Ao sintonizarmos qualquer rádio brasileira às 19h, ouviremos a peça “O guarani”, que abre o tradicional programa A voz do Brasil, transmitido em cadeia há nove décadas. Este é o contato mais estreito que boa parte da nossa população tem tido com a obra do maestro paulista Carlos Gomes, um dos expoentes do gênero e patrono da música no país desde 1979. De modo a ampliar o conhecimento em torno do artista, a Orquestra Sinfônica Acadêmica da Universidade Federal Paraíba (UFPB) abre sua temporada 2026 com um concerto gratuito que celebra os 190 de nascimento de Gomes: a partir das 20h, na Sala Radegundis Feitosa, situada no Centro de Comunicação, Turismo e Artes (CCTA), no Campus I, em João Pessoa.
Participam o Coro da Academia de Ópera e Repertório da instituição, a Orquestra Sinfônica titular (OSUFPB) e docentes do Departamento de Música (Demus). Como solistas, foram convidados: Rafael Thomas, de São Paulo; Murilo Neves, do Rio de Janeiro; Lazlo Bonilla, do Rio Grande do Sul; e Isadora França, da Paraíba, sob a regência do maestro Wendell Kettle.
“O evento integra a nossa série Efemérides, com o aniversário ‘redondo’ de artistas. São os quatro compositores que escolhemos para compor a temporada de 2026. Além de Gomes, compositor brasileiro de grande influência na ópera mundial, teremos Mozart [que completaria 190 anos], Radamés Gnattali e Dmitri Shostakovich [ambos 120 anos]”, detalha.
“O guarani” é um dos destaques do repertório, segundo Kettle. Composta em 1870, emula os conflitos do romance homônimo escrito por José de Alencar. Seu trecho de abertura, união retumbante de instrumentos de sopro e cordas, é amplamente utilizado em samples de canções contemporâneas, filmes e programas, e será executado hoje à noite, na UFPB.
“É sem dúvida, seu trabalho mais famoso. Essa junção da música lírica, com essa temática do indígena, Peri, que se apaixona pela mocinha, Ceci, trouxe um grande sucesso para ele. E não apenas na Itália, onde estava, quando a compôs, mas por onde a ópera passou. Tornou-se um emblema, não só da nossa ópera, mas da nossa cultura também”, analisa.
Outras duas peças completam o concerto. “Sonata para cordas”, adianta Kettle, conta com uma “dimensão impressionante” de arranjos, sendo um exercício fundamental para músicos; as orquestras titular e acadêmica executam juntas essa faixa. Para o encerramento, o maestro preparou uma obra coral sinfônica, também pinçada do cancioneiro de Gomes.
“Encontramos essa peça no segundo movimento do poema ‘Colombo’, composto em homenagem ao descobrimento da América, conta com orquestra, coro sinfônico e solistas. Em suma, o público vai poder experimentar uma obra com orquestra completa, com ‘O guarani’. Depois, outra, com orquestra de cordas. E a junção com o coral lírico e os solistas”, afirma.
Incentivando a ópera
Esmiuçando os numerosos coletivos que acompanham, hoje, a Orquestra Acadêmica da UFPB, Kettle aponta que o Coro da Academia de Ópera e Repertório da UFPB abrange discentes de projeto de extensão que o maestro coordena no Demus e que coaduna, ainda, centros de estados vizinhos, como da Universidade Federal do Rio Grande no Norte (UFRN).
“É uma iniciativa que visa desenvolver e prover o aperfeiçoamento nas artes lírico-musicais, mas propriamente da ópera. Os cantores têm o treinamento do canto lírico, da encenação, da atuação, da movimentação corporal... E quando nós fazemos um concerto, os cantores se juntam, fazendo um ‘par’ com a nossa orquestra”, salienta.
Os solistas convidados têm empreendido carreiras sólidas. Rafael Thomas contribui com o coro do Teatro Municipal de São Paulo. Murilo Neves coopera com o Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Lazlo Bonilla é co-fundador da Companhia de Ópera do Rio Grande do Sul (Cors). E Isadora França, soprano, colabora com a Orquestra Sinfônica de João Pessoa.
“Os solistas estarão, no palco, com o coro da Academia de Ópera e Repertório, na peça ‘Colombo’, representando personagens dessa cantata, no encerramento do concerto comemorativo, sendo uma soprano, um tenor, um barítono e um baixo. Mas, os pormenores, eu vou deixar para o público descobrir vindo ao concerto, nesta sexta-feira”, assevera.
Considerando o restante das atividades previstas para 2026, Kettle informa que as parcerias da Orquestra Acadêmica da UFPB com os demais conjuntos vocais e instrumentais da instituição seguirão a pleno vapor, sobretudo as óperas. A temporada será finalizada no dia 11 de dezembro, por meio de novo concerto com a OSUFPB, mas ainda sem tema definido.
“O que a gente faz aqui na Universidade, tanto através da Sinfônica Acadêmica, quanto da Academia de Ópera e Repertório, é justamente sensibilizar as pessoas que participam dos projetos no fazer artístico e os públicos que a gente busca atrair. Toda linguagem artística precisa ser cultivada, regada. Então, é um trabalho contínuo de formação de plateia”, crava.
Numa declaração recente, o jovem ator Timothée Chalamet, indicado ao Oscar pelo filme Marty Supreme, desdenhou da importância de linguagens como o balé e a ópera, dizendo que as pessoas “não ligariam” para estas expressões da arte. Rechaçada por diversos artistas, a afirmação insensível de Chalamet também é negada pelo maestro Wendell Kettle.
“Na Paraíba, incentivamos, por exemplo, a produção de óperas baseadas na literatura nordestina, nas nossas figuras históricas, no nosso folclore. Isso faz com que nasça uma linguagem operística, intrínseca da nossa terra. A música de concerto, o balé e a ópera estão, sim, em voga, mas precisamos ampliar o acesso dessas artes a toda a comunidade”, conclui.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 13 de março de 2026.
