No dia 14 de agosto de 2025, o repórter que escreve esta matéria tinha nas mãos uma missão quase impossível – fazer com que Benito di Paula, avesso a entrevistas desde o auge de sua produção artística, falasse com A União sobre o show que ele apresentaria em João Pessoa com o filho, Rodrigo Vellozo, dali a três dias. Depois de alguma insistência, o cantor fluminense que morou na Paraíba decidiu falar. E esta acabou sendo a derradeira entrevista de Benito, conforme sua assessoria nos confirmou ontem. Após o seu falecimento, no último domingo (18), outra tarefa difícil nos aguarda: resumir, em poucas linhas, 60 anos de carreira como recordista em vendas de discos e membro do controverso, mas popular “sambão-jóia”, gênero que o consagrou em faixas como “Retalhos de cetim”, “Mulher brasileira” e “Charlie Brown”
Nascido no município de Nova Friburgo em 1971 e batizado como Uday Vellozo, o artista era descendente de ciganos, fato materializado nos brincos e nos anéis que ajudaram a compor o seu visual a partir dos anos 1970. Seu ofício como artista começou bem antes, nos anos 1950, como crooner de boates do Rio de Janeiro e de São Paulo. Constituiu morada fixa e família na capital paulista e por lá, mas década seguinte, trouxe a público seu o seu primeiro compacto, com o autoral “Andança” – não confundir com a faixa de mesmo nome, escrita por Danilo Caymmi, Edmundo Souto, Paulinho Tapajós e imortalizada na voz de Beth Carvalho.

- Benito Di Paula nos anos 1970: um dos cantores mais populares do Brasil | Foto: Adalberto Marques/Agência Estado
No início, o estilo de Benito variava – das baladas em italiano que gravou para a trilha sonora da novela Nino, o italianinho, de 1968, à regravação sol de “Jesus Cristo", original de Roberto e Erasmo Carlos, do primeiro LP, autointitulado e lançado em 1971. Os batuques e repiques passaram a orientar sua carreira apenas no segundo disco, Ela, do qual saiu “Violão não se empresta a ninguém”. Um ensaio para o terceiro álbum – Um novo samba, de 1973. Este título ousado anunciava o estilo que consagraria o artista: aos tradicionais instrumentos de percussão e sopros, foram adicionadas as teclas do piano clássico e as cordas.
Esse subgênero que orientou as carreiras de outros contemporâneos, como Luiz Ayrão e Gilson de Souza, foi chamado de “sambão-joia”, inicialmente de forma pejorativa, forma de caracterizar a ambiência “plástica” dos arranjos. A disputa com os pares do samba “tradicional” foi, inclusive, narrada na música “Osso duro de roer”, de 1977: “Estão querendo tirar meu nome do samba / Tirar meu tempo de bamba / Dizendo até que eu já me despedi”. “Houve reações, sim, mas nunca me preocupei em alimentar polêmicas. Essas canções eram o meu jeito de colocar para fora situações que eu vivia na época”, recordou ele para A União.
Ainda na década de 1970, chegou a disputar com Roberto Carlos o posto de intérprete masculino com maior vendagem de discos e cassetes no Brasil. Mas não havia qualquer rixa com o “Rei”; este gravou duas faixas compostas por Benito – “Quero ver você de perto” (1974) e “Amanheceu” (1975). A partir dos anos 1980, transferiu-se da gravadora Copacabana para a Warner; a mudança de “casa” se tornou constante nos trabalhos seguintes. “Às vezes, era por buscar mais liberdade artística; outras, por questões contratuais ou de mercado. Sempre procurei estar em lugares onde minha música fosse respeitada”, justificou ele, no ano passado.
Na virada da década de 1990 para 2000, diminuiu os lançamentos fonográficos, concentrando-se no cancioneiro acumulado até ali. Do período destacam-se “Fazendo paixão”, compacto de 1990, e “Senna nosso campeão”, homenagem a Ayrton Senna, morto meses antes, em 1994. Neste momento mais sossegado da carreira, mudou-se para João Pessoa. “[Foi] no ano 2000. [E o filho] Rodrigo também. Inclusive, ele tirou a carteira de motorista na Paraíba. E sim, morei por um período no famoso ‘castelinho’ em Cruz das Armas, lugar que guardo na memória com carinho e que sempre rende histórias”, revelou para a reportagem.
Rodrigo Vellozo seguiu os passos do pai, cuja importância ganhou corpo no espetáculo Benito 85, disco e show-tributo que celebram, em 2026, o legado do veterano (saiba mais na página 11). A primeira parceria entre Benito e Rodrigo aconteceu ainda na infância, quando o segundo integrou um coro para a versão musicada da “Oração de São Francisco”. Por ocasião daquela turnê com o mestre, o filho assinalou a importância desse encontro nos palcos. “Não tinha noção exata da importância dele fundamental para a cultura popular brasileira. Fui me dando conta da grandeza de sua obra e da sua absoluta genialidade conforme fui crescendo”.
Benito di Paula faleceu vítima de um câncer de próstata, contra o qual lutava há um ano. Morto um mês antes de completar 85 anos de idade, não abandonou os palcos mesmo durante o tratamento – sua última aparição presencial foi em julho, na estreia de Benito 85 em São Paulo. Ainda que tenha chegado sua “ir embora”, tema que explora na famosa “Vai ficar na saudade”, sua obra permanece completa nas plataformas de música e em declarações como esta, no início de sua histórica entrevista para A União: “A certeza de que esta seria minha profissão veio quando percebi que podia emocionar as pessoas com minhas canções”.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 20 de outubro de 2026.