Em novembro de 1946, o jornal O Globo “matou” o escritor e jornalista paraibano José Maria dos Santos, então radicado no Rio de Janeiro, ao publicar seu obituário; “natural de Maranguape, na Paraíba do Norte”, indicava a nota. Coube ao próprio “falecido” desmentir, dois dias depois, por telegrama, os dados incorretos: “Primeiro: nasci em João Pessoa e não em Maranguape. Segundo: Maranguape fica no estado do Ceará. E terceiro: continuo vivo”. O cronista e pesquisador Gonzaga Rodrigues mergulha de novo nesta e em noutras curiosidades ao trazer a público a reedição de José Maria dos Santos (Editora Ideia), ensaio sobre o conterrâneo pouco conhecido em sua própria terra. O evento de relançamento acontece amanhã, a partir das 10h, na Livraria do Luiz do MAG Shopping, em Manaíra, João Pessoa. Flávio Ramalho de Brito, que colaborou com o projeto, participa do evento.
O livro foi publicado originalmente em 2000, pela Editora A União, dentro da série Nomes do Século, plaquetes com informações biográficas sobre grandes paraibanos. A segunda versão conta com nova capa e revisão ortográfica, mas Gonzaga mantém o prefácio do ex-governador Tarcísio Burity e o apêndice com recortes de jornais e capas de livros.“Se o leitor não quiser ir além do prefácio, já sai da leitura com a justa dimensão de ‘um paraibano por todos os títulos notável’ e que até agora não mereceu uma reedição de suas principais obras. Animou-me a isso o estímulo de um leitor da nova geração, de nossa universidade, o biógrafo e historiador Flávio Ramalho, que acrescenta ao opúsculo algumas correções”, informa.
Quando da pesquisa inicial sobre José Maria — numa época em que a internet era limitada e o acesso a acervos de grandes jornais era feito de forma presencial, física — Gonzaga recorreu a escritos e entrevistas, com grandes intelectuais contemporâneos, também nascidos aqui, a exemplo de José Américo de Almeida, Celso Mariz e José Leal. Outros dois confrades da Academia Paraibana de Letras (APL) — Eduardo Martins e Deusdedit Leitão — auxiliaram na empreitada, noutras frentes de estudos.
“É quando sai a primeira edição do último livro dele, Bernardino de Campos e o Partido Republicano Paulista, numa coleção da editora José Olimpio e nos traz a primeira nota biográfica do autor numa orelha do livro”, rememora.
Por meio desse rápido comentário, Gonzaga Rodrigues, que definiu José Maria, em sua plaquete, como “escritor político”, assinalando sua prodigiosa atuação como correspondente de periódicos europeus, pôde ter acesso ao seu bom humor, quando relatou a “barrigada” de O Globo: ele foi confundido com um comerciante homônimo. Mas quando de fato morreu, em junho de 1954, aos 77 anos, o paraibano vivia a repercussão de sua labuta e não somente por meio da reverência dos pares brasileiros. A política geral do Brasil, tratado sobre o fim do Império e a gênese da República, foi traduzido para o inglês e servia, até a data da primeira edição, como fonte de outros tantos estudos.
Dentre os dados ratificados ou ampliados agora, estão a participação do perfilado na força voluntária da Revolução Acreana do início do século 20 e toda a sua militância em prol da imprensa, que não esteve restrita ao Rio de Janeiro.
O livro reúne essas informações em sete capítulos, que partem não de sua infância, mas de seu curioso “renascimento”. Em 1957, ao ser convidado como curador de uma antologia de contos brasileiros, o alagoano Graciliano Ramos passou longe de paraibanos mais incensados como José Lins do Rego ou Pereira da Silva — o representante do estado acabou sendo José Maria e o texto “A volta dos cães”, sobre a Guerra de Canudos, reproduzido na íntegra por Gonzaga noutro dos apêndices do livro.
Se a pauta literária demandou esforço, foi ainda mais difícil remontar sua trajetória pessoal e familiar. Mas um dado salta aos olhos: José Maria era negro. Gonzaga sinaliza que as críticas de sumidades como Gilberto Freyre a Menotti del Pichia detém-se à obra, mas, nas entrelinhas, dão pistas se parte da invisibilidade do biografado, sobretudo a nível local, decorria do racismo.
“[Outro desses textos, de] Raul Pila: ‘Homem de raça negra, pertenceu a uma elite de expoentes do ensaísmo brasileiro, explicando-se o desconhecimento de sua obra pela modéstia desconfiada com que José Maria dos Santos se colocava diante dos homens e das coisas de seu país’. ‘Modéstia desconfiada’ é um lance que diz muito”, infere Gonzaga.
Mesmo celebrando o retorno da plaquete José Maria dos Santos — e a possibilidade de ofertar a novos públicos tudo aquilo que pôde levantar sobre ele —, Gonzaga Rodrigues é cético ao responder se, em algum momento, o conterrâneo terá lugar no panteão dos grandes literatos paraibanos: “improvável”, já que essa produção não tem potencial popular.
“São estudos, análises do regime instável, sujeito a repetidos golpes desde a proclamação aos dias de hoje, de um país rico e de um povo tão alegre, festeiro, trabalhador e tão furtado. Mas uma dica final: se o leitor der atenção ao prefácio de Burity e à transcrição, nas páginas finais, do conto escolhido por Graciliano, acredito volte à leitura dessa crônica em capítulos”, resume.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 29 de maio de 2026.
