que criamos. Estudar os clássicos é fundamental e os gregos deixaram muita herança para que possamos nos compreender ainda hoje”, manifesta ela. 

Por outro lado, a proximidade de Daniel com os mitos da Antiguidade foi estreitada com a leitura das traduções brasileiras das matrizes clássicas, na adolescência e, antes ainda, com a “coleção” de guerreiros greco-romanos, como Jasão e Teseu, que ele acumulou, na infância – presentes da mãe, trazidos de muitas viagens. “Mas nunca me imaginava montando nenhuma das peças que eu lia. Quando o Canto I apareceu na minha vida eu percebi que ali estavam duas das coisas que eu queria e que me faltava fazer em cena: um grego e um ‘monólogo’. Era como se fosse uma peça a mais encaixando num quebra-cabeça”, atesta.

Letícia Sabatella e Daniel Dantas partilham mais do que o espaço no palco e a paixão pelos clássicos: eles são um casal desde 2019. A atriz tornou-se conhecida do grande público em 1991, por meio de sua participação na novela O dono do mundo, de Gilberto Braga; lá ela conheceu o seu primeiro marido, Ângelo Antônio, e o atual, que pertencia a outro núcleo. “Desde aquela época, Daniel se tornou uma referência profissional, de ator e de colega intelectual, sensível e generoso. É o meu ator preferido. Fora da curva e despido de qualquer pudor, medos. Impecável, louco, milimétrico, gracioso. É, enfim, um monstro”, declara ela.

Daniel devolve o elogio afirmando que desde os bastidores de O dono do mundo notava, na jovem artista, a singularidade de seu trabalho. Com o passar dos anos, e antes de iniciarem o relacionamento, o seu par de Letícia pôde acompanhar sua evolução e suas conquistas. “Lembrei de um vídeo que vi recentemente em que o saudoso Dennis Carvalho [diretor], a define como ‘corajosa’, ‘alguém que não teme o risco’. Ela faz todas as personagens com uma integridade impressionante, por vias inusitadas, ou perfeitamente corriqueiras, se for o que o trabalho exige. Na Ilíada não é diferente”, avalia ele.  

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*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 24 de abril de 2026.