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No alto dos 77 anos, atriz realiza sonho de estrear um monólogo

Em Campina Grande, no Teatro Municipal Severino Cabral, Carminha Abrantes apresenta, gratuitamente, a peça ‘Leonor’

por publicado: 29/07/2022 00h00 última modificação: 29/07/2022 11h36
Exibir carrossel de imagens Foto: Rodrigo Di Paula Abordando questões como o envelhecimento, Carminha vive proprietária de um pensionato que está prestes a fechar

Abordando questões como o envelhecimento, Carminha vive proprietária de um pensionato que está prestes a fechar

por Joel Cavalcanti*

Existe um pensionato no Sertão da Paraíba ocupado por jovens artistas que está prestes a fechar. A proprietária do local sente o peso da idade, e a convivência com os inquilinos a faz questionar sobre seu próprio envelhecimento. Essa é a vida da personagem Leonor. Existe uma atriz cearense radicada na Paraíba de 77 anos que desde criança sonhava em poder se dedicar às artes cênicas, mas os pais e o marido sempre a proibiram de seguir carreira nos palcos. “O que você acha de uma pessoa com 77 anos ter sonhos? Eu tive muitos sonhos, mas hoje estou esperando acontecer”. Essa é a vida da atriz Carminha Abrantes, que está de volta aos palcos com Leonor, seu primeiro monólogo.

Ambas estarão juntas hoje, no Teatro Municipal Severino Cabral, em Campina Grande, no espetáculo com apresentação única, às 20h. Os ingressos são gratuitos, mas precisam ser reservados na plataforma Sympla para assistir a montagem foi iniciada em 2019, mas que precisou ser interrompida devido à pandemia, só podendo estrear em abril deste ano, em Sousa. A direção é coletiva, de Carminha Abrantes, Maycon Carvalho e Manoel Paulo. A ideia do espetáculo saiu do curta-metragem Quando decidi ficar (Maycon Carvalho, 2018), mas o texto teatral se instala em um tempo cronológico anterior aos acontecimentos da obra audiovisual. Se no filme a dona de um pensionato resolve fechar o estabelecimento apesar da relação muito próxima que cultivava com os ativistas culturais, na peça ela ainda mantém o local em funcionamento.

Foto - Leonor - Por Rodrigo Di Paula 02.JPG
Abordando questões como o envelhecimento, Carminha vive proprietária de um pensionato que está prestes a fechar

“O que me encanta mais nessa personagem é a generosidade dela. Ela é uma mulher muito acolhedora. Leonor é uma pessoa muito batalhadora, como muitas outras no mundo. Sentimentalmente, o que me comove mais é quando ela sente a rejeição do filho”, afirma Carminha Abrantes, que diz não sentir o peso do desafio ou qualquer receio de estar sozinha no palco do Severino Cabral. É que ela vem ensaiando por esse momento a vida inteira, antes mesmo de saber o que era teatro. Carminha costumava ouvir as histórias contadas por sua avó para, logo em seguida, dar vida aos personagens que ela acabara de conhecer. Aos 10 anos, ela subia na mesa de casa para se apresentar para seus irmãos.

Quanto custa a felicidade foi a primeira encenação da qual ela fez parte, ainda com 18 anos, em Sousa, para onde se mudou três anos antes, vinda da cidade natal de Morada Nova (CE). As apresentações eram realizadas em escolas e propriedades rurais do interior paraibano, até que o grupo recebeu o convite de levar a peça para João Pessoa. “Na época, o conservadorismo era muito grande e meus pais me proibiram. Meu pai dizia que não queria filha para se prostituir”. Carminha desobedeceu às ordens e seguiu para a capital. Depois de receber um severo castigo, ela prometeu que nunca mais pisaria nos palcos novamente. “Eu pedi perdão a ele e disse que nunca mais ia fazer teatro. Foi muito triste”, lembra a veterana, que também sofria com o autoritarismo do marido.

Sem poder se dedicar ao sonho de atuar, a única forma que ela encontrava para estar próxima ao teatro era costurando cuidadosamente todos os figurinos que seriam usados por outras atrizes, ofício que aprendeu com a mãe desde menina e que ela manteve como fonte de renda até pouco tempo. Carminha também tinha o hábito de sair sozinha à noite ao teatro para acompanhar os espetáculos. “Eu ficava tão emocionada… mas para tudo tem um dia”. A carreira nos palcos só teria a dedicação e entrega profissionais quando Carminha ficou viúva do marido agricultor e viu os seis filhos atingirem a maioridade, quando ela tinha 54 anos. “É agora que eu vou entrar no teatro. E aí eu criei nova vida. Passei 36 anos casada, mas eu sempre sentia um vazio, sempre sentia que estava faltando alguma coisa em mim”.

Sem jamais ter frequentado a escola, Carminha aprendeu a ler e a escrever através de cartilhas que ganhava e de algumas pessoas a quem ela pedia ajuda. “Depois, eu fui desenvolvendo com a leitura porque eu gosto de ler. Meu conhecimento veio dos livros”. A história ganhou novo enredo quando ela recebeu o convite para participar da montagem de Paixão de Cristo, produzida pelo Grupo Teatro Oficina. Por seu desempenho, foi convidada pelo diretor de teatro Alvares Fernandes para participar, em 2000, de uma oficina que resultou no espetáculo Morte e Vida Severina, da obra de João Cabral de Melo Neto. Depois disso vieram encenações nas peças Além da serra, também de Alvares Fernandes, A Eleição, de Lourdes Ramalho e O Paraíso é o Pindorama, com direção de Chico Oliveira. Carminha também passou a atuar em esquetes como palhaça de palco.

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Espetáculo foi originado do curta ‘Quando decidi ficar’ (2018), mas a montagem acontece antes da obra audiovisual

O trabalho de Carminha ganhou novas fronteiras e se estendeu para o cinema, no qual estreou no longa O Sonho de Inacim (2009), de Eliezer Rolim. Foi quando a participação em Quando decidi ficar rendeu convites para outros dois longas: Desvio (de Artur Lins, 2019) e Corpo da Paz (Torquato Joel).

Ela também está no elenco de A Extinção, novo curta de Maycon Carvalho, previsto para ser lançado ainda este ano. “Eu me pergunto por que é que eles me procuram. Pode ser até que eu tenha algum talento, mas eu não me orgulho muito com isso, não. Faço teatro porque eu gosto, porque eu amo. Eu faço o que puder pelo trabalho cênico. Quando as pessoas me fazem algum elogio, fico muito envergonhada”, confessa a atriz.

Espetáculo foi originado do curta ‘Quando decidi ficar’ (2018), mas a montagem acontece antes da obra audiovisual

Enxergando o passado com misto de resignação e tristeza por ter tido seu sonho tolhido por tanto tempo, hoje Carminha Abrantes se ocupa do maior prazer que é atuar. “Agora, eu vou curtir a minha idade de 77 anos. Acho que vou ter coragem de ir, ao menos, até os 90. Com a idade avançada, o cansaço vai chegar. Mas, enquanto eu puder, eu penso em trabalhar. Ser atriz faz tão bem à alma, eu me sinto tão bem”.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa de 29 de julho de 2022.

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