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O canto da cidade é ela

publicado: 05/02/2026 08h35, última modificação: 05/02/2026 08h35
Daniela Mercury abre o Folia de Rua amanhã, na Lagoa, e lembra para A União como era o axé há 35 anos, quando lançou seu primeiro disco
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A cantora vai interpretar seus grandes sucessos e canções do disco mais recente, “Cirandaia”, de 2025 | Fotos: Celia Santos/Divulgação

por Daniel Abath*

Em 1991, 16 percussionistas da banda Olodum entraram no estúdio WR para gravar a canção “Swing da cor”, em sincronia com baixo, guitarra e teclados ao vivo. Dada a inexperiência com os aspectos técnicos de uma gravação profissional, por vezes perdiam o andamento da música. Foi então que Daniela Mercury fez as vezes de um metrônomo e marcou o tempo da canção com o próprio corpo, executando polichinelos e dançando, a fim de que os batuques vibrassem no mesmo diapasão dos demais instrumentos. Firme no chão de 42 anos de carreira e Carnaval — ao todo são 26 álbuns gravados e nove DVDs —, a cantora, compositora e produtora musical sobe a ladeira para João Pessoa e se apresenta amanhã, no show de abertura do Folia de Rua 2026, no Parque Solon de Lucena, Centro da capital. A noite, que começa às 18h, também contará com Lucy Alves e Orquestra Sanhauá, em evento gratuito.

“Não era rock, não era MPB, não era samba. E o que é isso? Um jornalista disse pra mim: ‘Posso chamar de ‘axé’?’. Eu disse que não havia nome melhor”, conta a cantora sobre a repercussão de seus primeiros trabalhos

Não à toa, a multiartista, conhecida por arrastar multidões nos carnavais de rua de todo o país, iniciou nas aulas de dança afro e contemporânea aos oito anos de idade, vindo a estudar, mais tarde, balé clássico. Militante em favor dos direitos humanos, embaixadora do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e da Organização das Nações Unidas (ONU) no Brasil, a rainha do axé conversou com A União acerca de sua carreira e dos rumos que o axé vem tomando no Brasil de hoje.

Alertando para a imprecisão da memória, ela afirma ter tocado em solo paraibano pela última vez há cinco anos — a última aparição da artista na capital se deu em 2012, afora o anúncio de um show em 2016 que foi cancelado.

É como se o Carnaval não se deixasse enquadrar no andamento da linha do tempo — mesmo assim, o dela começou no último dia 2, quando cantou na Enxaguada de Iemanjá, festa comandada por Carlinhos Brown, em Salvador. “Eu prestigio todos os blocos afro desde o começo — faz mais de 30 anos que eu faço todos os ensaios deles, dou meu apoio pra eles desfilarem e divulgarem suas músicas de trabalho”, ela diz.

Nobre axé

Confessando o vínculo de seu axé ao samba e ao samba-reggae, Daniela, afeita ao compasso dos terreiros da MPB, afirma que sempre fez questão de manter um diálogo muito forte com os mestres populares, como o pai do Olodum e criador do samba--reggae, Neguinho do Samba (1954–2009), além dos grandes percussionistas do gueto, das ruas, da cidade bonita que serviu de base para sua sonoridade multifacetada.

Antes da carreira solo, Daniela Mercury gravou dois álbuns junto à banda Companhia Clic — com pegada de rock latino, mais percussivo, juju music —, mas já tinha carreira como intérprete. Cantava em bares e teatros de Salvador, entoando o cancioneiro da MPB, e decidiu subir em um trio, a princípio para entender melhor aquele universo, no que acabou por empreender a célebre mistura entre as duas linguagens.

Daniela Mercury (1991) foi o epônimo de estreia. Também conhecido como “Swing da cor”, título da faixa de abertura e primeiro single da cantora a alcançar o topo da parada brasileira, trazia à baila o referido mix entre MPB, rock e percussão, com participação do Olodum. Nas harmonias, bebia bastante dos clássicos, tais como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, além dos medalhões da Bossa Nova, mas sem descurar das fusões do jazz, em vertente menos galope e mais samba-reggae.

“O axé é equivalente pra mim ao movimento de Luiz Gonzaga, nos anos 1940. Saímos do Nordeste, levando um tipo de música que tem muito a ver com a gente, com misturas muito particulares da gente: frevos, galopes, coisas do São João, sotaques e a mistura das percussões do Olodum, do Ilê. Pra todos nós dessa região, foi uma vitória gigantesca a gente ter conseguido”, considera.

Nada foi empecilho para Daniela seguir fazendo uma música de grande alcance, que viria a ser reconhecida internacionalmente, um resultado que ela também atribui à abertura política para a democracia. Celebrado pela crítica, dada a sofisticação das linhas jazzísticas de baixo entrecortadas pela percussão potente, seu segundo álbum, O Canto da Cidade (1992), até hoje uma das obras mais requisitadas da cantora, é por ela apontado como divisor de águas pela nobreza e respeito à música feita naquele momento.

Muito embora balançasse as estruturas da cidade, o suingue daquele som colorido e dançante ainda não havia sido nominado quando o disco ocupou as ondas do rádio. “O gênero ganhou nome comigo no Brasil porque as pessoas viam que era um tipo de linguagem musical diferente. Não era rock, não era MPB, não era samba. E o que é isso? Um jornalista disse pra mim: ‘Posso chamar de ‘axé’?’. Eu disse que não havia nome melhor”.

De lá para cá, segundo ela, houve avanço em muitas frentes, como cachês mais interessantes e um mercado mais robusto, impulsionado pelo empreendedorismo na área. “Muitos artistas se projetaram nacionalmente, alguns até internacionalmente, cada um dentro do seu universo. Eu fui buscar um público mais estrangeiro mesmo, pra tentar penetrar no universo do mainstream, mais respeitado, mais conceitual, fui lidar com a crítica de alto nível internacional e consegui muito respeito por toda a Europa, Estados Unidos, América Latina, e muito público também”, diz.

“Há um encantamento pelo Brasil. A gente tá vivendo um momento interessante. O Nordeste cresceu muito, a gente teve investimento. Esses anos de democracia fizeram muito bem ao Brasil, mesmo com presidentes muito ruins que tivemos no meio do caminho. O axé, nesse sentido, veio junto com a democracia, e também trouxe um Brasil para o Brasil”, enfatiza, parafraseando, no “inconsciente” da fala, “Querelas do Brasil” (composta por Maurício Tapajós e Aldir Blanc), famosa na voz da grande referência musical de Daniela, Elis Regina (1945–1982).

Quanto a aspectos de aperfeiçoamento musical, a artista também enxerga avanços, tais como melhores trios elétricos e mais bandas — em Salvador, inclusive, estariam faltando músicos e produtores musicais para tanto mercado.

“O Carnaval se tornou muito mais sofisticado, muito midiático também, cada vez mais desafiador. Ficou um pouco mais endurecido. Eu ainda sou mais romântica, gosto do Carnaval mais solto. Prefiro a fluência da rua, gosto muito do Carnaval de rua”.

Imperecível ao tempo e “empadilhada” — em alusão a Maria Padilha, entidade presente nas religiões afro —, Daniela promete cantar os grandes sucessos de sua lavra, bem como algumas canções do mais recente Cirandaia (2025), álbum com participações de vários amigos da região, como Alcione e Chico César.

“Prometo um repertório pra dançar, vibrante, pra vocês saírem emocionados e pra gente matar um pouco dessa saudade. Minha alegria vai inteira”, vibra.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 05 de fevereiro de 2026.