“F” para “favela. “R” para “remédio”. E “X” para “Xangô”. Essas e outras palavras-chaves (ou “geradoras”) foram as bases de um estudo revolucionário da professora e ativista cultural campinense Eneida Agra Maracajá que, há quatro décadas, uniu a Pedagogia do Oprimido, de Paulo Freire, ao Teatro do Oprimido, de Augusto Boal, para difundir arte e educação em comunidades carentes de João Pessoa. O resultado dessa imersão, uma dissertação de mestrado, ganha, agora, uma edição inédita em livro, O teatro na educação popular, iniciativa da Editora da Universidade Estadual da Paraíba (Eduepb) e da Editora A União. O lançamento acontece hoje, a partir das 19h30, no Miniteatro Paulo Pontes, anexo ao Teatro Municipal Severino Cabral, Centro da Rainha da Borborema. A entrada é franca. 
Na mesma ocasião, será inaugurada a exposição Cartografia do oprimido, na Galeria de Artes Irene Medeiros (situada no Severino Cabral). As fotos das intervenções de Eneida na capital foram capturadas por Maria Alice e selecionadas, agora, por Aladim Monteiro. Nessa estréia, haverá, ainda, apresentações artísticas de Chico Oliveira, Myrna Agra e Alexandre Tan.
Em 1981, acumulando uma importante trajetória no segmento artístico e estando uma década à frente do Festival de Inverno de Campina Grande (FICG), Eneida começava a estreitar seus passos com a docência. Aluna do mestrado em Educação na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), ela projetou pesquisa sob orientação do professor Jomard Muniz de Brito.
Houve, de início, o contato inicial com trabalhadores informais semi-alfabetizados ou analfabetos dos bairros de Mandacaru e Ipês: “Residíamos no Bairro dos Estados, vizinho àquele outro aglomerado urbano. Notícias constantes, divulgadas nos jornais da cidade, davam ênfase ao clima de violência reinante em Mandacaru”, descreveu na dissertação.
Quem ciceroneou Eneida nas comunidades de Beira Molhada, Alto do Céu, Salinas Ribamar e Vila Japonesa foi o líder comunitário João Cândido, apresentado à pesquisadora pelo folclorista Emídio Lucena. A campinense estava disposta a mirar aqueles pessoenses sob outro prisma e, ao mesmo tempo, fornecer-lhes experiências educacionais e artísticas valiosas.
Para isso, ela selecionou 15 jovens, dos sexo feminino e masculino, com idades variáveis entre 16 e 18 anos, exercendo profissões distintas – biscateiros, açougueiros, pedreiros e domésticas. Essas pessoas mantiveram contato com os métodos de Freire e Boal – a utilização de objetivos e vivências do cotidiano no aprendizado dos sujeitos abordados.
Sair da favela?
Aliadas às práticas pedagógicas e dramatúrgicas dos brasileiros, outras ferramentas importantes, propostas pelo alemão Bertolt Brecht: o teatro épico, que carrega tintas sociais e políticas em sua encenação; e o gestus (ou gestisch, como Eneida descreve), técnica que atomiza diálogos e ações nos gestos dos atores no palco, na primazia corporal.
Na impossibilidade de decorarem falas na leitura imediata de eventuais roteiros, Eneida criou cenas curtas, concebidas graças às “palavras geradoras”, ligadas à subjetividade e à coletividade dos participantes – algumas delas, “alimentação”, “Mandacaru” e “mangue”. Assim sendo, os ensaios aconteciam de forma simultânea ao seu processo de alfabetização.
Numa etapa posterior, foram utilizados outros expedientes. O “teatro imagem” ampliou a abordagem em três temas urgentes – “saúde”, “polícia” e “família”. Um ator “esculpia” – ou moldava – com os membros de outro os gestos e as expressões que poderiam sintetizar sentimentos e atitudes – da violência à tristeza, passando pela gratidão a Deus.
Já o “teatro jornal”, mediado com veículos de imprensa da capital, construía cenas com base nas reportagens que mais chamavam a atenção dos presentes. “A volta do pau-de-arara”, “Família despejada passa fome na rua” e “Violência em Alagoa Grande: camponês é assassinado” tiveram suas manchetes vertidas em encenações expressivas e marcantes.
Os depoimentos dos participantes nas “Considerações finais” da dissertação (defendida em 1985), asseveraram que o chamado de “Círculo de cultura”, conforme definição de Paulo Freire, foi positivo. “Aprendi o que é objeto de cultura, que é tudo o que o homem faz”, disse um; “Agora sei meus direitos”, a minha realidade, tudo por tudo”, afirmou outro.
Para além da fixação dos conceitos sobre o teatro – “Representar a vida”, assinalaram os comentários, em uníssono – Eneida acabou coletando ela mesma uma lição importante. Ao questionar um dos atores se ele gostaria de sair da comunidade, ela obteve como resposta: “Não. Eu só quero que melhorem as condições da favela”, concluiu o oprimido.
Coragem e paixão
Em conversa com A União, Eneida informou que a idéia de publicar sua dissertação partiu do colega pesquisador Diógenes Maciel. “Ele fez uma leitura crítica e disse que o livro está mais atual agora do que esteve antes. Os três anos que eu passei aí foram vividos intensamente. E além de Freire, Boal e Brecht, tive outras referências bibliográficas”, revelou.
A campinense revela que pôde aplicar a Pedagogia do Oprimido na capital com o auxílio da irmã, Salete, ex-coordenadora da Campanha de Educação Popular (Ceplar) em Campina Grande. “Quando notei que nenhum deles era de fato alfabetizado, enlouqueci. Corri para a casa de Salete, que me ajudou muito. Tanto que dediquei a dissertação a ela”, pontuou. 
Eneida não se limitou às dependências do Centro Social Urbano de Mandacaru, palco das reuniões com os alunos. Ela foi à feira e interpretou uma vendedora de tapioca; sua atuação realística foi vista com desconfiança encantamento. “Quando eles declamavam o texto, chamavam o mangue de ‘barracão de Jesus’. E isso está lá, no livro”, sinalizou.
No dia 30, O teatro na educação popular ganhará uma tarde de autógrafos em João Pessoa, dentro do sarau Pôr do Sol Literário; será a partir das 17h30, na sede da Academia Paraibana de Letras (APL), com entrada franca. Mas Eneida acalentava, até bem pouco tempo, outro sonho: “Gostaria de lançá-lo em Mandacaru e ver como estão as coisas por lá”.
Todavia, em visita recente ao bairro, a ativista encontrou outra realidade. O centro social utilizado como base para suas aulas foi modificado. E o mangue, outrora fonte de subsistência, acabou aterrado para a construção de casas. “A sala onde trabalhei não existe mais, é uma quadra, interditada. O mangue está nas fotos que Maria Alice fez”, lamentou.
Analisando a trajetória de seis décadas como artista, docente e ativista Eneida Agra Maracajá crava que sua missão está longe de acabar: “Na ditadura, se cantava muito aquela música de Geraldo Vandré, ‘Pra não dizer que não falei das flores’: ‘caminhando e cantando’. Eu ainda estou aqui de pé. Enquanto a gente tiver lucidez, coragem e paixão, a gente resiste”.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 15 de abril de 2026.
