Um prato de feijão e arroz ocupa o lugar central da bandeira brasileira, enquanto crianças e uma escola surgem no rodapé da imagem. Uma placa sinaliza “Terra indígena” sobre o mapa da América do Sul, ao lado de imagens de povos originários, plantas e animais. “Lutemos até a morte” é o mote lançado no canto esquerdo de cima. Sob um fundo animado e colorido, a imagem de Lelia Gonzales em preto e branco nos lembra que “Somos o que somos porque resistimos”. As imagens fazem parte da exposição Recortes insurgentes, da designer, artista visual, pesquisadora e artivista Angela Pacífico, sob curadoria de Suzana Lacerda, que abre os trabalhos deste ano do Espaço Expositivo Alice Vinagre, no Espaço Cultural. A mostra tem abertura hoje, às 19h, e segue até o dia 24 de julho, com visitação das 8h às 22h.
Segundo Pacífico, a escolha das imagens acontece pela força simbólica que carregam e pelas conexões que podem criar quando colocadas lado a lado. “O título surge tanto da técnica que utilizo quanto dos temas que atravessam meu trabalho. Os ‘recortes’ fazem referência à colagem, que é construída a partir de fragmentos de imagens e narrativas. Já ‘insurgentes’ fala sobre resistência, sobre histórias, corpos e saberes que muitas vezes foram invisibilizados, mas que continuam existindo e produzindo outras formas de ver e ocupar o mundo”, explica. “De certa forma, a exposição reúne esses fragmentos para criar novas possibilidades de leitura e reflexão”.
O trabalho da artista baseia-se principalmente na colagem digital, mas também passa pelo estêncil e outras formas de intervenção visual. Os recortes vêm de diferentes meios e fontes: revistas, fotografias, materiais impressos, arquivos digitais e imagens encontradas ao longo de pesquisas. “Eu busco elementos que dialoguem com os temas que estou trabalhando e que possam gerar novas camadas de significado. O processo é muito intuitivo, mas também envolve observação e pesquisa. Gosto de pensar que cada imagem carrega uma história anterior, e a colagem cria novas relações entre elas”.
Os trabalhos da artista visual são perpassados pelo interesse em questões sociais, como aquelas relacionadas a gênero, raça, território, educação e pertencimento. Mas, como ela mesma coloca, as pautas sociais não aparecem no seu trabalho como algo separado da prática artística, “elas fazem parte da forma como observo e experimento o mundo”.
“Meu trabalho busca criar reflexões sobre essas experiências e sobre as estruturas que atravessam nossas vidas, sempre tentando abrir espaço para outras narrativas e perspectivas”.
As 18 obras expostas refletem sobre como corpos, identidades e as próprias imagens participam dos esquemas de circulação estética e simbólica no mundo. Isso dialoga com o próprio movimento de Angela, que passou cinco anos em vivência nômade em 18 estados brasileiros e em alguns países da América do Sul.
“Estar em constante deslocamento me fez perceber diferentes formas de viver, ocupar os espaços e construir pertencimento. Também ampliou meu contato com pessoas, culturas e realidades muito diversas. Acho que isso aparece no meu trabalho”, finaliza.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 18 de junho de 2026.