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"Sou a grave mais aguda”

publicado: 27/05/2026 09h28, última modificação: 27/05/2026 09h28
Zélia Duncan conversa com A União sobre seu novo disco, o 21º de sua carreira, com reflexões sobre si mesma e o mundo
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Zélia Duncan trabalha nesse disco com uma nova produtora | Foto: Mauro Restiffe/Divulgação

por Daniel Abath*

Zélia Duncan conheceu a também compositora e clarinetista Maria Beraldo no meio do caminho. Beraldo apareceu em seu camarim, naturalmente, e a convidou para cantar em um álbum de sua lavra. Duncan ficou encantada com o instrumental do disco — lembrou um pouco Nick Drake (1948–1974) — e aceitou fazer. Vieram shows em conjunto, e a vontade irrequieta de “se mexer” moveu Duncan em sentido contrário: chamou Maria para produzir seu 21o álbum, em 45 anos de carreira, Agudo grave, já disponível em todos os aplicativos de música.

“Tudo o que eu esperava da Maria nesse álbum ela cumpriu e ainda mais”, diz Zélia em entrevista via Zoom para A União. “Eu aprendi com o tempo que a melhor pessoa pra estar do seu lado não precisa ser a pessoa que trabalhou com o Michael Jackson ou a pessoa mais bombada do momento. Precisa ter uma excelência, claro, mas precisa ser alguém que goste de você, do seu caminho, que goste do jeito que você fez a sua vida. E a Maria foi me mostrando que me conhecia, bem por isso que eu chamei ela pra trabalhar”.

Imagem: Divulgação

Muito embora o resultado imprima a assinatura forte de Beraldo, inclusive nos clarinetes e clarone por lá soprados, em tudo tem a cara de Zélia: o jeito com que sua voz está gravada, a forma com que as letras estão sendo ditas, mas, ainda assim, sem deixar de surpreender. Lançado pelo selo Duncan Discos, com distribuição digital pela The Orchard, Agudo grave foi produzido e arranjado por Maria Beraldo e conta com participações especiais de Lenine e Alberto Continentino.

“Até nas coisas que são, pra mim, novas e desconhecidas, dá pra você me ver, porque eu gosto disso. Eu gosto de correr perigo; acho que o perigo pro artista é muito importante”, manifesta ela, que sempre tenta se cercar de grande músicos, como foi o caso em Invento mais (2017), quando queria cello e voz para interpretar canções de Milton Nascimento e juntou--se ao veterano Jaques Morelenbaum. “Então eu tento me cercar de uma maneira que aquilo que eu chamo de perigos viram aventuras deliciosas. Esse álbum é isso pra mim”.

Conhecido nos meios expositivos de São Paulo, o fotógrafo Mauro Restiffe fez a foto da capa do trabalho no intenso mundo da casa de Zélia, sem assistente, sem iluminador, com duas câmeras vintage na mão, mudando o filme. “Essa capa foi pensada pro vinil, tanto que teve de ser adaptada às pressas. Tem muitas frases que definem o disco. Uma delas é: ‘Eu quero humanidade radical’. Então, é o cara que tira foto que troca o filme, é a cantora sessentona na capa, com a pele feita só a pele. Sou eu ali, não tem retoque”, ela afirma acerca do registro de seu sorriso decidido, de uma placidez madura.

“Eu sinto muito agudo”

A intro da faixa-título “Agudo grave” traz a batida folk das cordas, interceptada por slides que provocam atmosfera nostálgica, o que é reforçado por delays de voz e cordas. “Grave, tarde, doce, agudo, cedo, sal,/ Nem a mesma paisagem/ Consegue ser sempre igual”, reza a letra. “Eu sou de escorpião. O que eu sinto dos escorpiões é que eles sentem fundo. Então, sim, eu sinto muito agudo; eu sentia agudo até a voz grave, quando tinha vergonha de ter voz grave. E agora, eu não quero deixar de olhar pro mundo, eu acredito no coletivo, tenho uma luta antirracista forte, eu sou LGBT. Eu sou a grave mais aguda que eu conheço”, depõe aos risos.

Na batida de “Pontes no ar” (em parceria com Alberto Continentino), a caixa marca espaçados tempos fortes, em contratemporalidades que fincam estacas para pontes etéreas. O melodiar é de veneração consciente da solidão, parecendo calma e soando até descrente ou indiferente à caminhada: “Quanto mais sólido e só/ Mais sonhos nas mãos, eu vou segurar”.

Descompassada, palpitante, como que alucinando, “E aí, IA?” questiona as artificialidades buscando a dúvida visceral — o trocadilho do título reverbera sopa espirituosa de vogais no refrão, como na passagem “E aí, IA?/ E aí? E agora?”. “Eu não tenho nada contra a IA e tenho tudo a favor do ser humano”, opina. “O problema da IA é que ela precisa de boas perguntas e o ser humano fica querendo atalho e esse atalho é perigoso. Quando o papo é música, é arte, é muito delicado”.

Muito mais letrista do que melodista, Zélia já tinha os versos prontos de “Maravilha disforme”, e ficou com Lenine na cabeça para embalar a melodia, que à época estava lançando o seu Eita (2025). Em geral, o dono do álbum é quem abre a faixa, mas Zélia gostou tanto que a voz do pernambucano veio primeiro.

“A gente se conhece há muito tempo, mora no mesmo bairro, a gente é da mesma geração. Mandei a letra e um xaveco junto e ele foi rápido — acho que em 10 dias ele mandou essa música que eu quase morri”, comenta sobre a parceria à cúmbia permeada de antíteses e paradoxos em prol de uma perfeição dismórfica.

“Meu plano” (composta ao lado de Ná Ozzetti) propaga o clarinete de Beraldo em brisa etérea e cintilante por seus ecos, procurando um lugar solar “pra gostar de si/ De ser humano”. Amar em outro plano, ser bicho solto e alcançar plenitude alternativa seriam os objetivos de liberdade do cântico.

O dedilhado do violão virtuoso de João Camarero abre espaço sonoro em “Voz”. Já em “Importante”, o piano de Continentino aliado ao cavaquinho de Rodrigo Campos ressoa lamento de chorinho, levantando mais uma vez a bola triste do saudosismo, como a dizer que os tempos d’outrora fossem os melhores. “Fico dessa janela/ Olhando as casas e os muros/ O tempo atropela tudo”, passeia o eu lírico pelo que ainda colore o presente.

“Hoje o meu amor é calmo/ Acorda devagar/ Antes do vento”, devaneia a oitava faixa, “Calmo”, coautoria com Zeca Baleiro e perfazendo elogio romântico à desaceleração e ao perfumado caseiro, feito à mão. “Olhos de cimento”, impõe riffs mais duros e palhetadas secas para mensagem mais árdua. “Nessa tourada pode crer que eu sou o touro”, diz a letra em parceria com Pedro Luís. Mas como ser o touro? Duncan responde: “É se entregando, é indo pro tudo ou nada. Como artista, às vezes quando a gente fica em cima do muro, com aquela cara amarela, de quem tá tentando repetir o que sempre fez, a lança vai te pegar”.

“Resolvidinho” nos lembra que o capitalismo colonizou até o sono, mas por que não pensar em sonhos dentro de sonhos e traumas bem resolvidos? E fechando o trabalho, Itamar Assumpção assina “Que tal o impossível?”, em camadas descompassadas, interpenetradas de sons, conjugando utopias no pretérito imperfeito do subjuntivo, mescladas a outros proparoxítonos de impossibilidades plausíveis, translúcidas à prosódia inquieta.

“Ele deixa uma pergunta no ar”, diz a cantora, “que é o que eu mais amo na vida, as perguntas. A gente tá em guerra nesse momento, o mundo tá impossível. E a gente tá tentando melhorar, colocar beleza no ar, tentando fazer as pessoas se consolarem de alguma maneira”.

Entendendo a concepção de um álbum como um momento de esperança e ao lembrar no fluxo de “Sonho impossível”, na voz de Maria Bethânia, Zélia Duncan reafirma com Agudo grave a importância radical dos sonhos como pontes para dias mais doces.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 27 de maio de 2026.