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Para curtir Sivuca

publicado: 20/01/2026 08h50, última modificação: 20/01/2026 08h50
Tema de ano cultural na Paraíba, compositor e instrumentista paraibano pode ser ouvido e visto nas plataformas de áudio e no YouTube
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Legado do mestre da sanfona está acessível para qualquer interessado | Foto: Olenildo Nascimento

por Esmejoano Lincol*

A morte do compositor e instrumentista paraibano Sivuca completará 20 anos em dezembro deste ano. Como parte dos projetos de preservação da obra do artista, o Governo do Estado anunciou, em dezembro, a criação de um museu, em parceria com a Universidade Federal da Paraíba (UFPB): um acervo com cerca de 10 mil itens deve ser alocado num prédio histórico do Centro de João Pessoa. Na semana passada, o governador João Azevedo sancionou, ainda, a Lei no 14.249, que instituiu o “Ano Sivuca — O legado eterno do Poeta do Som”, com ações no âmbito da cultura e da educação. A União faz coro a essa empreitada, elencando trabalhos literários e audiovisuais que mantêm viva a memória do mestre.

Em 2011, a filha de Sivuca, Flávia Barreto, trouxe a público o livro Magnífico Sivuca – Maestro da Sanfona. O livro reúne aspectos importantes da vida do artista e sua relevância para diversas gerações músicos. No mesmo ano, outra obra escrita por Flávia e pelo jornalista Fernando Gasparini pormenoriza ainda mais essa influência: Sivuca e a Música do Recife.

Há sete anos, Edna Martins Paiva, conterrânea do mestre, trouxe a público a robusta biografia robusta Sivuca — O Mito de Itabaiana para o Mundo. A empreitada ostenta em 104 páginas registros fotográficos que remontam a trajetória do menino, que aprendeu a tocar na sanfona que ganhou do presente do avô, ao adulto que conquistou platéias do mundo. 

Sivuca (C) levando a sanfona para a sala de concertos | Foto: Beto Figuerôa/Agência Estado

Extraídas de gravações caseiras ou de perfis oficiais, é possível encontrarmos, na internet, apresentações marcantes de Sivuca dentro e fora do país — dos anos 1960 a 1980, ele residiu e trabalhou na Europa e nos Estados Unidos, firmando parcerias com artistas locais. Os títulos nos próximos parágrafos estão disponíveis no YouTube.

Uma das postagens mais preciosas conta com a presença da intérprete sul-africana Miriam Makeba. O encontro aconteceu em 1966, no palco do clube Berns Salonger, na Suécia. Como Miriam nos vocais e Sivuca ao violão, eles apresentaram uma versão de “Chove chuva” (composição de Jorge Ben). Anos mais tarde, ele escreveu para ela os arranjos da canção “Pata pata”.

Também de um palco sueco vem um programa do músico paraibano com o flautista Putte Wickman, exibido em um canal de Estocolmo, em 1969. Uma versão remasterizada desse especial foi disponibilizada há cerca de um ano. Esse registro em áudio chegou às lojas de discos europeias no mesmo ano, mas segue sem lançamento oficial no Brasil.

Outra das postagens históricas do mestre disponíveis no YouTube: sua participação no programa Eu Sou o Show, produzida pela antiga TV Educativa (hoje TV Brasil), em 1985. Esse unitário, dirigido por Paulo Dionísio Viard, reúne entrevistas com Sivuca e colaborações dele com o jovem violinista Rafael Rabello e as cantoras Elizeth Cardoso e Nana Caymmi.

 

Personagem de cinema

O artista foi tema do curta-metragem Três Dias com Sivuca, finalizado um ano após o seu falecimento e que pode ser visto. Dirigido e roteirizado por Pedro da Rocha, o filme dá conta dos ensaios para a apresentação do paraibano no Marco Zero de Recife, capital pernambucana, em 2004; na ocasião, ele foi acompanhado pela orquestra sinfônica da cidade. 

Nesse documentário, Sivuca também fala de sua relação com o estado vizinho e confidencia algo que acalentou por anos, tanto como medo quanto como desejo: escrever peças originais para orquestras.

“Até 1985, quando eu fiz a primeira partitura realmente sinfônica, que foi um ‘concertino’, podemos dizer, baseado no tema ‘Asa branca’”, asseverou em depoimento.

Sivuca tocando violão e cantando na TV sueca, em 1969 | Foto: Reprodução/YouTube

Mais recentemente, Sivuca também foi personagem do filme O Milagre de Santa Luzia, realizado por Sérgio Roizenblit em 2008 e que foi reeditado, posteriormente, como minissérie (e que foi postado neste formato, em episódios). Neste outro documentário, o também falecido Dominguinhos percorre o Brasil de carro e conversa com colegas de profissão jovens e veteranos.

O segmento com a participação de Sivuca foi rodado em Itabaiana e João Pessoa (a cidade em que o músico viveu seus últimos anos). Além de dividir os acordes de muitas canções conhecidas, como “Feira de magaio”, (composta por Sivuca e sua esposa, Glorinha Gadelha) os velhos amigos comentaram sua amizade de 40 anos, dentro e fora dos palcos.

A extensa discografia de Sivuca está quase completa nas plataformas de música, considerando os lançamentos oficiais das gravadoras. Pelo menos no YouTube, todos os registros fotográficos se fazem presentes, mesmo em postagens não oficiais de fãs e entusiastas. Dentre os destaques, o primeiro LP do intérprete, Eis, Sivuca!, lançado em 1956.

Na estreia pelo antigo selo Copacabana (hoje Universal Music) estão as faixas “Primeiro amor” (de Pattápio Silva) e “Corrupio” (de Guerra Peixe). Já no disco de 1978, também da Copacabana, mas numa perspectiva mais autoral, estão reunidos os clássicos “João e Maria” (parceria com Chico Buarque) e “Nosso encontro” (composta com Hermeto Pascoal).

Dos discos editados na Europa e nos Estados Unidos, no rastro do êxito internacional do itabaianense, estão L’Inimitable Sivuca (1963), com o auxílio luxuoso do colega percussionista Sílvio Silveira, e Bossa Nova (1968), que compila clássicos desse gênero tipicamente brasileiros como “Corcovado”, lançado nos mercados japoneses e argentinos.

Considerando os álbuns mais recentes, partes do catálogo do selo Kuarup, há Enfim Solo (1997) e o último trabalho do paraibano — Terra Esperança (2006), gravado ao vivo no Teatro Santa Roza, em João Pessoa. Neste, há a participação de conjuntos conterrâneos: Sexteto Brasil (na canção “Mãe África”) e Quinteto da Paraíba (na faixa “Amoroso coração”).

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 20 de janeiro de 2026.