Conteúdos mais leves, menos sérios, sempre funcionaram no mundo teatral como aperitivos para entreter o grande público, ávido pelo prato principal. É o caso da ópera A Serva Patroa, em cartaz de hoje a domingo (1o), no Theatro Santa Roza, Centro da capital — hoje, amanhã e sábado, às 20h; domingo, às 19h. A entrada é franca mediante retirada de bilhetes pelo site do Sympla ou na bilheteria (a distribuição dos ingressos no local começa às 16h) e o espetáculo conta com acessibilidade em Libras.
Montagem da Cia. Atelier Musical e Curta Ópera PB, que toma por base La Serva Padrona — ópera buffa intermezzo criada em 1733, pelo compositor e violinista barroco Giovanni Battista Pergolesi (1710–1736) —, A Serva Patroa conta com três personagens: Serpina (interpretada por Izadora França e Kleiton D’Araújo), Vespone (Mateus Tomison) e Uberto (Lucas Barreto). Regência e direção musical estão a cargo do maestro Carlos Anísio.
Uberto (voz baixo) é um solteirão idoso injuriado com sua criada, Serpina (soprano), que parece brincar de princesa, fantasiando ser a dona da casa. Para se livrar de Serpina, Uberto ordena ao servo Vespone (mudo), que lhe encontre uma mulher com quem possa casar, mas a criada convence Vespone a fazer o jogo inverso.
“Ela vê que a única forma de ascender socialmente seria casando com ele. Então ela começa a provocar. Ela promete a Vespone que se conseguir casar com Uberto, fará dele um segundo patrão dentro da casa”, afirma o ator e cantor lírico Kleiton D’Araújo, que faz as vezes de Serpina em dois dias de apresentação. “Sou contratenor sopranista, canto dentro da região da voz feminina — nesse período era muito comum homens fazerem os papéis femininos, porque a mulher era proibida”.
Doutor em Musicologia pela UFPB e professor de canto no Centro Estadual de Arte (Cearte), Kleiton comenta que Pergolesi era um padre devotado à composição de óperas e de música litúrgica. Entre outras, musicou a presente farsa, oriunda da commedia dell’arte italiana (marcada por temas convencionais, piadas e sátiras), que era apresentada junto com a ópera Il Prigionier Superbo, do mesmo compositor.
“Essa ópera era para ser executada nos intervalos das óperas sérias, para dar um tipo de quebrada”, explica. “As óperas sérias, geralmente, tinham de três a quatro horas. E aí eles faziam essa ópera que era executada enquanto estavam montando o cenário, entre um ato e outro da ópera séria. Por isso é chamada de ópera intermezzo, porque ela está no meio da ópera maior”.
A ópera cômica possui dois intermédios, equivalente a dois atos, com duração de 50 minutos.
Por mais que operasse entre os intervalos, La Serva Padrona adquiriu maior dimensão e tornou-se uma ópera independente desde aquela época. Devido à prosódia e ao encaixe das sílabas tônicas, Kleiton destaca que a tradução do italiano para o português foi desafiante, “porque o compositor, quando ele pensa na música, pensa no texto sendo musicado. Mas a gente conseguiu fazer um trabalho bem legal. Acredito que ela ficou até um pouco melhor do que no italiano, pela questão do entendimento”.
A Serva Patroa integra o Projeto Ópera no Santa Roza, patrocinado pela Lei Paulo Gustavo, Ministério da Cultura (MinC) e Secretaria de Estado da Cultura da Paraíba (Secult-PB), com apoio institucional da Fundação Espaço Cultural (Funesc).
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 26 de fevereiro de 2026.