Na lista da revista Rolling Stone Brasil, que elenca as 100 maiores vozes da música brasileira, ela ocupa a posição 73. Não à toa, o canto de Jane Duboc Moreira vem desde a infância e a adolescência – aos 13 anos já fazia ecoar sua voz em apresentações colegiais, programas de auditório e festivais de música. Aportando pela primeira vez em João Pessoa com experiência que faz pesar a bagagem em mais de cinco décadas, a cantora e compositora Jane Duboc (acompanhada pelo compositor Nico Rezende) se apresenta hoje, às 18h30, no Teatro Paulo Pontes do Espaço Cultural, em Tambiá, pelo projeto Seis e Meia. Os ingressos estão à venda pelo site olhaoingresso.com.br a partir de R$ 70 (meia, acrescido de taxa de serviço) e na loja Furtacor do Mag Shopping.
“A Jane é uma grande amiga minha, uma irmã”, confessa Nico. “A gente já fez muitas turnês juntos e temos um repertório com muita intersecção; uma coisa de música pop com MPB [...]. Fiz arranjos pra ela desde quando comecei a minha carreira”, acresce o músico, que conduzirá o instrumental ao piano, em incursões pontuais no sax. Completando 40 anos de estrada, Nico Rezende possui 10 álbuns solos e já gravou com nomes como Gal Costa, Roberto Carlos, Erasmo, Simone, Cazuza.

- Jane Duboc foi eleita uma das 100 maiores vozes da música brasileira, pela Rolling Stone | Foto: Murilo Alvesso/Divulgação
“Vira e mexe de estar trabalhando assim, eu e ele”, confirma Jane acerca da parceria profissional com Nico. “A gente virou irmão. Ele é meu irmão mais novo, querido do coração, e eu gosto demais dele, não só como músico maravilhoso, arranjador e compositor, mas como uma pessoa incrível”.
Duboc já esteve de passagem por João Pessoa, quando de um veraneio com a família. “Mas tocar na cidade, eu não lembro, não”, diz ela, evocando os encantos naturais das praias da zona Sul, nomeadamente Coqueirinho. Mesmo com Você e eu, último álbum lançado em setembro do ano passado na companhia do violão virtuoso de Nelson Faria, a ideia para o show de hoje é revisitar as canções que tanto embalaram as ondas do rádio, as novelas e os programas televisivos, especialmente o “Cassino do Chacrinha”.
Música e esporte
“Era uma época, assim, muito fértil. De canções que faziam sucesso nas rádios e depois viraram temas de casais nas novelas da Globo; também no Gugu, Silvio Santos, aqueles programas que tinham música, né? Chacrinha, então, a gente estava sempre lá”, Jane rememora, para quem os anos 1980 e 1990 foram responsáveis por tornar conhecida boa parte de seus maiores sucessos, a exemplo de “Chama da paixão” (faixa-título do álbum de 1993) e “Sonhos”.
Excursionando por todo o país, Duboc atesta, dentre um universo de 33 discos, a fase romântica como a mais pedida pelo público. É a deixa para o cancioneiro da noite de hoje, que embora traga baladas diferentes concentra os esforços sonoros nas “bem famosinhas”. Paraense de Belém, Jane Duboc teve várias moradas. Com pai médico da Marinha do Brasil, a base naval do Rio Grande do Norte fez a cantora residir em Natal durante a infância. E em frente a sua casa havia uma quadra de tênis, além de um ginásio poliesportivo alguns passos adiante. Foi justo ali que Jane veio a tomar gosto pelos esportes, vindo a ganhar várias medalhas nas competições estaduais de voleibol, natação, tênis e tênis de mesa.
Reconhecendo o impacto positivo do desporto sobre sua trajetória, a cantora ressalta o cruzamento entre as (aparentemente) distintas áreas de sua atuação. “É um ensinamento muito grande. No esporte individual você tem o técnico, tem todo mundo participando junto com você naquela competição”, ela afirma. “E no esporte coletivo você é um organismo vivo – a levantadora que joga para a cortadora porque lá atrás defendeu, então você sente como é importante estar junto com o outro. Na música é igual; você precisa do músico, né? O baterista marca o ritmo, aí o pianista desenha uma melodia acima da sua e faz o acorde abraçar o que você está cantando. Você está sempre junto”.
Aqui e além
Com o disco-coletânea Uma voz… uma Paixão (2005), Jane Duboc foi indicada ao Grammy Latino 2006 de música. Mas ela guarda mesmo na memória afetiva seu primeiro LP, Languidez (1980), porque foi dele que saiu a canção “Saudade”, com a qual participou do festival MPB 80 promovido pela Rede Globo.
Aos 17 anos, a artista ganhou uma bolsa de estudos e foi morar e estudar em Columbus, nos Estados Unidos. Por lá casou com o guitarrista Jay Anthony Vaquer com quem teve um filho, o também cantor Jay Vaquer – já cinco vezes indicado ao Grammy. Na terra do Tio Sam, Jane conciliou seu cantar em bares e boates com trabalhos de publicidade para a TV. Sua história com os comerciais perdurou junto à produtora Zurana, com jingles gravados por Duboc, Ivan Lins, Eduardo Souto Neto, Tavito (1948-2019) e Paulo Sérgio Valle. A formação nos EUA lhe rendeu ainda o espetáculo Movie melodies, tornado disco homônimo em 1993, com trilhas sonoras de filmes de época, como Casablanca (1942), quiçá um dos trabalhos mais celebrados da estrada fonográfica de Duboc.
De volta ao Brasil nos anos 1970, a cantora formou o Grupo Fein, integrou a Banda Veneno, do maestro Erlon Chaves (1933-1974), o coral da Rede Globo e chegou a gravar com Raul Seixas (1945-1989) e com o mestre do humor, Chico Anysio (1931-2012). Ainda àquela década, fez parte da Rio Jazz Orchestra e registrou, junto com Claudia Telles (1957-2020), os vocais femininos das regravações de Os Famks – o grupo viria a se tornar, em 1980, a banda Roupa Nova. “Os meninos do Roupa Nova continuam muito amigos meus. Participaram do disco Duetos [2018] cantando o ‘Clube da esquina 2’ comigo. Eu amo eles de paixão. Pra mim também são pessoas lindas que eu respeito profundamente. São cinquenta anos de amizade”, diz Jane.
Afeita à música que é feita no seu Nordeste, não deixa de creditar as influências que teve de artífices maiores, como Hermeto Pascoal (1936-2025) e Dominguinhos (1941-2013). “Os dois se foram, mas me ensinaram muito. Todo ritmo nordestino, toda maneira de pensar, de ter calma. Os dois eram eram exemplos”, reitera, acrescentando à lista nomes mais contemporâneos, como o do pernambucano Lenine. “Meu Deus do céu, é muita gente maravilhosa”.
Suspeito para falar, Nico endossa a competência da parceira: “Ela é uma grande intérprete e acima de tudo, uma grande musicista – toca piano, toca violão… sempre muito bom dividir o palco com ela. É um show que promete muitas surpresas [...] e é muito bom estar de volta à cidade e receber o carinho de um público tão acolhedor como é o público nordestino”, expectativa compartilhada por Jane, que espera ansiosa pelo debute no palco pessoense. “Agora, aí tem ‘mangai?’”, pergunta ela aos risos, “Ave Maria! Tem que preparar roupa nova porque vamos engordar todos, né? Vai ser bom demais!”.
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*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 07 de abril de 2026.