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Metrópole opressora

publicado: 03/03/2026 08h59, última modificação: 03/03/2026 08h59
Um grande clássico brasileiro está de volta aos cinemas em cópia restaurada: São Paulo, sociedade anônima, que tem sessão única hoje
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Walmor Chagas já tinha carreira consistente no teatro quando estreou no cinema como protagonista do filme | Fotos: Divulgação/Vitrine

por Renato Félix*

Nos anos 1950 e 1960, a capital paulista estava em plena ascensão como polo industrial do país, a caminho de se consolidar como a maior metrópole da América Latina. O diretor e roteirista Luiz Sérgio Person captou essa atmosfera e dialogou com ela através da crise existencial de seu protagonista em São Paulo, sociedade anônima (1965), filme que terá exibição única hoje, às 19h, no Cinépolis do Manaíra Shopping. A Sessão Vitrine Petrobras traz a versão restaurada em 4K de clássico do cinema brasileiro.

O filme efetivamente entrou em cartaz no circuito em cerca de 30 salas pelo país, mas em João Pessoa a exibição resume-se à solitária sessão de hoje à noite. A restauração ficou a cargo de uma parceria entre a Lauper Films, a Cinemateca Brasileira e a Cineteca di Bologna, na Itália, com o apoio da The Film Foundation e a Hobson Lucas Family Foundation.

Tendo completado 60 anos no ano passado, a obra tem Walmor Chagas estreando no cinema como protagonista, em um elenco que conta também com Eva Wilma, Darlene Glória, Ana Esmeralda e Otelo Zeloni. 

Chagas é Carlos, que entra em uma empresa numa época de euforia desenvolvimentista, provocada pela instalação de montadoras de automóveis estrangeiras no Brasil. Logo, ele chega à posição de gerente de uma fábrica de autopeças, que sonega impostos e descumpre a legislação trabalhista.

Apesar de relacionamentos com Ana (Darlene Glória) e Hilda (Ana Esmeralda), ele conhece e se casa com Luciana (Eva Wilma). Mas, apesar de ganhar dinheiro, estar bem casado e ser pai, Carlos não consegue se sentir satisfeito. A cidade, de certa forma, o sufoca e a alienação urbana cobrará seu preço. 

Eva Wilma tem o principal papel feminino de São Paulo, sociedade anônima

São Paulo, sociedade anônima é um grande show visual, com  planos que exploram a paisagem urbana e o interior das fábricas. Logo no começo, a imagem de uma Eva Wilma jogada ao chão de um apartamento, com os prédios da metrópole refletidos na vidraça já impressiona e mostra o apuro imagético do filme de Person.

O filme também é mais um exemplar que mostrava o potencial do Cinema Novo para refletir sobre os centros urbanos, já que o movimento vinha sendo muito identificado principalmente com tramas rurais (como Vidas secas, de 1963, dirigido por Nelson Pereira dos Santos, e Deus e o Diabo na terra do Sol, de 1964, obra de Glauber Rocha.

Na época, o Prêmio Saci, do jornal O Estado de S. Paulo, o elegeu o melhor filme brasileiro do ano. Foi o representante brasileiro para tentar uma indicação ao Oscar, mas não entrou nos cinco finalistas. Mas a sua importância só cresceu com o tempo: em 2015, a Associação Brasileira de Críticos de Cinema elegeu os 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos e São Paulo, sociedade anônima alcançou o sétimo lugar.

Walmor Chagas era gaúcho de Porto Alegre, nascido em 1930. Morava em São Paulo desde o começo dos anos 1950, onde fundou, junto com o colega Ítalo Rossi, o Teatro das Segundas-Feiras. Em 1954, estreou o Teatro Brasileiro de Comédias, mas só em 1965 veio a estreia no cinema. Após longa carreira no teatro e na televisão, o ator morreu, em 2013, aos 82 anos, saindo de cena de modo trágico: cometendo suicídio.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 02 de março de 2026.