Desde seu nascedouro, o cinema teve uma história rodada majoritariamente por homens, tanto por trás quanto diante das câmeras. Mas esse enredo tem mudado. Quer seja na direção, roteiro, direção de fotografia ou produção, as mulheres vêm cada vez mais ocupando um espaço que jamais deveria ter-lhes sido negado. A Djaniras Mostra de Cinema Feminino, que este ano apresenta sua 3ª edição, é disso uma prova, já que reúne dezenas de filmes realizados só por mulheres. O evento gratuito começa amanhã e vai até sexta-feira (22), sempre a partir das 9h, no Cine Aruanda, localizado no Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes da Universidade Federal da Paraíba (CCTA-UFPB), em Castelo Branco.
Ampliando as discussões sobre representatividade e circulação do audiovisual, resultante tanto de realizadoras quanto de pesquisadoras de diferentes partes do Brasil, a mostra congrega oficinas temáticas na Sala de Reuniões do CCTA (sempre das 9h às 12h e das 13h às 16h), bem como quatro sessões especiais e duas mostras competitivas com júri popular no Cine Aruanda (amanhã e quinta-feira, das 19h às 22h) – a Mostra Margarida evidencia produções paraibanas e a Mostra Acácia lança luz sobre os filmes de outras regiões do país, com curadoria de Talita Arruda, Melina Bomfim e Ingá Maria Patriota.
Já a programação especial conta com as sessões: Campo em Flor (amanhã, das 14h às 15h30), também assinada por Melina e em parceria com o Festival Kilombinho, com exibição de curtas-metragens infantis; Aroeira (quinta-feira, das 16h às 18h), com curadoria de Carine Fiúza, que terá o lançamento do longa metragem nacional Aqui não entra luz; e as sessões CTAv (sexta-feira, das 16h às 18h), que em parceria com o Centro Técnico Audiovisual da Secretaria do Audiovisual (SAV) do Ministério da Cultura (MinC) trará documentários históricos do acervo, e Benedita (também sexta, às 19h), prestando homenagem à cineasta Ana Bárbara Ramos – ambas as sessões possuem curadoria de Martina Nobre.
Nas mostras competitivas, a Paraíba concorre com os filmes Aláfia (2024, 15 min), de Cecilia Fontenele; Um oceano inteiro (2025, 17 min), de Bruna Dias e Carine Fiúza; A nave que nunca pousa (2024, 15 min), de Ellen Morais; Luciá (2025, 20 min), de Priscila Tavares; Corpo celeste (2025, 20 min), de Thalita Sales e Pedra-Mar (2026, 12 min), de Janaína Lacerda.
Protagonismo do feminino
Idealizada por Drica Soares (coordenadora geral) e Martina Nobre (diretora artística), a mostra Djaniras surgiu em 2022, inicialmente realizada em Remígio, no interior da Paraíba. Depois migrou para a capital, em sua segunda edição, na Usina Cultural Energisa, e ora chega ao Cine Aruanda refletindo uma aposta na formação de público também por aproximação com o ambiente universitário.
“É um projeto da Carambola Filmes, que é a minha produtora”, afirma Drica. “Já venho desenvolvendo projetos [voltados para] esse protagonismo do feminino, através de curtas, séries, longas. Nosso intuito é apoiar o cinema feminino mesmo e estimular a divulgação na Paraíba, promover encontros e fortalecer o mercado audiovisual”, acresce. A produtora destaca ainda que a criação do evento partiu da necessidade de abrir novas janelas de exibição para curtas-metragens, especialmente obras que encontram dificuldade de circulação em salas comerciais.
Desde a primeira edição, a mostra foi estruturada em diferentes segmentos competitivos. A Mostra Margarida mantém o foco exclusivo em produções dirigidas por mulheres paraibanas. Já a Mostra Acácia, com recorte inicial apenas de filmes nordestinos, ampliou o alcance na segunda edição e passou a aceitar obras de todo o Brasil, o que foi mantido na atual edição.
O crescimento no número de inscrições dá a dimensão da expansão do festival. Olhando apenas para o recorte da Mostra Margarida, Drica lembra que houve 14 filmes inscritos na primeira edição, 25 na segunda e, em 2026, o número chegou a 32 produções, apenas na categoria voltada às realizadoras paraibanas. Na Mostra Acácia, foram mais de 200 inscrições. “A gente tá começando a ter um alcance”, diz ela.
“É bacana ver esse crescente, dessa importância da produção cinematográfica realizada por mulheres. [...] Porque esses filmes circulam nos festivais, mas como o audiovisual ainda é um espaço muito masculino fica pulverizado e aí a gente não tem uma noção exata do que tá acontecendo. Isso não é visto, não é falado”, ressalta.
Segundo Drica, o nome Djaniras veio de uma mulher sertaneja, avó de uma grande amiga de Martina. “Ela trouxe essa referência pra mim e eu achei representativo de pensar Djaniras como um conjunto de mulheres. [...] Não foi referência à música [homônima] de Cátia de França, mas não deixa uma homenagem também à Cátia que é uma dessas mulheres que sempre reverenciamos”.
Ana Bárbara Ramos
A sessão Benedita reúne um apanhado da cinematografia de Ana Bárbara Ramos, desde filmes mais antigos, como Desejo citrullus (2003) e Cabaceiras (2007), até os mais recentes, a exemplo de Cósmica (2022). Já Sweet Karolynne (2009), talvez o mais conhecido da diretora, acabou entrando na mostra especial infantil Campo em flor, em exibição amanhã.
“Ela é uma realizadora que vem há muito tempo desenvolvendo o seu trabalho. Começa nos anos 2000, chegando junto da produção. Tem uma contribuição incrível pro novo cinema paraibano, também com filmes do coletivo Las Luzineides, que envolve vários produtos audiovisuais, e nisso ela se torna realizadora, diretora, com uma parta pedagógica. É uma figura que trás muita história pro cinema paraibano”, atesta a coordenadora.
Nascida em Olinda (PE) e radicada na Paraíba, Ana Bárbara é cineasta, produtora e educadora, mantendo projetos especializados em cinema e educação. Com produção de destaque no cinema independente paraibano, a diretora já foi laureada em diversas premiações nacionais, a exemplo do Prêmio ABD&C no Festival do Rio para o Filme Cabaceiras, além de ter conquistado os prêmios de Melhor Filme do júri popular no Festival Internacional de Curta-Metragem do Rio de Janeiro (2009), e o Prêmio Canal Brasil (2009), ambos pelo filme Sweet Karolynne.
Mestre em Letras e graduada em Comunicação Social pela UFPB, Ana Bárbara é membra da Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro (Apan) e da Rede Latino-americana de Educação, Cinema e Audiovisual (Redekino).
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 19 de maio de 2026.

