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Manoel Carlos foi cronista do Leblon

publicado: 13/01/2026 09h10, última modificação: 13/01/2026 09h10
Autor de “Por Amor” e outras telenovelas marcantes morreu sábado, aos 92 anos
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Manoel Carlos era um pioneiro da TV | Foto: Divulgação/TV Globo

por Esmejoano Lincol*

Trilha sonora estilo “um banquinho e um violão”, passeios pelo Leblon e conversas “fúteis” em restaurantes. Um olhar mais superficial e clichê sobre a obra do ator, escritor e realizador Manoel Carlos pode acender, no presente, leituras parecidas sobre telenovelas como Por Amor (1997), Laços de Família (2000) e Páginas da Vida (2006). Mas a crônica deste pioneiro da televisão no Brasil, falecido no sábado (10), ia muito além de amenidades. Instigava debates sérios e concisos sobre preconceitos e violências, e desaguava em ações que extrapolavam as telas e as tramas de suas famosas Helenas: uma delas, a aprovação do Estatuto do Idoso, precipitada em 2003, graças à exibição da novela Mulheres Apaixonadas.

Sua carreira no audiovisual começou nos anos 1950, integrando o elenco da TV Tupi ao lado de Fernanda Montenegro, Nathália Timberg, Ítalo Rossi e Sérgio Brito. Migraria, mais tarde, para outras esferas do meio, inclusive, com a apresentação da revista eletrônica No Mundo dos Livros. “Maneco”, apelido pelo qual passou a ser conhecido, também dirigiu programas humorísticos e musicais na TV Record, nos anos 1960: Família Trapo (série com Jô Soares e Ronald Golias) e O Fino da Bossa (apresentado por Elis Regina e Jair Rodrigues).

Graças a essa expertise, foi convidado pela TV Globo, em 1973, para produzir o Fantástico, com o objetivo de substituir Chacrinha, após sua saída ruidosa da emissora carioca. Paralelo a tudo isso, estava sua carreira como telenovelista. A primeira delas foi Helena, da obra homônima machadiana, em 1952. No fim dos anos 1970, adaptou outros clássicos da literatura brasileira, na Globo, como A Sucessora (original de Carolina Nabuco) e integrou a equipe do seriado Malu Mulher — um marco, com Regina Duarte.

Em 1980, entrou de soslaio no mítico horário das 20h, tornando-se colaborador de Gilberto Braga em Água Viva, para driblar a estafa do colega. O êxito da parceria forneceu o passe para que, um ano depois, Maneco levasse ao ar Baila Comigo, sua primeira empreitada solo. Em 1983, uma tragédia interrompeu momentaneamente seu caminho exitoso no canal: Jardel Filho, protagonista de Sol de Verão, faleceu em meio às gravações. O fim dessa trama teve de ser antecipado e Maneco entregou os roteiros nas mãos do colega Lauro César Muniz.

Após o fim do contrato, migrou para a TV Manchete e teve, ainda, uma rápida passagem pela Band, na qual escreveu a minissérie O Cometa, a quatro mãos com seu filho, Ricardo de Almeida. O retorno à Globo deu-se em 1991 com Felicidade, às 18h. Voltaria à consagrada faixa das 20h com Por Amor (1997), na qual permaneceria até Em Família (2014), sua última trama. Ao aposentar-se, sem um anúncio oficial, deixou sinopses inéditas. Parte desse legado importante está disponível no catálogo do Globoplay e foi remontado em dois episódios da antologia documental Tributo, produzida pela mesma plataforma.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 13 de janeiro de 2026.