“O jurista cantador”. O título da última entrevista que o jornal A União fez com Daudeth Bandeira, falecido na segunda-feira (16), evidenciava os caminhos profissionais que o paraibano trilhou em sua vida. Mas ainda que essa manchete, datada de setembro de 2024, desse peso igual às carreiras na advocacia e nas artes, o repentista cravou, na época, como gostaria de ser lembrado na posteridade: junto à viola, companheira em oito décadas de vida. “Quero continuar cantando até os 108 anos. Daí para frente, eu aposento”, almejava. Neto, filho e irmão de poetas, Bandeira deixou um legado importante na cena do repente, além de projetos literários e musicais inéditos, que serão editados e lançados pela família.
Nascido no município de São José de Piranhas e batizado como Manuel Bandeira de Caldas, ele ganhou o apelido e futuro nome artístico de sua mãe, Maria de França — a intenção da poeta era representar a verve literária do menino, com inspiração no romancista francês Alphonse Daudet. A imersão no universo da cantoria deu- -se pelo avô, também chamado Manuel, e dos manos mais velhos, João, Francisco e Pedro. Depois das primeiras improvisações, na infância, Daudeth despontou no ofício antes de alcançar a maioridade.
A exemplo de muitos conterrâneos, largou a roça e partiu para São Paulo, com o intuito de trabalhar na metalurgia. Os versos e a viola ficavam restritos aos fins de semana, no tradicional bairro do Brás, onde confraternizava com outros nordestinos. Mas o êxodo para o Sudeste não durou muito. Quatro anos depois, voltou ao Nordeste, residindo, primeiro, no Ceará, e fixando-se, depois, na Paraíba, estado onde permaneceu até sua morte. Nesse período, ele complementava a renda comercializando jóias, entre uma cantoria e outra.
Apresentando-se solo na maior parte de sua trajetória, também firmou duplas com outros artistas populares, de forma efêmera ou duradoura — três deles, o irmão, Pedro Bandeira, Benoni Conrado e Louro Branco. Ao lado do experiente Otacílio Batista, que conheceu na infância, participou de muitos programas da Tabajara FM. Outro parceiro frequente era Oliveira de Panelas. “Viajei muito com ele e chegamos a gravar um disco, num projeto que foi lançado na França”, lembrou Daudeth, na entrevista de 2024.
Mesmo amando a profissão de cantador, ele temia as incertezas do segmento. De forma a garantir o sustento da família, concluiu seus estudos e ingressou no curso de Direito na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), passando a atuar como advogado na década de 1980. “Com o tempo, perde-se a estética, a voz. Foi bom ter me profissionalizado”, apontou Daudeth. Há 10 anos, e em coautoria com o colega José de Sousa Dantas, enveredou no mercado literário com a obra Invenções e Descobertas em Estilo de Cordel (Editora A União).
Inéditos
O jornalista e produtor cultural Fernando Patriota, filho de outro mestre do repente, Otacílio Batista, rememora os laços entre ambas as famílias: além da amizade de seus parentes com Daudeth, seu pai foi dupla do cantador Pedro Bandeira. Ele ainda destaca o trabalho de composição do repentista, que valorizava, em suas letras autorais, as tradições orais e cotidianas do Nordeste.
“A faixa ‘Brasil virgem’ é uma das que mais gosto. A gente conversava muito. E ele sempre foi uma pessoa muito solícita, amigável e honesta”, aponta.
Em 2024, Daudeth foi um dos laureados no Tributo Otacílio Batista — A Poesia Vive, idealizado por Fernando e Lígia Patriota. Mas ele recorda que o colega participou de outras edições do evento: numa delas, pegou o microfone e elogiou a empreitada — fato que deixou Fernando emocionado.
“Ele disse, ‘Olha, meu amigo Otacílio, onde ele estiver, deve estar muito orgulhoso do trabalho que você faz em memória dele. Qualquer poeta gostaria de fazer algo parecido com isso’. Ele afirmou o quanto aquilo era importante”, assinala.
A poeta Silvinha França eternizou a admiração que nutria por Daudeth Bandeira, desde a juventude, no poema “Teu jugo agora é leve”, divulgado em suas redes sociais no início da semana: “Mestre Daudeth repousa / De volta à casa do pai / A terra fica mais triste / Quando um poeta se vai / Mas tua verve inconteste / Foste um cabra da peste / Feito honroso samurai”. Ela o conheceu pessoalmente apenas em 2025, durante um evento literário em João Pessoa: “E ele me deu aquele abraço, como todo guerreiro, ele estava ali, firme, forte”.
Esse contato inicial rendeu um convite para o aniversário de 80 anos do poeta, celebrados em junho do ano passado — momento de muita alegria para ambos. O último encontro foi há apenas 15 dias, quando Silvinha visitou Daudeth na casa da família Bandeira.
“Eles nos contaram que, naquele dia, umas 10 pessoas tinham ido vê-lo. Acompanhei o sofrimento de seu filho, Marciano, que renunciou à vida profissional para se dedicar aos cuidados do pai. Ele não era querido apenas pela família, mas por todos os amigos”, ressalta.
Casado há mais de 50 anos com Lúcia Maria, Daudeth Bandeira teve quatro filhos, cinco netos e dois bisnetos. O advogado Marciano Bandeira seguiu numa das profissões do pai, mas não deixou de acompanhá-lo nas cantorias, desde os primeiros anos de vida.
“Anteontem, momentos antes do sepultamento, tivemos o prazer de assistir repentistas improvisando sobre o legado de Daudeth. Não só eu, como toda a nossa família sempre tivemos consciência da atuação dele na construção de toda essa cultura tão relevante”, assevera.
Nos últimos meses, ele reduziu o número de aparições públicas por conta da fragilidade de sua saúde. Mas, mesmo acamado, Daudeth nunca deixou de escrever canções e poemas. Como revela Marciano, o livro A Árvore Genealógica da Arte da Cantoria e a música “India Iratembé, Olavo e Tamires”, inéditos, serão divulgadas pela família em momento oportuno.
“O legado do meu pai abrange Brasil e mundo. As histórias que ele nos contou não estão restritas ao Nordeste: elas relatam toda a história da humanidade”, resume o filho.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 19 de fevereiro de 2026.