Um tratamento hormonal para induzir uma fertilização in vitro fez Cláudia Raia, então com 55 anos, ovular e engravidar, naturalmente, de seu filho mais novo, Luca, nascido em 2023. Já tendo enfrentado um climatério, a atriz paulista teve de passar novamente por alguns dos sinais que elas e muitas mulheres na mesma faixa de idade experimentam, logo após o puerpério do caçula — as “ondas” de calor, a irritabilidade e a diminuição da libido. Abordando com bom humor os conflitos e os preconceitos desta fase da vida, e do alto de sua “dupla” expertise no assunto, Claudia Raia estrela o espetáculo musical Cenas da menopausa. Serão duas sessões, hoje e amanhã, às 20h, no Intermares Hall, em Cabedelo. Os bilhetes estão à venda no site Ingresso Digital e custam de R$ 75 + taxa de conveniência (meia para a plateia C) a R$ 300 + taxa de conveniência (inteira para a plateia A).
Cláudia dá vida a várias mulheres com contextos sociais diferentes, unidas pelas agruras da menopausa. O roteiro assinado por Anna Toledo é pontuado por canções-paródias de sucessos em inglês como “Hot stuff” (na voz de Donna Summer) e “Total eclipse of the heart” (de Bonnie Tyler). Na direção e na interpretação de personagens secundários, Jarbas Homem de Mello, casado com a protagonista há 14 anos.
Ele responde com humor quando perguntado se contracenar com ela é fácil ou difícil. “As duas coisas [risos]. Existe uma intimidade e uma confiança muito grandes, então artisticamente isso ajuda. Claudia é extremamente disciplinada, generosa e comprometida. E esse espetáculo nos aproximou ainda mais”, assevera Jarbas.
O texto parte da bagagem pessoal de Anna Toledo, também cantora e compositora e responsável por outras peças como Nuvem de lágrimas (2015) e Tarsila, a brasileira (2024), estrelada por Cláudia Raia. Esta última explica que, apesar da seriedade do tema, o bom-humor auxilia no processo de acolhimento de quem, da plateia (ou do palco), se identifica com as cenas.
“Eu mesma comecei a sentir os sintomas da menopausa aos 50 e foi um choque, demorei para perceber o que estava acontecendo: calores, insônia, dores articulares, névoa mental, alterações de humor, não entendia o que estava mudando. E durante os ensaios da peça, comecei a sentir de novo, vendo a minha própria história sendo contada”, conta a atriz.
Confirmando algumas das impressões sobre essa faixa etária, a protagonista assevera que a ideia de ser independente e produtiva depois dos 50 anos ainda é um tabu em certos ciclos. Ela teve como exemplo desse perfil sua própria mãe, Odette Raia (falecida em 2019). A menopausa seria, para Cláudia, a transição “segundo ato” na trajetória feminina, mais potente.
“A mulher dessa idade era colocada num lugar de invisibilidade, trancada em casa. Hoje essa geração ‘prateada’ movimenta a economia, lidera empresas, transformações, escreve, produz filmes, é ativa, moderna, conectada, trabalha, ama, cria, empreende. Me vi revendo várias coisas da minha vida, escolhendo melhor, descobrindo quem eu quero ser”, analisa.
Cenas da menopausa somou um público estimado de 160 mil espectadores desde a sua estreia, no ano passado, circulando, também em Portugal. Ao comungar tantas vivências, afrontando o pensamento ultrapassado de que os corpos femininos estariam restritos à sua capacidade reprodutiva, Cláudia pretende combater estereótipos que vão além do climatério.
“A mulher de 50 hoje não está nos livros. Eu mesma engravidei naturalmente, justamente no meio de uma menopausa. Isso mostra como essa mulher ainda é um mistério até para os médicos. Estar nessa fase não significa decadência. Pelo contrário. É um momento de transformação e potência. Temos pelo menos 40 anos de vida pela frente depois dela”, crava.
Acreditando no trabalho
A trajetória de Claudia Raia nos palcos começou em 1982, com a versão brasileira do musical A chorus line. Ela passou no teste para o papel de Sheila, após anos de estudos em escolas de dança da Argentina e dos Estados Unidos.
“Mudou a minha vida. Foi um divisor de águas na minha carreira e no teatro musical brasileiro. Eu tinha 17 anos quando fiz o teste. Foi ali que entendi o rigor, a disciplina e a potência do teatro musical. Tenho muito carinho por este espetáculo e entendo que ele fez parte de toda minha construção no palco, que hoje, claro, é muito mais madura”, analisa em retrospecto.
A atriz logo rumaria para a TV: primeiro, no humorístico Viva o Gordo (1983) com Jô Soares; depois, nas novelas, como Roque Santeiro (1985). Movimentando-se entre teatro, TV e cinema, Claudia foi, aos poucos, galgando personagens maiores como a Tancinha da novela Sassaricando (1987) e a Adriana de Rainha da sucata (1990). A amizade com o autor Silvio de Abreu e com o diretor Jorge Fernando lhe proporcionou o seu primeiro musical solo, Não fuja da Raia (1991) — escrito e dirigido por eles.
Acreditando no êxito desse projeto, ela teve de vender imóveis para financiá-lo. “O teatro exige risco, entrega e fé. Mas ele sempre me devolve muito mais do que sucesso: ele me devolve sentido. E destaco aqui as leis de incentivo à cultura, que permitem a captação de recursos para peças que empregam inúmeras pessoas, com o retorno do investimento”, aponta.
Com a popularização do teatro musical no Brasil (sobretudo por meio das montagens nacionais de textos estrangeiros), Cláudia integrou os elencos dos clássicos O beijo da mulher aranha (2000), Sweet Charity (2006) e Crazy for you (2013), atuando também como produtora. Ela esteve à frente de Cabaret (2011), no papel que, numa versão anterior, foi de Beth Goulart.
“Esperei mais de 20 anos para viver Sally Bowles. Cabaret sempre foi uma grande referência para mim no teatro musical, porque reúne humor, música e uma densidade dramática forte. Sally é fascinante justamente por ser contraditória, intensa, e profundamente humana. E acho que todo ator gosta de personagens que exigem coragem emocional”, sinaliza.
Em seguida ao nascimento do filho Luca (e lutando contra os sintomas da segunda menopausa), ela engajou-se em Tarsila, a brasileira (2024). Mesmo com as experiências prévias, tanto na dramaturgia quanto na maternidade, esse retorno num literal ato contínuo foi significativo para Cláudia: ela se considera, agora, mais madura e conectada consigo mesma.
“Hoje sou uma atriz ainda mais aberta emocionalmente. A Tarsila era uma personagem muito contida, mais introspectiva, foi um grande exercício cênico. Voltaremos com ela no segundo semestre, em uma turnê que prevê os teatros municipais de São Paulo e Rio de Janeiro. Mais algumas cidades estão nos planos, inclusive no Nordeste. Estamos animadíssimos”, projeta.
Em 2025, durante uma sessão de Cenas da menopausa em São Paulo, o criador de conteúdo Rodolfo Cadamuro Felipe acabou sendo repreendido por Cláudia devido ao uso de fones de ouvido. Um mal-entendido: na verdade, o espectador, que tem baixa visão, utilizava o recurso de audiodescrição para acompanhar a peça, por meio de um aplicativo de celular.
Identificado o erro, a atriz pediu desculpas a Rodolfo, numa postagem em suas redes sociais, e o convidou para assistir ao espetáculo mais uma vez. “Aquela situação trouxe uma reflexão muito importante para todos nós. O teatro é um lugar de encontro, de troca, de pertencimento. Não pode existir arte acessível apenas para uma parte das pessoas”, sintetiza.
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*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 15 de maio de 2026.