Notícias

televisão

Sob as águas de Coremas

publicado: 16/03/2026 09h28, última modificação: 16/03/2026 09h28
O Canal Brasil começa a exibir na próxima quinta a minissérie documental Navio do Sertão, sobre comunidades quilombolas da região
DSC_2386.jpg.jpeg

Fotos: Divulgação/Canal Brasil

por Daniel Abath*

Uma história escondida sob as águas do Sertão paraibano vem à tona em uma produção audiovisual que reúne memória, território e cultura popular. A minissérie documental Navio do Sertão, que estreia na próxima quinta-feira (19), no Canal Brasil, revisita a trajetória de comunidades quilombolas de Coremas e resgata lembranças ligadas a uma antiga localidade que desapareceu após a construção do açude da cidade. A produção de quatro episódios, transmitida em formato de maratona, será ainda reprisada nos dias 20 e 23 — posteriormente, também deverá integrar o catálogo de streaming da plataforma Globoplay. 

Patrícia Pinheiro (de boné, na foto), diretora da obra, é antropóloga e morou durante oito anos em João Pessoa

O projeto conta com relatos de 28 personagens, entre moradores e lideranças quilombolas da região, reconstruindo episódios da formação social e territorial da área a partir de memórias orais e experiências coletivas. A ideia da série surgiu a partir de um trabalho anterior realizado com três comunidades quilombolas de Coremas. A antropóloga e pesquisadora Patrícia Pinheiro — responsável pela direção da obra — conta que o contato com os moradores começou durante uma parceria entre a Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e as comunidades locais. 

Cursando à época um pós-doutorado na UFPB, Patrícia foi procurada por lideranças que buscavam apoio institucional diante de conflitos envolvendo a posse de terras. “Eles estavam muito preocupados com a questão do território”, diz ela. “É uma situação de muita vulnerabilidade e muita luta também. Essa é a parte bonita, sabe? Que eles não desistem de lutar pelo território, pelas raízes, pelas tradições. E, aí, nos procuraram porque eles estavam com risco de invasões, principalmente no território”.

Uma das três localidades, a comunidade quilombola de Santa Tereza, também conhecida como Cruz da Tereza, está situada em área de expansão urbana e ainda não possui reconhecimento oficial do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). De acordo com Patrícia, a ausência de regularização tem exposto o território à especulação imobiliária e a tentativas de ocupação.

O contato com os moradores resultou em atividades de pesquisa e extensão universitária, desenvolvidas em parceria com a também pesquisadora Aline Paixão. As duas participaram da criação do projeto de extensão “Histórias de Quilombo”, iniciativa que reúne ações acadêmicas e culturais voltadas à valorização das comunidades quilombolas da região.

Foi durante uma dessas visitas que o núcleo temático originário da minissérie sobreveio. Ao se deslocar de barco para a comunidade de Barreiras, outra localidade quilombola da região, a equipe ouviu de um morador uma informação que despertou curiosidade. “Quando a gente atravessa de barco, o seu Zé Pequeno fala: ‘Aqui tem um navio’. Eu perguntei: ‘Como assim?’. ‘Aqui era o Navio, era a comunidade do Navio, e ele está aqui debaixo dessa água ainda, do açude de Coremas’”, ela conta.

História submersa

O relato de seu Zé Pequeno levou a equipe a investigar a história da antiga comunidade, que foi inundada com a construção do açude de Coremas. A região, segundo moradores, era um vale fértil, com abundância de água, fator que motivou a escolha do local para a implantação da obra hidráulica.

A partir desse episódio, a equipe passou a reunir depoimentos e relatos sobre a vida na região antes e depois da formação do reservatório. Segundo a diretora, o material coletado revelou histórias de trabalho e participação de moradores na construção do açude e de outras infraestruturas locais.

“Muitos trabalhos para construir o que é o Sertão hoje. Seja nessas obras públicas, seja em obras dentro das fazendas. Eles iam fazer açude dentro das fazendas, pago pelo Estado. Trabalharam de uma maneira muito precária dentro das fazendas também”, afirma.

O documentário então buscou transformar essas lembranças em registros audiovisuais capazes de preservar parte da história da região por meio da oralidade. E, embora trate de episódios marcados por dificuldades sociais e disputas territoriais, a série também procura apresentar aspectos culturais e cotidianos das comunidades. Patrícia explica que esse direcionamento, de evitar uma abordagem centrada exclusivamente nos conflitos, foi perseguido durante todo o processo.

“As dificuldades existem, mas essas dificuldades não é só o que define as pessoas. O que define elas é o conhecimento, o saber, a beleza, a alegria, o forró, o pé de serra. Então, nesse documentário a gente quis equilibrar muito também. De não mostrar só uma história de peso e de tristeza”, reitera. “Quando a gente chega lá para o São João, que acontece tradicionalmente todo ano, é muita alegria. É uma festa muito bonita”.

Escolhida para permitir uma abordagem mais detalhada das histórias individuais e coletivas, a montagem da estrutura em formato de minissérie exigiu meses de trabalho para equilibrar o número de personagens e organizar a narrativa. “Foi um grande desafio pensar como apresentar essas pessoas sem transformar a série apenas em uma sequência de apresentações”.

Cada episódio aborda aspectos específicos da história das comunidades, incluindo relatos pessoais, memórias da formação dos territórios e questões atuais relacionadas às reivindicações por direitos. Uma dessas iniciativas é uma organização educacional mantida por moradores em um dos territórios quilombolas, entidade que atende cerca de 150 crianças e funciona com participação direta da comunidade.

No capítulo final, a série amplia o foco para discutir temas contemporâneos enfrentados pelas comunidades — entre eles, estão o racismo, a luta pela regularização fundiária, o acesso à educação e a manutenção de iniciativas comunitárias. “A questão da terra ainda não está totalmente resolvida. É uma luta que muitas outras comunidades podem reconhecer”, lembra a pesquisadora, que diz sempre ter feito “cinema de guerrilha”.

“E outra coisa, esse engajamento não foi só da equipe que veio de fora de Coremas, foi de dentro de Coremas. Então deu um outro olhar para o filme, porque os próprios quilombolas estavam dentro do filme”, atesta. “Não só como entrevistados, mas como guias, como quem escolhia quem ia ser entrevistado, quem escolhia onde que a gente ia... essas decisões foram tomadas juntas; a gente foi construindo juntos esse trabalho, e isso fez toda a diferença, porque eles nos guiavam e a gente vinha com o trabalho técnico”.

Atualmente, Patrícia é professora da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), em Foz do Iguaçu. Natural de Porto Alegre, ela viveu cerca de oito anos em João Pessoa, período em que desenvolveu parte de sua pesquisa acadêmica na UFPB. Com a estreia de Navio do Sertão, que contou com apoio financeiro da Lei Paulo Gustavo, a equipe também avalia a possibilidade de desenvolver novos projetos a partir do material coletado durante as filmagens, já que parte das gravações não foi utilizada na versão final da série. “Tem muito material ainda que pode virar um filme no futuro”, adianta.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 15 de março de 2026.