O LP, é fato, voltou para ficar. Criado no final dos anos 1940 para fomentar um mercado que envolvia criação artística e gravadoras, caiu em derrocada com o advento do CD na virada dos anos 1980 para os 1990 e parecia extinto quando a internet se popularizou no começo deste século, levando o consumidor a trocar a vitrola e o toca-CD pelos alto-falantes dos PCs ou pelos fones de ouvido conectados aos dispositivos multimídia modernos ainda chamados de “celular”.
Mas hoje, como brincam os entusiastas da mídia física, o LP representa a volta dos que não foram. Uma matéria veiculada pelo prestigiado jornal inglês The Guardian em março deste ano apresentava os números que atestam o crescente mercado do vinil: pela primeira vez desde 1983, a venda de LPs ultrapassou 1 bilhão de dólares no mercado norte-americano, o principal mercado de discos do mundo.
O contraste, realmente, impressiona: em 2006, quando começou o chamado “revival do vinil”, menos de 1 milhão de LPs foram vendidos nos EUA. No ano passado, esse número bateu a casa das 47 milhões de unidades.
Claro que nesses números estão embutidos valores e modalidades que não se praticavam no passado: como produto de nicho, e não mais de apelo popular, o valor do LP subiu bastante e, graças à internet e ao mundo globalizado, o mercado americano, por exemplo, não é mais exclusivamente local: suas lojas, sobretudo as virtuais, vendem para o mundo inteiro.
No Brasil, o fenômeno não é diferente. Citando o relatório anual da Pró-Música Brasil, divulgado em março de 2026, a Agência Brasil informou que a arrecadação do mercado fonográfico brasileiro registrou um crescimento de 14,1% em 2025, ao atingir um faturamento de R$ 3,9 bilhões. O patamar alcançado no ano passado levou o Brasil à 8ª posição entre os maiores mercados do mundo no ranking global da Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI). Em 2023, o país ocupava o 10º lugar.
O mercado de LPs também pega fogo na Paraíba. Neste mês de junho, é possível contar pelo menos seis lojas físicas de discos — além de O Sebo Cultural — somente em João Pessoa. As mais antigas, Óliver Discos e Música Urbana, já passam dos 25 anos de idade. Após a pandemia, quatro lojas foram abertas na cidade, entre elas Taioba Discos, Na Garagem Discos e Zabumbê (esta última já encerrou suas atividades).
Sérgio Pacheco, da Taioba, atribui o renovado culto ao vinil a uma necessidade de foco que os jovens têm em um mundo dominado por um celular hiperestimulante. “Eu vejo a mídia física, os vinis em particular, como uma válvula de escape da minha geração e, por que não, uma certa rebeldia contra a tecnologia viciante dos smartphones”, comentou.
O público-alvo desse mercado se concentra entre os 25 e os 40 anos de idade, avalia Sérgio. “Mas a gente vê também muitos jovens a partir dos 16 anos namorando os vinis, às vezes comprando com os pais. E também o pessoal de até 80 anos que nunca se desfez das coleções”, acrescenta.
As lojas de João Pessoa também não atendem apenas ao mercado local. A própria Taioba iniciou suas operações vendendo LPs para o exterior. “Os EUA eram nosso maior mercado, mas já enviamos para todos os continentes”, revela Sérgio.
Após seis meses vendendo exclusivamente para o exterior foi que a Taioba passou a focar no mercado nacional. Isso tudo antes de abrir a loja física. “Hoje, a nossa maior praça é a Paraíba, com cerca de 35% de todo o volume de vendas, seguida pelo Sudeste, com 34% (puxado por São Paulo, que sozinho detém 22%), e, por fim, pelo mercado internacional, que agora representa 5%”, revela o comerciante de discos.
E o movimento também não se restringe às lojas. Em 13 de janeiro de 2024, foi inaugurada a Feira Parahyba Vinil, criando um espaço único para vendedores e colecionadores de vinil se encontrarem. “Na verdade, a Parahyba Vinil foi idealizada por André Baldoni (da Zabumbê Discos), que trouxe as experiências das feiras que aconteciam em Brasília. Nas duas primeiras edições, realizadas em 2024, eu fui apenas expositor, mas vi que ali havia potencial para receber um público maior e mais expositores também”, comenta Sérgio Pacheco, antes de arrematar: “Meu objetivo sempre foi exercer uma atividade de fomento do vinil na cidade, como já existia em outras capitais”.
Em sua 10ª edição, a Parahyba Vinil acontece neste fim de semana, de sexta a domingo, a partir das 16h (no domingo, a partir das 14h), na Usina Cultural Energisa, em João Pessoa, como parte integrante do Viva Usina, projeto de ocupação. A entrada é gratuita e só na feira, participam 31 expositores que não se restringem a discos de vinil: será possível encontrar também CDs, DVDs, histórias em quadrinhos e diversos colecionáveis, de carrinhos em miniatura a figurinhas de antigos álbuns da Copa do Mundo, além de comidinhas gostosas.
Espaço cativante também para um bom passeio em família, a Parahyba Vinil tem procurado incrementar suas edições com novidades. A deste ano é uma tarde de autógrafos (a partir das 16h de sábado) com a banda Seu Pereira e Coletivo 401 para promover o lançamento em LP — claro — de seu aclamado álbum de estreia, Seu Pereira e Coletivo 401.
Lançado em 2012 e até então disponível apenas em CD e nas plataformas de streaming, o disco enfim ganhou uma edição em vinil (com o selo Taioba Music). Além dos integrantes da banda, quem também estará lá para autografar o disco será o internacionalmente conhecido desenhista Mike Deodato, autor da ilustração da capa.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 26 de junho de 2026.