Joyce Alane, cantora e compositora pernambucana, trilha por caminhos díspares, mas complementares, em seu novo projeto. Ao passo que ela percorre o Brasil com sua turnê Um Dia Eu Te Encontro, opta por fazer o longo trajeto de forma mais intimista. No palco, apenas sua voz, um violão e o coro da platéia. A artista chega à Paraíba para três shows em cidades distintas. O primeiro hoje, em Sousa, gratuito, no Teatro Multifuncional do Centro Cultural Banco do Nordeste (CCBNB). Amanhã, em Campina Grande, às 19h, no Teatro Severino Cabral, com ingressos disponíveis no site Sympla, custando R$ 60 (meia), R$ 70 (social) e R$ 120 (inteira). Na sexta-feira (26), Joyce canta em João Pessoa, na Sala de Concertos Maestro José Siqueira do Espaço Cultural (Tambauzinho); os bilhetes também estão à venda no Sympla: R$ 80 (meia), R$ 90 (social) e R$ 160 (inteira).
Em conversa com A União, a cantora aponta que a escolha do repertório desta turnê também pretende emular as veredas que ela percorre desde 2021, quando começou a tornar público seu talento nas plataformas de música. De lá para cá, vieram uma dezena de singles e três álbuns — o mais recente deles, Casa Coração, com regravações de artistas nordestinos.
“Vamos conversando durante esse processo. O massa do formato voz e violão é porque ele permite que eu converse mais com as pessoas. Tem gente que gosta de saber a história de uma faixa ou outra. A gente começa com canções de 2021, os primeiros lançamentos. Conseguimos notar, nessa ordem, o meu amadurecimento”, analisa Joyce.
A seleção das músicas também é definida pelo gosto do público de cada local, que “intima” a pernambucana a cantar suas faixas prediletas, a exemplo de “Leão” e “Pior que o mal”. Essa proximidade com os fãs, ampliada pela configuração da turnê Um Dia Eu Te Encontro, perfaz dinâmicas que, noutras apresentações, podem gerar surpresas instigantes.
O instrumentista que acompanha Joyce nesta passagem pela Paraíba é Pedro Moneta, amigo e produtor. Nas cidades em que ele não puder acompanhá-la, outros artistas o substituirão. “Sou eu que escolho os músicos, de fato. É justamente por conta da relação que a gente precisa ter, precisa se dar bem. Mas eu conheço muita gente massa”, assevera.
A Paraíba é um dos estados mais contemplados da turnê, junto com Pernambuco e Bahia. Joyce não esconde a alegria de voltar ao estado e destaca as parcerias com o catoleense Chico César e com a pessoense Lucy Alves. Ela dividiu com ambos duas faixas de Casa Coração: “Lembrança de um beijo”, com o primeiro, e “Seu olhar não mente”, com a segunda.
“Eu acho que Lucy é uma das artistas que a gente mais tem que ter orgulho de estar representando nossa região. É uma baita multistrumentista. Tudo que faz, faz com muita maestria, com muita excelência. Eu também participei, no começo do ano, da gravação do DVD dela, em João Pessoa. Foi incrível! E está para sair na metade do ano”, antecipa.
Ferramenta de resistência
Joyce começou cedo nos estudos da música, com aulas formais no Conservatório de Música do Recife. Em razão da distância de sua casa até o local das aulas, ela não pode continuar com as lições, mas isso não demoveu a artista de seu sonho. Enquanto estudava Arquitetura, alimentava suas redes sociais com covers de canções famosas, gravadas em vídeo.
Foi nessa época que surgiu o quadro Me Dá Uma Luz, idéia que alicerçou o carinho virtual entre ela e seus seguidores e que foi replicada mais tarde, nos shows, presencialmente, quando Joyce despontava como profissional. Ela sorteia cerca de 20 palavras enviadas pelo público e compõe, com elas, uma música inédita, que costuma encerrar suas apresentações.
Parte de uma geração que não precisa mais de mídias físicas ou analógicas para fazer sua arte circular, ainda assim Joyce optou por lançar, em LP e CD, o seu último disco de inéditas, Tudo É Minha Culpa, de 2024. Neste estão presentes outros sucessos como a faixa homônima, “Só não fale” (um dueto com Priscila Senna) e “Pra variar” (com a banda Àttooxxá).
“A gente fez com muito carinho. Vivemos num mundo em que tudo está fácil, ao nosso alcance, na internet. Mas a gente está nesse momento de resgate também, dessa memória dos cassetes, do vinil, da vontade de ter algo material daquele artista e colecionar. Eu mesma tenho o meu toca-vinil em casa e escuto os artistas que eu gosto assim”, sinaliza.
Fazendo coro a colegas como Juliana Linhares e João Gomes (ao lado de quem lançou o single “Idiota raiz”, há dois anos), Joyce ostenta um repertório pop com elementos regionais, nos arranjos e nos versos. A cantora assevera que esse orgulho de suas origens é uma das razões do sucesso de todos esses trabalhos, mesmo em regiões como o Sudeste e o Sul.
“Acho que até quando a gente não necessariamente fala, isso transborda espontaneamente. A gente coloca isso no sotaque, nos ritmos. E nossas referências conseguem transpassar isso de forma muito genuína. Quando a gente faz tudo com amor, quando fala com muito orgulho, e quando sabe de onde veio, não tem como dar errado”, sustenta.
Ao circular o Brasil num ano cheio de tensões políticas, Joyce Alane ressalta que não pode excluir esses aspectos de sua música, objeto que serve para fazer arte, mas também para protestar, quando preciso. A pernambucana diz, no entanto, que tem encontrado respeito em todas as apresentações fora do Nordeste e que tem sido vista com outros olhos.
“Acho que isso tem reacendido muito nosso orgulho. E é nosso papel levar isso para frente. A partir do momento que eu chego com a minha turnê em outros lugares e falo que eu sou pernambucana e que tenho muito orgulho disso, as pessoas sentem também. Então é uma baita ferramenta, sabe? É uma baita ferramenta de resistência”, conclui.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 25 de fevereiro de 2026.