“Você não sabe o que eu passo, amor. Você não sabe minhas tarefas de trabalho, o que eu passo no trabalho. E, sinceramente, adoraria estar no seu lugar”. Com a deixa clássica do paizão Fred, que nunca deixou faltar nada para a família, Roberta, que é mãe de cinco crianças, decide sair de férias e realizar o desejo do marido. Em pouco tempo, e como prega o dito popular, Fred vai pagar com a língua em Um pai em apuros (102 min, classificação 12 anos), comédia nacional dirigida por Carolina Durão e produzida pela +Galeria, em colaboração com Glaz Entretenimento, Telefilms e Star Plus, com estreia nesta semana nas salas de cinema do país.
Segundo a diretora, o longa-metragem adaptado do original argentino Mamãe foi viajar (2017, 99 min), de Ariel Winograd, traz em seu roteiro uma situação recorrente e corriqueira em muitas famílias. “Todo mundo conhece alguém que tá vivendo algo parecido”, diz ela, lembrando que essa foi justamente a fórmula de sucesso do longa em países como a própria Argentina, México, Itália e França.
A trama é alavancada por dois humoristas de mão cheia. Dani Calabresa — com passagens memoráveis por programas como Pânico na TV, Sem controle e Comédia MTV — interpreta Roberta, que, sobrecarregada com as tarefas domésticas, decide viajar para Salvador e passar a bola para Fred, vivido por Rafael Infante, conhecido por compor o elenco da trupe de humor do canal no YouTube Porta dos fundos desde 2012.

- Rafael Infante faz o homem que nunca deixou faltar nada em casa, mas vai viver na pele a sobrecarga da esposa (Dani Calabresa)
Recém-saído do Big brother Brasil 26, o ator e cantor Babu Santana também participa da história, além das atrizes Lívia La Gatto e Macla Tenório — esta, por sua vez, é conhecida por esquetes do Porta dos fundos, e interpreta a babá hilária do longa.
“O roteiro tem isso de muito especial, que é de conseguir trazer uma comédia familiar que aborda temas, muitas vezes difíceis, de conversar internamente”, afirma Durão, apontando a reflexão evocada pelo filme em torno da mudança de padrões e do enfrentamento das questões problemáticas.
“Ali, a história se conta de uma maneira muito visual, muito simples e direta, ajudando as pessoas a enxergar o óbvio: do quanto a Roberta tava sobrecarregada, enquanto o Fred, quando vai ficar 10 dias sem ela, se enrola todo. Eu acho que a comédia tem esse valor de fazer as pessoas rirem, se divertirem e se disponibilizarem a ouvir uma mensagem que a história tá trazendo, e que é bastante relevante”.
A vida do pai de família bem sucedido só funciona por conta do suporte incondicional da “patroa”, que realiza uma série de tarefas quase sempre invisíveis. Mesmo sem ter filhos, Carolina toma emprestado o lugar de fala de suas amigas, que sempre contam histórias muito semelhantes àquelas vistas no roteiro de Fil Braz — ele assina o texto da trilogia de sucesso Minha mãe é uma peça — sobre a aventura do maternar e as dificuldades que tal jornada impõe. Por isso mesmo o filme é tão potente no seu entender, em função da alternância de perspectivas, quer seja pela identificação com a ótica do pai, da mãe ou da quina de rebentos.
Elenco do riso
“A Dani eu não conhecia antes. Foi um prazer enorme, ela é maravilhosa, uma atriz generosa, fora que é uma gigante da comédia. Tudo o que ela fala a gente fica no set morrendo de rir, diverte a equipe nos intervalos”, diz Carolina, que teve o primeiro contato com Calabresa por ocasião do filme. “E o Rafa eu já tinha trabalhado com ele no Porta dos fundos e depois em outras coisas menores também, mas a gente não tinha tido tanto tempo assim de convivência”.
Um pouco antes do longa, Rafael participou da terceira temporada de Rensga hits!, série televisiva da Globoplay, também dirigida por Carolina Durão. Em seguida, veio Um pai em apuros. “O Rafa é um comediante genial. Eu brinco que é o nosso Jim Carrey brasileiro. É sensacional, muito engraçado e de um jeito só dele”, considera.
Algumas das situações vividas por Fred são mesmo dignas de meme. No trailer de abertura, que adianta uma festa ao ar livre da história, vemos o ator justificando-se francamente, quebrando a quarta parede, enquanto um animador de eventos vestido de coelho corre em chamas pelo parque ao fundo.
“É inacreditável. Eu nunca deixei faltar nada para minha filha”, diz Fred. “É muito importante falar para todos vocês, em legítima defesa, é difícil para caramba viver o que eu tô vivendo”, ele completa.
A realizadora afirma que quando de seu convite pela +Galeria os dois nomes já estavam na agulha da distribuidora. Ao saber das escolhas, não restou dúvidas a Durão sobre o sucesso da empreitada: “Os dois são dois gigantes da comédia e tenho certeza que quem for assistir vai se escangalhar de rir”.
Comédia com o coração
Muito embora os primeiros trabalhos sejam mais sérios — são exemplos os curtas-metragens Sistema interno (2007) e Apocalipse de verão (2013) —, Carolina admite que aconteceu na comédia, por ter iniciado na carreira como assistente de produção de títulos comerciais de comédia. Acabou se encantando pelo gênero, conhecendo muitos comediantes e quando menos percebeu, estava dirigindo suas próprias versões engraçadas do mundo.
“Eu fui rindo, rindo, rindo e quando vi já tava aqui. Hoje, não me vejo fazendo outro gênero”, confessa. “Eu adoro fazer comédia, acho que tem alguma reflexão e tem uma carga emotiva também – o que eu chamo de comédia com o coração. Porque eu acho que é isso: a função social da comédia é fazer rir, mas também emocionar, fazer refletir; fazer as pessoas ficarem mais abertas pra outras possibilidades”.
Afeita ao poder das histórias como instrumentos capazes de fazer com que as pessoas repensem suas vidas, Durão reafirma as narrativas como defesa de um ponto de vista. O diferencial do estilo cômico estaria no modo despretensioso com que se realiza essa função, “meio como a água”, como ela diz, penetrando pelas brechas e de repente inundando o invólucro por completo.
Sobretudo no momento de polarização em que vivemos e das bolhas sociais intermediadas pela internet, a comédia seria um coringa em prol do desmonte das próprias opiniões e convicções mais aferradas aos indivíduos.
“Em relação à adaptação, vendo não só o argentino, mas todos os outros, a nossa preocupação era de trazer uma brasilidade, trazer um pouco do que é só nosso. E a gente tem muito de algo muito caloroso, intenso e informal nas relações, tanto familiares quanto no trabalho”, ela atesta, sinalizando para a possibilidade de continuações. “Um pai em apuros em outros lugares. Ele pode estar sempre em apuros. Tem sempre algo pra um pai aprender, se desconstruir e se repensar”.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 24 de março de 2026.