Uma artista singular, com um estilo inteiramente próprio e uma vida que tanto dialoga diretamente com sua obra quanto provoca interesse por si só. A mexicana Frida Kahlo tornou-se, ao longo das últimas décadas, uma grande referência, sendo tema de diversos estudos e biografias. Um novo livro chegou recentemente ao mercado brasileiro: Viva Frida (Planeta, 464 páginas, R$ 96,90) é de autoria do francês Gérard de Cortanze, um dos maiores especialistas na vida e na obra da pintora. “Digo que este livro não é uma biografia, nem um ensaio, nem um romance, mas tudo isso ao mesmo tempo”, resume, em conversa com A União.
Dos muitos livros no mercado sobre Frida Kahlo, Cortanze escreveu nada menos que cinco. “O primeiro foi uma biografia no verdadeiro sentido da palavra: narrei sua vida”, explica ele. O segundo contou a história de como, por puro acaso, ele encontrou uma caixa contendo uma coleção inédita de centenas de fotografias tiradas por Gisèle Freund, de 1950 a 1952, de Frida e seu marido, Diego Rivera — estão entre as últimas de Frida, que morreu em 1954.
“O terceiro narra, em forma de romance, o improvável e tórrido caso entre Trotsky e Frida em 1937”, prossegue. Este saiu no Brasil, também pela Planeta, como Frida e Trótsky — A História de uma Paixão Secreta. O quarto é uma reconstrução de eventos e encontros que permearam a vida de Frida e influenciaram sua obra. “Eu acrescentaria também uma peça de teatro, Un Amour de Frida Kahlo, além de um documentário radiofônico e dezenas de artigos”.

- “Viva Frida” é o segundo livro de Gérard de Cortanze (no alto) sobre a pintora publicado pela Planeta. O primeiro foi “Frida e Trótski” | Imagens: Divulgação/Planeta
Então veio Viva Frida, que foi finalista do Prêmio Goncourt de Biografia em 2023. “Eu queria reunir 45 anos de reflexões sobre Frida em um livro que fosse como uma espécie de bíblia”, diz o biógrafo. “O livro é cronológico e temático. Dessa forma, podemos acompanhá-la do nascimento à morte, mas também identificar os principais temas: Frida e a Revolução Mexicana, Frida e o Surrealismo, Frida e a religião, Frida e o sangue, e assim por diante”.
Cortanze propôs-se a tentar uma nova maneira de ver Frida Kahlo e de tentar compreender sua realidade. “Cada capítulo do meu livro ecoa as próprias palavras de Frida — lidas e relidas em seu diário, em sua correspondência, nas legendas de suas pinturas, entrevistas e declarações — porque estas são tão importantes para compreendê-la quanto sua pintura, retratam uma artista apaixonada pela liberdade”.
Gérard de Cortanze foi apresentado à arte de Frida Kahlo pelo poeta Carlos Fuentes. “Tive que esperar até 1992, ano da primeira exposição de algumas de suas pinturas na França, para ver seu trabalho”, recorda. “Mas não me considero um ‘especialista’ nas pinturas de Frida Kahlo. Sou, antes de tudo, um escritor que encontrou ressonâncias com o meu próprio mundo na obra dela”.
Ainda assim, ele comenta que a a obra de Frida é uma “pintura de imediatismo”. “Ela nos envolve, podemos amar sem o filtro do intelecto, criada por uma mulher de extraordinária modernidade”, analisa. “E que poder emana dessas pequenas telas! Numa época em que a arte mexicana era dominada por murais, Frida pintava quadros de cavalete, relatando seu dia a dia”.
Buscando um estilo simples e claro, Viva Frida tenta esclarecer as muitas lendas sobre Frida Kahlo. “Ao longo de vários anos, documentos vieram à tona e peças que faltavam no quebra-cabeça foram encontradas, permitindo uma compreensão mais precisa e acurada”, diz o autor. “Frida é capaz, em apenas alguns meses, de se tornar uma pessoa completamente diferente. Desaparece seu medo infantil de não ser boa o suficiente, desaparece aquela falta de autoconfiança. Que prazer é chocar os hipócritas! Não se esqueça que, nesta sociedade mexicana tão machista, é muito difícil existir sendo mulher, e ainda mais sendo uma pintora, uma mulher criativa cujo marido é um ícone cultural”.
A vida e a obra de Frida Kahlo se misturam intensamente como acontece com poucos artistas. “O infame acidente de 1925 é fundamental para entender Frida, pois, a partir desse imenso sofrimento, nasceu uma nova Frida, autônoma, que transformou seu desastre em vitória”, conta Cortanze. Em 1925, a pintora sofreu um grave acidente quando o ônibus em que estava se chocou contra um bonde. Ela teve o abdômen e o útero perfurados e o pé triturado, entre outros ferimentos.
“Não a matou, mas a fortaleceu”, diz o biógrafo. “Nasceu uma nova Frida, que faria amor com homens de sua escolha. Que seria insaciável, porque, quanto mais fazia amor, mais se sentia viva e verdadeiramente existente. Uma Frida que faria amor com mulheres, porque, quanto mais fazia amor com mulheres, mais se sentia viva e verdadeiramente existente. Seu compromisso político com o Partido Comunista derivava da mesma abordagem. Quando marchava pelas ruas da Cidade do México à frente de manifestações de protesto, ela existia com ainda mais força. Ao se comprometer, ela viveria com ainda mais plenitude. Ela dizia: ‘Viver é o propósito central da minha vida’. Sua luta pela vida ressoa hoje como um grito de guerra: nunca desista”, afirma.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 04 de janeiro de 2026.
