Era uma vez, a maior história de todos os tempos. Mas com um toque bem nordestino. Assim é a premissa do Baile do Menino Deus, espetáculo apresentado há quatro décadas no Centro do Recife e que recria o nascimento de Jesus Cristo com elementos regionais na trama, nos figurinos e nos cenários. A edição deste ano será encenada gratuitamente, de hoje a quinta-feira (25), sempre às 20h, no Marco Zero da capital pernambucana. Um compacto do Baile será exibido na Globo Recife, no próximo sábado (27), e ficará disponível no catálogo do Globoplay em seguida, para os assinantes. O jornal A União dá destaque à presença de dois artistas paraibanos no elenco: Lucas Dan, que dá vida a José, pai do Messias; e Elon, um dos solistas. 
Baseado no livro homônimo de Ronaldo Correia de Brito (também diretor) e Assis Lima, com composições de Antônio Madureira, a narrativa utiliza manifestações populares brasileiras, como as lapinhas e as cantigas tradicionais para compor essa nova versão na natividade. Acompanham os atores dois coros (um adulto e outro infantil) e um corpo de baile. Lucas Dan partilha cenas com a atriz pernambucana Laís Senna, que assume o papel de Maria. “Lucas também participa como acordeonista. O Baile do Menino Deus tornou-se a festa natalina do Recife, de um modo como celebrava-se antigamente: as pessoas nas ruas e praças e com um instante de trégua nas desigualdades sociais, pelo louvor à música, à dança, ao teatro”, sustenta Ronaldo Correia.
O texto baseia-se na infância do autor no município do Crato, interior do Ceará, e na lembrança que tem das irmãs, que montavam, com esmero, o presépio que ocupava a sala de sua residência. Os adornos do passado ganham vida no presente, por meio da história do nazareno, que virá ao mundo, e de sua família, que procura uma pousada. “Depois de muita procura, encontram a casa, mas a porta está fechada. Começa um esforço de rezas e sortilégios para abrir a porta e fazer a festa. Estamos diante de um tema urgente: a falta de moradia e as fronteiras cerradas. O público se identifica e participa. Um ator diz: ‘De um mundo sem portas ando à procura / para a porta sem portas sigo adiante’”, detalha o diretor.
No palco com a família
Elon integra o Baile do Menino Deus há três anos, também como parte do coro. O cantor e compositor natural de Pombal, no Sertão paraibano, destaca o fato de o espetáculo reunir cerca de 70 mil pessoas a cada sessão, de asseverar folguedos tradicionais e comuns a todos os estados do Nordeste e difundir, por conseguinte, as raízes indígenas, africanas e ibéricas que compõem o Brasil. “Pelo espetáculo, já passaram outros conterrâneos, como Chico César e Elba Ramalho. Então, para mim, sendo artista da Paraíba, é uma satisfação imensa fazer parte. A preparação tem acontecido durante todo o mês de dezembro. E, este ano, realizamos um cortejo pelo Recife Antigo com a presença de grupos tradicionais populares do município”, declara.
Para Elon, Natal é momento de se estar junto aos parentes. Recorrendo às memórias pessoais, ele recorda os dezembros que passou na sua cidade de origem, na casa da avó. Por conta de seu compromisso com o Baile, os últimos três feriados natalinos foram celebrados em Pernambuco. Para compensar, em 2025, pôde antecipar os festejos do mês em João Pessoa. “A celebração começou dia 6, no Natal da Usina: trouxe minha família para o palco e fizemos um mergulho na cultura popular do Sertão, com músicas dos reisados e dos congos de Pombal. Essas brincadeiras populares também estão presentes no Baile do Menino Deus. E, este ano, meus parentes estarão em Recife para assistir ao espetáculo pela primeira vez”, revela.
Recordando as conquistas dos últimos 12 meses, Elon assevera que o ano de 2025 foi crucial para sua carreira. Além de consolidar sua participação no conjunto Pertença, o artista fez shows solos em Natal, Manaus e São Paulo, revisitando, ainda, o interior do estado. Todo esse ofício alicerçou um projeto mais importante — seu primeiro disco solo, Transverberar. “Estou ‘transverberando’ esse álbum, a ser lançado ainda no primeiro semestre de 2026. Esse trabalho já está em circulação, mas no próximo ano será entregue nas plataformas digitais. Também prevemos o lançamento de um material ao vivo. Estamos em processo de planejamento, mas pretendemos ampliar os espaços e públicos com novas turnês”, antecipa.
Natal com o primogênito
Lucas Dan, instrumentista e arranjador, é membro do conjunto Os Fulano. Também experiente no Baile, ele tergiversa sobre as novidades para este ano, mas confidencia que os figurinos, assinados por Marcondes Lima, ganharam uma repaginada. As novas versões dos adornos comunicam-se ainda mais com o clima do espetáculo, analisa o artista. “Eu acho que a gente conseguiu avançar também bastante na confiança no palco de cena entre todo mundo que divide o palco com José e com Maria. Avançar no nível de intimidade, cênica, de confiança. E acho que isso também reflete no resultado final. Quanto às outras novidades, prefiro convidar todo mundo para assistir e descobrir”, resume.
A experiência da paternidade não se resume à ficção. Por coincidência, mas não por acaso, quando questionado pela reportagem sobre qual foi o seu Natal mais marcante, Lucas cita, sem pestanejar, o de 2022, ano de nascimento de seu primogênito, Dom. O santa-ritense rememora que o menino tinha poucos meses quando “participou” de sua primeira ceia em família. “Para mim, foi muito especial ter passado esse primeiro Natal com meu filho. Ele dormiu a noite inteira, nem deu as caras. Mas trouxe para mim o significado de uma continuidade familiar, uma continuidade ancestral, um ciclo que dava seguimento diante dos nossos olhos, na presença de irmãos, avós, mães, pais e nosso fruto, o pequeno Dom”, lembra.
O instrumentista também assinala o ano de 2025 com positivo, Lucas Dan cita as apresentações internacionais que fez nesses últimos 12 meses, em países como França, Alemanha (no Miudinho, festival de forró) e Finlândia, seja como artista solo, em colaboração com sua banda, ou como parte da equipe de outros artistas, a exemplo de Silvério Pessoa. “Em 2026, tem livro de poesia para chegar. E apresentarei para o mundo o meu trabalho autoral solo na música. Mas naturalmente que vou continuar tocando com todo mundo que eu toco, porque amo andar em bando. Tem os 15 anos de existência de Os Fulano, planejamos aí turnês no Nordeste, no Brasil e internacionais e um disco comemorativo”, resume o artista.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 23 de dezembro de 2025.

