A quantas anda o mercado editorial no país e os hábitos culturais dos consumidores de livros no Brasil? Organizada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), a terceira edição da pesquisa “Panorama do Consumo de Livros” (ano base 2025) foi apresentada ontem (26) pela manhã, em coletiva de imprensa on-line, e trouxe algumas pistas importantes. No caso do Nordeste, houve um aumento do percentual da população consumidora de livros na região, saindo de 27% em 2024 para 28% em 2025.
Iniciativa da CBL em parceria com a Nielsen BookData, o estudo funciona como um termômetro para o posicionamento dos agentes da cadeia produtiva do livro, tais como livrarias e editoras. Entre outras variáveis, estão comparações feitas entre as categorias de consumo preferidas dos entrevistados e o perfil dos consumidores.
“Esse estudo é uma ferramenta muito importante para o setor [editorial], pois ele nos ajuda a compreender melhor quem são os consumidores de livros no Brasil e como eles se relacionam com o mercado”, destacou a presidente da CBL, Sevani Matos.
Mariana Bueno, coordenadora da pesquisa da Nielsen BookData, corroborou o poder do recurso para a tomada de decisões do mercado. “A gente vem percebendo que as pessoas, os agentes do setor vêm utilizando esses dados pra tomar decisão e pensar suas ações”, afirma ela. O trabalho de campo compreendeu entrevistas a 16 mil indivíduos, entendendo-se por consumidor(a) de livro qualquer pessoa que tenha comprado um ou mais livros nos últimos 12 meses.
Destaques iniciais
Enquanto em 2024, 16% da população brasileira era consumidora de livros, no ano passado o número cresceu para 18% – apesar dos dois pontos percentuais, o número equivale a 3 milhões de novos consumidores. “A gente sabe que o livro de colorir tem um peso grande aqui, mas a gente também sabe pelos dados do varejo [...] que a categoria ficção também impulsiona esse crescimento”, explica Mariana.
O Nordeste é o segundo colocado no ranking de região com maior número de compradores de livros, atrás apenas do Sudeste, o que se explica, entre outras razões, por suas dimensões territoriais.
Raça
Pela primeira vez, o marcador social da raça apareceu na pesquisa. A maioria se autodeclarou brancos (45%), mas, somados, pardos (37%) e pretos (12%) representam 49% dos consumidores.
Quanto à questão de gênero, não houve alteração – as mulheres se mantiveram como a maioria consumidora das obras, com 61%, contra 39% dos homens. Porém, a variável de raça apontou que das mulheres que compram livros, 50% são pretas e pardas.
Classe social
Classes C (43%) e B (36%) se destacam no perfil de compradores de livros. “E mais uma vez falando de mulheres pretas e pardas e colocando a questão de classe na análise da classe C, elas são o maior grupo consumidor deste país, com 15% dessa população”, destaca Bueno.
Redes sociais
“A gente foi muito provocado pelo mercado, já fazia algum tempo em relação ao vínculo das redes sociais com o setor”, Mariana comenta, mencionando uma pergunta do questionário a respeito daquilo que influenciava as pessoas a comprarem um livro. Mergulhando nas redes sociais como recurso de recomendação para a compra final, o estudo demonstrou que o Whatsapp era a rede mais utilizada (com 73%), seguida do Instagram (63%) e TikTok (20%). Resultado: 56% dos consumidores fecham a compra pelas redes sociais da internet.
Ao perfilar os consumidores que usam as redes sociais, duas variáveis se mostraram importantes para agrupar os dados, quer sejam o gênero e a idade. Já o TikTok, como esperado, atinge muito o público mais jovem (principalmente mulheres de 18-24 anos), enquanto no Facebook prevalecem os consumidores de livros mais maduros (sobretudo homens e mulheres entre 55-64 anos). “A gente já viu nas edições anteriores que o Nordeste é uma região bem digitalizada. Eles compram pela internet, eles acessam o livro digital, então é interessante a gente perceber isso”, menciona a coordenadora do estudo, apontando que no Nordeste, 31% das consumidoras de livros compram através das redes sociais, atrás apenas do Sudeste, com 38%.
Livros de colorir
Fenômeno de peso para o setor no ano passado, os livros de colorir também foram objeto de indagações. 40% dos respondentes disseram ter comprado, e dentro desse percentual, 7,1% da população brasileira acima dos 18 anos teria comprado ao menos um exemplar. A maioria, mulheres (66%), entre 25 e 54 anos. “Lembrando aqui que a gente não tem como saber se o sujeito comprou um livro pirata. Então é bem possível que tenha livro pirata também”.
Em relação às datas comemorativas como fator de impulsionamento para a compra, 45% das pessoas que disseram ter comprado livros no Dia das Crianças também afirmaram ter comprado o livro de colorir – pela primeira vez, inclusive, o dia dos pequenos tomou à frente da Black Friday no tocante aos livros.
Livrarias físicas
A Leitura é uma rede que vem apresentando crescimento entre os compradores em uma loja física. Mas pela primeira vez, duas livrarias do Nordeste apareceram na lista de lojas em que os compradores teriam feito sua última aquisição de livros impressos: a Escariz e a Jaqueira.
“A experiência nesse ambiente de compra presencial ganha força. Ver o livro antes de comprar, sair com o livro na mão são fatores que têm muita importância para esses consumidores que preferem comprar um livro presencial”, diz Mariana.
Também foi perguntado se as pessoas costumavam frequentar a livraria da cidade ou bairro – 36% disseram que sentem falta de uma livraria na sua cidade, mas ao mesmo tempo não visitavam o local com muita frequência. A percepção geral sobre o ambiente da livraria é a de um ótimo lugar para relaxar e explorar sem pressa (53%).
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 27 de março de 2026.