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Sob a lona

Reconhecimento ao picadeiro

publicado: 04/04/2026 08h35, última modificação: 06/04/2026 08h45
O circo de tradição familiar agora é Patrimônio Cultural do Brasil e luta por melhores condições de trabalho
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Fotos: Arquivo Fórum de Circo da Paraíba

por Daniel Abath*

No dia 11 de março, por decisão do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural e em reunião no Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro, o circo de tradição familiar passou a ser considerado oficialmente como Patrimônio Cultural do Brasil. O reconhecimento anotado no Livro de Registro das Formas de Expressão endossa a importância da manifestação cultural para a identidade, a memória e a formação cultural do povo brasileiro, propondo mudanças práticas na vida das famílias que vivem armando e desarmando a lona por diferentes cidades deste imenso Brasil.

A relatora do processo, Desirèe Tozi, do Ministério da Cultura (MinC), destacou o caráter laboral e de subsistência do circo familiar, tendo a família nuclear papel de primeira ordem para a manutenção dos saberes circenses. Diga-se de passagem, para ser considerado Circo de Tradição Familiar
faz-se necessário o elemento da itinerância bem como a organização das atividades circenses em torno de núcleos familiares transmissores de técnicas e saberes ao longo das gerações.

O dossiê do registro recomenda que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em parceria com a Fundação Nacional de Artes (Funarte), mobilize ainda mais a comunidade circense em prol da salvaguarda do circo de tradição familiar, promovendo diagnósticos das políticas públicas já existentes e encampando ações de sustentabilidade sociocultural. 

De acordo com o Fórum de Circo da Paraíba, atualmente são 32 os circos de tradição familiar em atividade no estado

Walter Olivério, membro do Fórum de Circo da Paraíba, esteve presente à ocasião do registro oficial. Ele afirma que, logo nos primeiros contatos realizados pelo Iphan com os representantes da Paraíba, a equipe local abraçou de pronto a nobre causa.

“Nós já tínhamos o mapeamento, todos os circos da Paraíba, e a gente facilitou esse caminho para eles. Apresentamos todos os circos, contatos, as histórias, e eles sempre falam que ajudou bastante, facilitou o processo dessa pesquisa”, conta Walter, que contabiliza cerca de 32 circos do tipo em atividade no estado.

Para o representante paraibano, apesar de ser um primeiro passo, trata-se de um momento histórico refletor de uma luta por garantia de direitos que atravessa décadas. “Acho que o primeiro ponto que acaba sendo mais subjetivo é o circense ser reconhecido enquanto um patrimônio. É um povo que sofre muito preconceito”, diz ele, “enfrenta muitas dificuldades, e no momento que o nosso país reconhece, você se sente enquanto patrimônio, eu acho que isso já mexe diretamente com a autoestima”.

Desburocratização

Além dos ganhos de ordem subjetiva inerentes ao processo, os estudos do Iphan apresentam diversas diretrizes, caminhos e orientações para o poder público de maneira geral — municípios, estados e o próprio Governo Federal — em termos de alinhamento de ações. Um deles é a garantia de educação aos menores, filhos e filhas do circo. “Que cheguem nas cidades e sejam bem recebidos, com menos burocratização”, afirma Olivério. “Hoje a burocracia é muito grande para o circo se instalar”.

Palhaço integrante do Circo Puma, Careca conta que tem como base itinerante a Paraíba, apesar de percorrer paragens de todo o Nordeste. Enquanto desmonta o circo, de saída de São Paulo do Potengi para Riachuelo, ambos municípios localizados no Rio Grande do Norte, ele afirma que a principal dificuldade da trupe são os terrenos.

“Quando falo terreno são áreas adequadas para montar o circo; com bom acesso para as carretas, para os ônibus chegarem. Um terreno que não alague, que não faça uma lama, que tenha bom acesso do público. Quando eu falo terreno, inclui tudo isso”, explica Careca, apontando que, ao invés de ajudar, a quase totalidade das prefeituras costuma dificultar a fixação dos grampos de lona no chão de seus territórios. “Eu mesmo já tive duas cidades que eu tive de entrar com liminar na justiça. Muitos circos baixam a cabeça e vão embora”, completa o palhaço.

Ciente dessas dificuldades práticas, Olivério espera que o novo passo dado pelo Iphan possa facilitar a instalação dos circos nos terrenos, com a devida estrutura de saneamento básico, água, luz e documentação célere. “Hoje, o circense chega numa cidade e tem que ir na Secretaria de Cultura pegar um documento, na Secretaria de Infraestrutura pegar outro. Semana passada, eu recebi a ligação de um circo que foi matricular suas crianças em uma escola pública e o direito foi negado”, destaca Walter a respeito dos estudantes que costumam trocar de escola a cada 15 dias em função da mudança de praça do circo. “Quando ele faz uma praça e a primeira semana foi ruim, a segunda está ruim também, ou ele se muda ou começa a passar fome, porque o circense vive exclusivamente da bilheteria”.

Sonho itinerante

Tendo convivido por muito tempo junto aos circos itinerantes familiares, a pesquisadora Simone Alves se debruçou sobre a cultura circense no Programa de Mestrado Profissional em Artes da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Pesquisou, entre outros aspectos, como essa cultura cultivada nos picadeiros vem se desenvolvendo e mantendo seus mecanismos de ensino-aprendizagem.

“O circo e os circenses estão o tempo todo dialogando com seu tempo presente”, explica Simone, que focou, no estudo, no conhecimento corporal como contributivo para os sujeitos no âmbito da educação formal. “Eu vejo a arte circense como fundamental às cidades, porque é uma arte muito democrática, que agrega muito em sua natureza”.

Ela esclarece serem vários os formatos de espetáculos da arte, como o circo-teatro, o circo mais contemporâneo (a exemplo do Cirque du Soleil) e o circo de variedades. “Esse que a gente geralmente vê nas cidades são os circos de variedades, em que eles colocam vários tipos de espetáculos juntos — você vê números circenses, cantores, esquetes de teatro que os palhaços fazem, às vezes até personagens da TV”, enumera.

“Diferentes classes sociais se encontram debaixo da mesma lona, porque o circo vai para alguns bairros da cidade que outras artes às vezes não vão. O circo se desloca para onde estão os moradores, e não o contrário, em especial os circos de lona tradicionais. Têm circos que fazem só as capitais, tem outros que fazem os bairros e tem outros que até no mesmo bairro fazem diversos terrenos a depender de seu porte”, diz Alves.

“A gente conseguiu esse reconhecimento. Agora, a gente vai lutar pra que sejam efetivados os benefícios”, avalia Walter. Mesmo percebendo a elevação de sua arte a patrimônio cultural de maneira ainda um tanto abstrata, Careca se mostra otimista: “Eu sei que ele vai nos ajudar, de uma forma ou de outra, principalmente nessa caminhada da gente, nessas dificuldades que a gente encontra nas cidades, nos editais e locais de armar o circo”. Como pontua Simone, “diante de um mundo tão atropelado, o circo sempre há de nos lembrar do sonho”.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 04 de abril de 2026.