Em 2013, o quadrinista Henrique Magalhães resolveu formar um grupo de artistas, capitaneando a iniciativa de publicar diariamente tirinhas variadas em A União, com regime de rodízio entre autores. Um deles era o ilustrador e quadrinista Val Fonseca, que começou às quartas--feiras com a tirinha Árvores, mas, diante da desistência gradativa de outros participantes, assumiu também a tira cômica do domingo, voltando-se para a obra do poeta paraibano Augusto dos Anjos (1884–1914). Resulta da experiência o livro Augusto & eu (Independente, 56 páginas, R$ 30), a ser lançado amanhã, às 14h, no Memorial Augusto dos Anjos, em Sapé, por intermédio da Academia Sapeense de Letras, Artes e Cultura (Aslac).
Publicadas no jornal no período de 2013 a 2016, cerca de 100 tirinhas compõem o volume de 19 cm x 13 cm (formato paisagem), com prefácio da escritora Neide Medeiros. “É com muita alegria que vejo a concretização do sonho do quadrinista transformar em livro a história e a vida de Augusto dos Anjos”, diz Neide ao texto prévio.
Enfermiço e de curta vida, sempre acompanhado pela malvada da morte, Augusto ancora às tintas de Val questões por vezes cômicas, noutras mais filosóficas e reflexivas — inicialmente, as tiras eram pintadas manualmente, com tinta acrílica, enquanto outras vieram a receber depois o tratamento digital.
Uma das primeiras produções retrata a morte folheando o Eu, única e consagrada obra de Augusto. Inclusive o “eu” do título refere-se tanto ao livro de poesias quanto à própria morte.
“Eu não sabia que eu era tudo isso. Delírio, êxtase, monotonia, morte. Eu sou… quero dizer. Eu… Foi a maior homenagem que fizeram a minha pessoa”, afirma a dama da foice. Tomando o volume de suas mãos, Augusto retruca: “Fiz isto para os vivos e não para homenagear você!”.
Para contar essa história com a eloquência necessária a quem passeia entre as dimensões verbais e não verbais, o desenhista costuma se municiar de materiais diversos sobre a obra de Anjos. Essa pesquisa mostra-se visível no livro em fatos da vida pessoal do poeta e em trechos de poemas que sustentam conceitos, utilizados até mesmo como suporte para o contexto de vida do sapeense, filho do Engenho Pau D’Arco.
Em algumas tiras, Fonseca referencia outros personagens de quadrinhos: “Quem são estas pessoas que invadiram meu reino?”, questiona a morte enquanto aponta para figuras como a do Penadinho, criada por Mauricio de Sousa.
“Augusto dos Anjos é sempre algo mais profundo em termos de escrita, de vida, de memória. Os livros que contam essas coisas da vida dele ajudam bastante”, Val afirma. “Uma das coisas que eu acho muito interessante da obra de Augusto são as palavras difíceis, que acabam se tornando curiosas até pra gente que já tem um pouco de conhecimento”.
As concepções iniciais dos personagens deram-se em abril de 2014, com traço outrora mais limpo, passando a incorporar adiante hachuras que conferiram sombras e texturas adequadas ao trabalho. Homônimos à obra, outros dois fanzines em preto e branco chegaram a circular anos atrás, além de uma edição digital colorida, publicada durante a pandemia via edital do Governo do Estado.
Desde a epigênese
Sua história com o mundo dos desenhos vem desde a infância. Val recorda que sua paixão pela arte se manifestava até mesmo nas antigas paradas de ônibus, quando as calçadas da cidade ainda eram feitas de areia. “Quando ia pro médico, esperando o ônibus, eu ficava riscando no chão um peixe, um tubarão, que eu gostava”, pontua ele, que chegou a fazer cursos de desenho antigamente ofertados por correspondência.
“Era muito texto pra você fazer uma letra ‘A’, por exemplo. Você tinha que ler páginas e páginas, bem diferente de hoje. Na época você lia cinco páginas pra explicar uma situação em relação ao desenho. Fora isso, fiz cursos no Senac [Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial], de quadrinhos, outros cursos, e fui aprimorando na medida do possível”.
Quanto ao poeta “do cosmopolitismo das moneras”, Fonseca só veio a conhecê-lo em 1993, por ocasião de um trabalho de língua portuguesa sobre escritores brasileiros, na época em que cursava o 3º ano do técnico em Contabilidade. “Não sei por que cargas d’água eu escolhi Augusto dos Anjos. Não lembro se tinha conhecimento ou não”, rememora.
A partir dali, tomou de empréstimo com um professor do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) o livro Literatura comentada: Augusto dos Anjos (Editora Abril, 1982), fundamental não apenas à disciplina escolar, mas ao rol de interesses epigenéticos caros ao seu metiê. “Li o livro todo. Ilustrei o trabalho com um açougueiro, cortando uma carne, com uma cara de caveira, algo assim. Quando li aquele livro, alguma coisa me fascinou”.
Outra experiência que guarda na memória remonta ao início dos anos 2000, quando publicou na revista A União Quadrinhos, ladeado por nomes como Mike Deodato, Josival Silva, Emir Ribeiro e Shiko. Em uma das edições, Val contou a história de uma fada que pedia a ajuda de uma bruxa para adequar um príncipe ao seu tamanho. A única opção seria transformá-lo em um sapo — daí a afinidade entre o sapo que queria voltar a ser príncipe e uma princesa que sempre arca com o ônus da relação.
“Eu considero que Augusto & eu seja para todo tipo de público. Primeiro porque tem um estilo bem infantilizado; tem a morte com cara de caveira, com o colorido das tiras, mas muita criança não vai entender o contexto geral das coisas, principalmente no que diz respeito à obra de Augusto dos Anjos. O adulto que tiver mais conteúdo de conhecimento é que vai entender melhor”, explica.
Realizado com apoio da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (Pnab), o livro também pode ser adquirido por meio do contato com os perfis do Instagram @valdesenho e @augustoeeu. A ideia é que Val Fonseca retome a pintura artística manual em futuros trabalhos, quiçá uma nova publicação.
Com planos de submeter Augusto e eu ao prêmio Jabuti, o quadrinista, com os pés modestamente plantados ao chão, traceja: “Já fiquei muito feliz pela visibilidade no Instagram; muita gente chegou para me parabenizar pelo material. Augusto dos Anjos tem uma importância muito grande nas artes de uma forma geral; na academia ele também é muito bem visto. Só essa conquista, pra mim, já tá sendo muito grande”.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 28 de abril de 2026.

