O compositor, poeta e produtor musical carioca Hermínio Bello de Carvalho sempre foi daqueles ativistas culturais inquietos. Poeta, letrista, um “operário da palavra”, como se antointitula, ostenta, entre os principais feitos antológicos no campo da cultura, o mérito de ter conduzido, à luz dos holofotes nacionais, a cantora popular fluminense Clementina de Jesus (1901–1987). Prestes a completar 91 anos (no próximo dia 28 de março), Hermínio dá mostras de sua longeva e contínua produção ao subir às plataformas digitais Hermínio Bello de Carvalho 90, seu mais novo álbum.

- No disco lançado recentemente, ele tem a participação de artistas como Simone e Vidal Assis | Imagem: Divulgação/Biscoito Fino
Na preciosidade fonográfica realizada pela gravadora Biscoito Fino, fazem coro ao poeta, seguidor do projeto cultural de Mário de Andrade, as participações especiais de Simone, Áurea Martins, Vital Lima, Frejat, Ayrton Montarroyos, Gabi Buarque, bem como os instrumentistas Vidal Assis (violão), Kiko Horta (acordeão) e o violonista João Camarero.
O caráter coletivo, claro, não é nenhuma novidade ao modus operandi do compositor, como enumera em entrevista concedida por e-mail ao jornal A União: “Tive o privilégio de gravar minhas canções com outros artistas do porte de Elizeth Cardoso, Altemar Dutra, Elza Soares, Ney Matogrosso, Zélia Duncan, Nana Caymmi, Nara Leão, Vital Lima, Maria Bethânia — a lista é enorme. Em geral, o intérprete é quem faz a escolha da canção que deseja gravar”.
A ideia para o registro, como ele mesmo afirma, circunscreve-se à antiga prática de gravar um disco para comemorar datas redondas, como a do 90o aniversário. “De nada valeu a pena” abre o trabalho no cantar dolorido de Simone. Detalhe: a canção de lamento foi letrada por Hermínio há 52 anos, em abril de 1974, por ocasião de uma excursão que fez à América do Norte acompanhado de Simone e do violonista João de Aquino. Quando de passagem pela sonora cidade de Detroit, o conteúdo desceu ao papel, tendo sido musicado pela própria Simone.
Enrosca-se à segunda faixa “Carrapicho”, canção de levada folk-country entoada por Frejat, seguida por “Igual ao que não foi / Catando estrelas” (com Áurea Martins e Vital Lima) e do poema a capela “Las hormigas” — em contratura avessa à finitude da existência —, além de “Cabernet Sauvignon” (com Ayrton Montarroyos).
Questionado sobre o encorpar da temática homoafetiva à canção alusiva ao fermentado de uvas tintas, Hermínio “gira a taça” e afirma tê-la sorvido em diferentes momentos de sua produção. “Sempre fiz a abordagem desse tema ao longo de minha longa carreira (de 70 anos!) como poeta e letrista”, afirma, ao tempo em que aponta seus mais de 20 livros como prova daquilo que diz — são exemplos Chove azul em teus cabelos (Editora Particular, 1961) e Poemas do amor maldito (Editora Brasília, 1969).
O timbre suave de Gabi Buarque canta a bola do amor em “Jogo empatado”. E, já no fim do segundo tempo, Simone retorna para as revelações inusitadas do amar com “Dia sim, dia não”, enquanto sopra o apito final do dueto com Vidal Assis em “Como se faz?”, samba-canção-tutorial do bem viver à luz da experiência e do bom violão.
“Processo de composição? São vários os processos”, ele pontua, “e dou um exemplo: a palavra ‘lixo’, sem ter mais nem porquê, surgiu de repente — e ficou rondando em minha cabeça. E aí emerge outra palavra, ‘estrela’, e a conexão se faz imediatamente: ‘Não vou catar estrelas no lixo’. E aí trabalho essa ideia formalizando-a num poema inteiro e a entrego a um compositor da envergadura de Vital Lima. E o resultado está no meu CD, na voz da grande Áurea Martins”.
Hermínio 90
Para além do talento com a palavra escrita e musicada, Hermínio Bello de Carvalho teve a vida profissional iniciada nos idos de 1951 como repórter da revista Rádio-Entrevista, acrescido de passagens como colaborador por publicações em O Cruzeiro e O Pasquim. “Garoto ainda, eu amanhecia junto à banca de jornal para comprar a icônica Revista do Rádio, do Anselmo Domingos. Sou um fã convicto. Aí fui ser repórter e colunista da revista Rádio-Entrevista — foi um pulo para ficar amigo de uma Linda Batista, por exemplo. Quem desconhece essa cantora, basta entrar no meu ‘feicebuque’ e vai se apaixonar por ela”.
Entre os diversos nomes de peso da música popular com quem trabalhou, figuram os icônicos compositores Baden Powell (1937–2000), Cartola (1908–1980) e Pixinguinha (1897–1973). “Baden foi um artista incrível, incomparável. Sempre digo que consegui trabalhar com dois gênios da nossa cultura: Pixinguinha e Cartola — e aproveito para incluir Clementina nesse rol”.
Afeito ao “abrasileiramento do Brasil” — a expressão é deposta por Mário de Andrade em seu missivista A lição do amigo (Editora José Olympio, 1982) —, Hermínio Bello de Carvalho esteve engajado no ano de 1964 em movimento pela integração entre os gêneros popular e erudito. Assumindo a direção de shows, foi responsável por espetáculos memoráveis, como o Rosa de ouro (1965), que trouxe ao público a nata maestria de Clementina de Jesus, Paulinho da Viola e a de tantos outros.
“Foi um movimento que intitulei de ‘Menestrel’, uma série de concertos apresentando o concertista Turibio Santos (violonista clássico) e Clementina. Enfim: música clássica e popular num mesmo programa — o que, aliás, não era nenhuma novidade. Descobri tempos depois que o Mário de Andrade (meu ídolo) já tinha feito essa experiência”, relembra. Entre outros projetos culturais, participou do projeto Seis e Meia (em 1976), lançou, em 1977, pela Fundação Nacional de Artes (Funarte), o projeto Pixinguinha — visando à formação de plateias com ingressos a preços módicos —, bem assim do Projeto Lúcio Rangel, voltado para ampliar a então escassa bibliografia sobre música brasileira.
Destaca ainda ter trabalhado, na década de 1950, como produtor na Rádio MEC, a convite do professor e violonista José Mozart de Araújo (1904–1988), discípulo de Mário de Andrade. Gravou dezenas de programas na antiga TVE, a qual, como protesta, “construiu uma enorme vala em seu cemitério e sepultou impiedosamente essa produção que, em termos memorialísticos, tem enorme importância cultural”.
Ressaltando jamais ter feito concessões — a título de ilustração, no ano 2000, Hermínio recusou a Ordem do Mérito Cultural que lhe foi concedida pelo Ministério da Cultura —, o poeta faz suceder a Isso que é viver (coletânea celebrativa dos 80 anos) este Hermínio Bello de Carvalho 90 com a força irrequieta e produtiva de quem resistiu a dois cânceres, um infarto e um acidente vascular cerebral (AVC).
“Olha, aos quase 91 anos de idade, contabilizo meus cabelos brancos e raríssimas rugas como um troféu. E leio, leio muito, trabalho todos os dias — essa é a minha receita de vida. Não cultivo sentimentos horrendos como a inveja. A inveja é uma merda”.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 18 de março de 2026.