João Batista de Brito tinha acabado de assistir, mais uma vez, ao filme A Rosa Púrpura do Cairo, quando atendeu ao repórter de A União. Essa fantasia do diretor Woody Allen, filme querido pelo crítico e pesquisador paraibano, concede aos seus personagens a possibilidade de transitar entre ficção e realidade. Ele percorre um caminho similar no livro Pão com Sabor de Poesia – Crônicas e (Talvez) Argumentos, que sai com 392 páginas, pela Selinho Editorial. O evento de lançamento, gratuito, da obra ocorre hoje, às 18h, na Sala Vladimir Carvalho da Usina Cultural Energisa, no bairro de Tambiá, em João Pessoa. Participam da estreia os literatos Francisco Gil Messias e Maria Valéria Rezende.
O livro está dividido em duas partes. Na primeira, ele deposita 38 crônicas, que vão muito além da observação do cotidiano presente: “São todas autobiográficas, memorialistas. Parto da minha infância, no bairro de Jaguaribe, passando pela descoberta da sétima arte. No fim, já estou em Manaíra, onde moro agora”. Na segunda, estão os 38 textos que ele define como argumentos cinematográficos: “O leitor comum pode entendê-los como contos. São ficcionais ou verídicos, mas, diferentemente das crônicas, não sou o personagem delas”.
Alguns desses escritos foram compartilhados, previamente, no perfil de João Batista no Facebook. A crônica que dá nome ao livro, por exemplo, rememora o pequeno comércio de seu pai, que lhe deu a falsa fama de “rico” na escola. Menino, ele ajudava na entrega dos pães, logo cedo, pela manhã.
“E aí eu cito, no fim, a frase de um amigo meu, jornalista, Humberto de Almeida, sobre a Jaguaribe daquela época. Quando ele recorda as coisas que tínhamos no bairro, ele se refere ao pão da nossa padaria — era um ‘pão com sabor de poesia’”, explica.
João Batista também traz ao público relatos dos tempos em que foi professor na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), vinculado ao Departamento de Letras naquela instituição, por três décadas.
“As últimas crônicas são sobre a beleza da praia, porque eu gosto de caminhar na calçadinha [na orla de João Pessoa]. Tem, ainda, uma sobre a minha companheira falecida, que morreu com Alzheimer, ‘As canções que minha esposa esqueceu’. Ela, quando tinha saúde, gostava muito de cantar, mas depois perdeu a memória”, lembra.
O caráter poético da obra está justamente no conteúdo. Citando um dos argumentos que lhes são mais caros, “No pátio da igreja”, ele compartilha o relato de uma tragédia, supostamente, ocorrida no início 1920, na Paraíba: um rico fazendeiro que foi direta e indiretamente responsável pela morte da esposa, da filha e do namorado desta.
“Quando ele está bem velho, ele ordena ao padre que seja enterrado no pátio da igreja e que se faça uma marca indicando que o corpo dele está ali, para que o povo venha e pise em cima”, imagina.
Apesar da experiência como pesquisador da sétima arte e do exercício de roteiro que empreende no livro Pão com Sabor de Poesia, João Batista assevera que nunca escreveu um roteiro cinematográfico — e nem pretende fazê-lo. Ainda assim, ele sugere como a tal história do pátio da igreja poderia transformar-se em filme.
“Começaria muitos anos depois, com um menininho sendo repreendido pela mãe por pisar ali, na marca. Ele perguntaria à avó o que aconteceu. Tudo chegaria ao espectador pela boca murcha daquela velhinha”, sinaliza.
Crítico aposentado
Com trajetória profícua junto às letras e as artes, João Batista de Brito tem, no currículo, cerca de 15 livros, com antologias críticas e artigos. Um deles, Imagens Amadas (1995), reúne ensaios que escrutinam a sétima arte, utilizados até hoje em faculdades de Comunicação e Cinema. Para isso, ele utiliza a memória e o conhecimento acumulados em salas de cinema para ilustrar conceitos-chave para investigadores da área.
Noutra obra, Um Beijo É Só um Beijo – Minicontos para Cinéfilos (2001), ele brinca com os roteiros ao resumir a história dos filmes e cria um paratexto a partir deles, na voz de um determinado personagem — por vezes, secundário em relação à trama original. “Neste são 28 minicontos. Aí, no fim do livro, eu faço a relação dos filmes, realmente. Só que não é na ordem em que os textos estão no livro. Então, a pessoa tem que marcar uma coluna de acordo com a outra, entendeu?”, detalha, rindo.
O contato estreito e extenso com o cinema e a literatura têm provocado em João Batista a sensação de que as novas obras — sobretudo as audiovisuais — carecem do encanto que ele notava, com mais afinco, nos filmes da era clássica de Hollywood, que conheceu a partir dos anos 1960.
“Eu até estou divulgando entre os amigos que eu sou um crítico aposentado. Nem quero mais escrever sobre o assunto. Tenho até uma frase sobre isso, ‘Quanto mais eu vejo o cinema de hoje, mais eu gosto do cinema de antigamente”, assevera.
O filme que João Batista assistiu em reprise pouco antes de atender à reportagem de A União, perfaz, por coincidência, uma homenagem à produção cinematográfica dos Estados Unidos no século 20. Em meio a uma sessão de cinema, dentro de A Rosa Púrpura do Cairo, o personagem Tom Baxter (Jeff Daniels) pula da tela para platéia, encantado pela beleza de Cecilia (Mia Farrow) e tenta viver com ela um romance que só poderia existir na ficção. Mas assim com os tipos criados por Woody Allen, o autor de Pão com Sabor de Poesia assume a prerrogativa sobre suas próprias narrativas: “Quem escreve textos autobiográficos briga com a verdade, a memória. Não lhe garanto ter sido realista e fiel em tudo”, conclui, misterioso.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 06 de fevereiro de 2026.
