As origens geográficas e culturais de Luana Flores estão presentes na obra da paraibana mesmo de forma implícita, nos ritmos e nas expressões que ela utiliza para construir seus arranjos e seus versos, como em “Chamado” e “Reza”, ambas presentes no seu primeiro EP, Nordeste futurista, estreia de 2021. Em sua nova empreitada, o “chão” e as “raízes” retornam como elementos literais e simbólicos, aliados ao feminino e à própria música: a faixa “Coragem na fé”, estreia na semana passada nas plataformas digitais, antecipa o seu álbum de estreia, que deve chegar a público no mês que vem.
A cantora atomiza o mote da semente como força criadora do mundo — e sobretudo na arte: “Sou os ‘caroço’ que caiu da composteira / que virou quatro mangueiras / que te levou a plantar / Enraizando esse acontecimento / que te ensinou esse dia / o poder de germinar”, atesta uma das estrofes da faixa.
“Eu acredito que o corpo é território e quando o meu corpo se expressa, é o meu território se comunicando. Costumo escrever muito a partir daquilo que eu vivo, que eu percebo, que chega para mim. E muitas coisas, que eu vou entender só mais na frente, estão no inconsciente coletivo”, explica.
O single foi lançado num vídeo que, diferentemente do tradicional videoclipe, tem apenas imagens estáticas de Luana e a letra da canção. Uma das fotos chama a atenção na montagem — a própria artista, criança, em contraste com sua persona adulta.
“Foi do meu aniversário de três anos, quando ganhei de presente o meu primeiro microfone. Venho trabalhando há um tempo com memória, memória ancestral, e tenho entendido, também com esse novo trabalho, que o ponto de partida é a minha criança: ela rompeu a casca e muitas outras coisas para que eu chegasse até aqui”, afirma.
“Coragem na fé” conta com o reforço de Ramiro Galas, músico e produtor piauiense radicado em Brasília, que aplica beats eletrônicos em suas composições. É a primeira vez que ele aparece creditado como artista convidado de Luana (o famoso “feat”, corruptela em inglês que designa a participação), mas já colaborou com a intérprete em outros projetos.
“Em 2023, eu lancei em ‘Encantarya’, com a participação de Cátia de França, e foi ele quem produziu a faixa. Fizemos também um remix de ‘Eu vem’, do Nordeste futurista, e “Alumeia”, que gravei junto a Juliana Linhares”, detalha.
Luana Flores faz mistério sobre o novo disco, intitulado Cria do sol quente, mas adianta que além de toda a bagagem regional que carrega consigo desde a infância, ela adicionará ao álbum todos os elementos a que teve acesso durante viagens para divulgar o trabalho anterior, base para seus shows.
“Agora vem uma Luana mais madura, depois de ter rodado por muitos lugares. Também me lanço numa carreira internacional: há uma colaboração estrangeira e eu também vou cantar em outra língua. É uma atualização do que já está acontecendo, que vai se abrir para muita coisa”, resume.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 09 de junho de 2026.