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Trajetória no samba

publicado: 26/01/2026 09h10, última modificação: 26/01/2026 09h10
Roberta Sá conversa com A União sobre “Tudo o que Cantei Sou”, registro em áudio e vídeo do show com o qual celebra seus 20 anos de carreira
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Apresentação da cantora foi gravada ao vivo, mas sem plateia para potencializar os movimentos de câmera e garantir o melhor som | Foto: Murilo Amancio/Divulgação

por Renato Félix*

Roberta Sá já cantava quando lançou o disco Braseiro, em 2005. Tinha participado do reality show musical Fama, da Globo, já tinha tido música em novela (“A vizinha do lado”, em Celebridade, de 2003–2004), já tinha feito show no Mistura Fina e apresentado-se com o Trio Madeira Brasil em Portugal. Mesmo assim, ela considera Braseiro o começo de verdade de sua carreira, que completou, portanto, 20 anos no ano passado e motivou a gravação e o lançamento de um disco ao vivo e registro audiovisual (disponível no YouTube): Tudo que Cantei Sou. Neles, ela revisita alguns de seus grandes sucessos.

“Para mim, eu nasci como cantora no Braseiro”, conta ela, em conversa com A União. “Quando você lança um álbum, tem uma coisa de começar, sei lá, carimbar o início de uma caminhada. Justamente porque você vai cantar aquelas músicas para o resto da vida. Para o resto da vida. Tanto que 20 anos depois eu estou cantando e nomeando um trabalho chamado Tudo que Cantei Sou, que é uma frase de ‘Olho de boi’, que é uma música do Braseiro”. 

Foto: Flora Negri/Divulgação

O que veio antes, para ela, ainda era uma experimentação. “Ver se era isso que eu queria, se não era isso que eu queria, se eu queria ser cantora, se eu não queria. Quando saí do Fama fui trabalhar em loja ainda. Mas a partir do momento que eu lancei um disco, eu me coloquei no mercado como uma cantora e com a cantora com aquele DNA”, explica. “Isso você carrega para o resto da vida. Tive dois, três anos ali, para esculpir essa cantora que eu queria ser”.

Braseiro entra com quatro músicas nesse novo disco, é o que entra com mais canções nessas releituras que são gravadas ao vivo, no palco da Casa de Francisca, em São Paulo, acompanhada apenas por Alaan Monteiro, no bandolim, e Gabriel de Aquino, no violão. Mas sem plateia — o que ela explica que é bem diferente de gravar todo mundo junto em um estúdio.

“No estúdio a gente corre o risco de cair na armadilha de querer fazer refazer muita coisa”, afirma. “E ao vivo, ali no palco, você você tem aquele dia e você vai gravar aquelas 14 canções. O resultado é muito diferente. Em termos de emoção, interpretação, olhar para a câmera, é muito diferente”.

Ela queria que o público tivesse a sensação de estar assistindo realmente ao show. “Então a câmera pôde chegar muito perto no palco. Por isso mesmo que a gente gravou sem plateia: porque senão a câmera atrapalharia o público que tivesse assistindo na hora”, conta a cantora. O silêncio também era importante para o melhor registro do som: a apresentação foi gravada de madrugada.

Roberta Sá gosta de lançar um álbum, para depois um show com base no disco e, na sequência, um disco ao vivo com o registro do show. “Esse ainda é o caminho que eu gosto mais”, conta ela. “Mas, por exemplo, agora, com o Tudo que Cantei Sou, eu adorei lançar um show para depois lançar um álbum. Acho que cada artista encontra o jeito de contar da sua narrativa, e nenhuma é menor ou maior que a outra”.

Assim, ela selecionou as canções entre aquelas que já vinha interpretando no show. “Eu falei: ‘Quais dessas canções eu tenho vontade de apresentar novamente num álbum?’. Esse foi o critério principal”, explica. “Então, quis resgatar, buscar canções que eu não cantava há algum tempo. Por isso e porque eram canções que eu tava com saudade de cantar“.

“Eu sambo mesmo”, de Janet de Almeida, do Braseiro, é uma das canções mais lembradas na voz da cantora. Através dela, Roberta descobriu o samba dos anos 1940.

“Ela chegou através do João Gilberto, do disco João, que a minha mãe tinha em casa e que eu escutava muito”, lembra. “Desde a primeira vez que eu pensei em gravar disco, eu sempre pensei: ‘Como é que eu vou abrir o disco?’. Para mim as músicas mais importantes são a que abre e a que fecha. Então ‘Eu sambo mesmo’ era uma é uma carta de intenção”.

“Pavilhão de espelhos” ela gravou em 2012. “É uma música inédita do Lula Queiroga. Eu sempre tive vontade de gravar uma música pop assim, que tem esse sentimento”, diz ela, que conta que a música voltou ao seu repertório após a pandemia. “Essa fala em renascimento, em recomeço. Essa música fala de quem sobrevive. Ela é um abraço nos meus fãs que passaram por momentos difíceis, tanto na pandemia ou em alguma tragédia pessoal”.

“Juras”, de Fernando Oliveira e Rosa Passos, é uma música que Roberta Sá nunca tinha gravado. “Eu canto essa em casa porque o Cézar Mendes me ensinou o violão dessa música, então é uma que eu sei tocar direitinho no violão”, declara. “E eu cantei para conquistar o meu marido [Pedro Sailer], que assina a direção artística comigo”.

“Fogo de palha” é uma composição de Roberta com Gilberto Gil. “É uma loucura, né? Quem imaginava na vida quando você pensava: ‘Chico, Gil, essas pessoas existem?’. E aí vira parceira do Gil. Então, essa música tá aí pontualmente para representar o meu lado compositora, que é muito tímido, mas que a cada dia mais me obriga a florescer, a sair desse armário”.

Roberta Sá combina em sua carreira a herança musical de sua infância em Natal (RN) com a Lapa carioca. Ela nasceu na capital potiguar, em 1980, mas foi morar no Rio ainda criança, aos 9 anos.

“Natal tem muito de mim. Sempre que eu vou, me surpreendo e me sinto ainda mais parte daquela cultura”, revela. “Só fui começar a me sentir à vontade no Rio com 18, 19 anos. Eu tentei me encaixar de muito muitas formas aqui e só consegui quando eu fui para Lapa e fui para o samba. Ali eu entendi: ‘É o meu lugar nessa cidade’. E hoje em dia vejo que tem muito a ver com o espaço que eu deixei em Natal”.

A música sempre foi um lugar de muito afeto para a cantora. “E no samba tem uma coisa que é muito parecida com o nordestino: é o lugar do Rio que recebe com comida na mesa, com fartura, com uma feijoada, com um sorriso no rosto, que agrega, que acolhe”, compara. “E o povo nordestino é muito assim, é assim que eu sinto o nordestino. É uma generosidade que tem no samba, sabe? Então eu acho que o samba foi a minha maneira de reencontrar o Nordeste aqui dentro da cidade”.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 25 de janeiro de 2026.