O músico, linguista e professor universitário Luiz Tatit, integrante do Grupo Rumo, nunca escondeu sua grande questão de pesquisa no campo semiótico da canção: a de compreender a relação sinestésica entre melodia e letra. Com a família musical da cantora e compositora Ná Ozzetti, artista que cruzou os caminhos com Tatit desde o fim da década de 1970, a experiência pode ser observada em um produto concreto, já que partiu do verbo a motivação para o irmão, Marco Ozzetti, compor música. A conversão recente dá-se com Música na Poesia, compacto que chega ao mundo fonográfico digital amanhã, no qual Ná Ozzetti vocaliza canções de Marco Ozzetti e da poeta Simone Bacelar.
Assentado em levadas de samba, mais percussivas, Música na Poesia é composto por quatro canções. Em quase cinco minutos “inolvidáveis”, “As bençãos de Oxalá”, faixa de abertura do EP, endereça bamba proteção “Para aqueles que buscam abrigo / Mas a marquise desabou” — fecham a quadra de mensagem otimista “Dividi com você”, “Lugar algum” e “Sou estações”.
Nascida em São Paulo, em 12 de dezembro de 1958, Maria Cristina Ozzetti conta que cresceu ouvindo o irmão tocar. “Ele teve bandas de rock. Na minha adolescência, ele era meu ídolo”, confessa. A intérprete também queria ser cantora de rock, mas acabou seguindo por outros caminhos, profissionalizando-se na música, assim como seus outros irmãos — além de Marco, Dante Ozzetti foi seu grande parceiro durante a trajetória de sua carreira solo. Ná estudou piano na infância, iniciou-se no canto na adolescência e formou-se ainda em artes plásticas.
Marco seguiu compondo canções, mas não as mostrava para ninguém. Eis que, em 2022, descobriu na internet alguns poemas da jornalista e poeta soteropolitana Simone Bacelar, com os quais se encantou a ponto de querer musicá-los. Resultado: produziu as canções, gravou-as em casa e criou um canal no YouTube apenas para servir de repositório daquelas criações.
“Não era uma pretensão dele se lançar como compositor”, diz a irmã. “Mas eu ouvi e gostei muito das canções. Achei que elas tinham muito potencial pra serem lançadas mesmo, para um público maior. Aí ele falou: ‘Vamos então selecionar umas quatro’”.
Com a curadoria realizada pelo próprio Marco e o auxílio experiente de Dante, montou-se uma minibanda: Marco gravou as cordas, Ná assumiu os vocais, a sobrinha Thata Ozzetti embalou a concepção rítmica da percussão e o baixista Chantily respondeu pelos graves — o bassman acompanha a artista desde o seu primeiro álbum solo, o epônimo Ná Ozzetti (1988).
“Eu gosto muito do conjunto, porque, apesar de serem os mesmos compositores, cada um dos poemas da Simone e das músicas do Marco levam para um lugar diferente. A unidade é justamente de serem os mesmos compositores e a formação, mas eu gosto justamente porque as quatro faixas são diferentes”, ressalta ela.
A cantora diz que Marco fez questão de titular o trabalho dessa forma em função da literalidade do processo em lançar música àquela que, por sinal, é já musical por excelência: a poesia. Sempre afeita a experimentações entre as linguagens, Ná Ozzetti remonta às origens criativas de seu cantar, voltado que fora para os processos metaconstitutivos da canção.
Grupo Rumo
Quando de seu surgimento, em 1974, o Grupo Rumo — a despeito de ter sido criado por uma turma de compositores, a exemplo de Luiz Tatit e o músico Hélio Ziskind — ainda não era um conjunto musical. “Mas era um grupo de estudo da canção”, afirma Ná.
A ideia, liderada por Tatit, era estudar o segredo da magia das canções, principalmente os processos que envolviam o cancioneiro brasileiro. Depois começaram a fazer apresentações, mas Ná Ozzetti só veio a entrar no Rumo, seu primeiro trabalho profissional, em 1979. Era a época da chamada “Vanguarda Paulistana”, movimento cultural que se dispunha a testar novos conceitos e técnicas artísticas estranhas ao mainstream, formado por nomes como Itamar Assumpção (1949–2003), Arrigo Barnabé e o grupo musical Premeditando o Breque (o Premê).
“Me identifiquei muito, porque era um grupo que tinha muita experimentação; a gente, assim, se dava muita liberdade. E depois a gente acabou vindo à tona, no comecinho dos anos 1980. Trabalhar com o Rumo por muitos anos, até antes de começar a minha carreira solo, para mim foi uma escola. Está presente no meu jeito de cantar, no meu jeito de pensar música, até hoje”, atesta.
Integravam a formação original do Rumo Luiz Tatit (violão e voz), Ná Ozzetti (percussão e voz) Hélio Ziskind (flauta, saxofone, violão, vocal e voz), Akira Ueno (baixo e percussão), Paulo Tatit (guitarra, violão, baixo e voz), Ciça Tuccori (piano e xilofone), Pedro Mourão (violão e voz), Gal Oppido (bateria), Zecarlos Ribeiro (percussão) e Geraldo Leite (voz). Ná pontua que, depois de sua entrada, o grupo de estudantes da Universidade de São Paulo (USP) decidiu, enfim, que interpretar o mundo não era o bastante, passando a transformá-lo em música.
Gravaram discos — a exemplo de Rumo aos Antigos (1981), Caprichoso (1986) e Universo (2019) — e fizeram muitos shows (fazem ainda) pelo Brasil. “Era dentro da cena independente, então a gente não conseguiu, assim, expandir a nossa presença. Pro Nordeste, a gente nunca conseguiu ir. O máximo foi Belo Horizonte, descemos até Porto Alegre e ficamos muito em São Paulo e Rio. Tive muita vontade de circular mais, mas era um grupo muito grande; era um pouco impeditivo para a gente fazer uma grande circulação naquela época”, detalha.
Fosse hoje em dia, teria sido mais fácil. Afinal, Ozzetti enxerga com benevolência o momento de mais acesso e presença das bandas alternativas em festivais e outras circulações culturais da atualidade. “Gosto muito de ver essa projeção da música independente, porque também tem muita diversidade, né?”, diz ela.
Em 1992, o Rumo anunciava seu fim. Mas, em 2004, o grupo acabou fazendo show comemorativo de 30 anos, o que rendeu um especial de TV que virou DVD. Em 2018, o selo Sesc convidou a turma para um disco de inéditas e, desde aquela data, o grupo vem fazendo pelo menos duas apresentações por ano.
Além do disco de estreia, Ná Ozzetti lançou Ná (1994), Lovelee Rita (1996), Estopim (1999), Show (2001), Balangandãs (2009), Meu Quintal (2011), Embalar (2013), Ná e Zé (2015), embora, para além dos solos, esteja sempre aberta aos projetos mais inesperados.
“Tudo que eu canto é um projeto novo. Eu saio muito do que eu sou para entender a obra do outro. Esse EP foi muito também nesse processo; eu mergulhei nas canções mesmo, na obra, na musicalidade do Marco, nos poemas da Simone. Nunca me imaginei cantando músicas do meu irmão com arranjos dele. Então é um momento novo, uma experiência nova a que eu me dedico”.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 24 de fevereiro de 2026.
