Cerca de 20 pessoas, entre adultos e crianças, escutavam falar de um novo projeto a ser desenvolvido na Comunidade do S, no Róger, em uma reunião realizada na tarde do dia 5 de março, na Escolinha Virgem dos Pobres. Entre eles, moradores e os chamados “técnicos de campo”, responsáveis por estreitar os laços com a comunidade para pensar juntos soluções de impacto no território vulnerabilizado pelas mudanças climáticas. O projeto chama-se Comunidade do S: território vivo e é desenvolvido pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-PB). Ele visa mapear soluções baseadas na natureza (SBN), ações da comunidade que, conscientemente ou não, ajudam a combater os riscos e efeitos trazidos pelas mudanças climáticas, tornando a comunidade mais resiliente frente aos desastres naturais. A ideia é que uma ação seja identificada e aprimorada, reforçando seu impacto positivo na comunidade. De acordo com o projeto, podem ser jardins de chuva, canteiros pluviais e drenantes, barreiras vegetais ou fitorremediação.
No ano de 2025, a proposta foi selecionada pelo edital Periferias Verdes Resilientes, junto a outros seis projetos em todo o país, dentro de um grupo de mais de 90 projetos inscritos. O certame integra o Periferia sem Risco, estratégia que orienta as ações do Departamento de Mitigação e Prevenção de Risco da Secretaria Nacional de Periferias (SNP) do Ministério das Cidades. A partir da seleção, o projeto deverá receber o recurso de cerca de R$ 2,5 milhões a ser aplicado ao longo de 18 meses. O edital buscou propostas que estruturassem iniciativas de adaptação de periferias urbanas às mudanças climáticas, com foco na aplicação de soluções baseadas na natureza (SBN), a partir de macroáreas prioritárias determinadas pelo programa Periferia Viva. No caso da Paraíba, seria o território do Porto do Capim. Além de João Pessoa, os projetos selecionados serão desenvolvidos nas cidades de Olinda (PE), Belo Horizonte (MG), Colombo (PR), Rio de Janeiro (RJ), Belém (PA) e Santo André (SP). 
Segundo o edital, as soluções baseadas na natureza (SBN) tratam de “tecnologias mimetizantes — apoiadas e inspiradas em elementos, estruturas e funções da natureza —, que, contribuindo para a adaptação inclusiva das periferias urbanas às mudanças climáticas, proporcionam benefícios diretos e indiretos, não apenas para os ecossistemas, mas também, e sobretudo, para as famílias, favelas e comunidades urbanas envolvidas”. Ou seja, são soluções de adaptação climática baseadas na própria dinâmica da natureza e desenvolvidas pela própria comunidade. A pretensão é promover a melhoria da qualidade ambiental das cidades. Podem ser diversas as soluções encontradas: jardins de chuva, telhados e lajes verdes, composteiras, hortas comunitárias, praças arborizadas, filtragem de água da chuva, canteiros pluviais, proteção de nascentes.
“A gente faz um diagnóstico, um retrato de que essa camada das mudanças climáticas afeta de maneira desproporcional justamente as populações que já estão mais vulnerabilizadas, que são aquelas que estão nos territórios periféricos”, reforça o diretor de Regularização, Urbanização Integrada e Qualificação de Territórios Periféricos do Ministério das Cidades, Flávio Brasileiro, que esteve presente na reunião junto com a comunidade no dia 5 de março. “A gente tem construído uma série de políticas, agendas para calibrar isso que está sendo discutido internacionalmente, que são, por exemplo, as soluções baseadas na natureza, que, muitas vezes, têm tecnologias muito aderentes à realidade da Europa, mas sem tecnologias adequadas ao Sul Global, muito menos aos territórios periféricos”, destaca.
Como acontece o projeto?
O projeto Comunidade do S: território vivo tem por visão atuar de forma participativa. Por isso, o resultado final ainda não pode ser considerado, tendo em vista que será construído junto à comunidade. “A gente não tem como dizer o que vai ser. Como é um projeto que tem uma base totalmente participativa, então a gente não chega assim: ‘Ah, vai ser feita uma praça’. ‘Vai ser feita a limpeza dessas águas aqui’”, explica a arquiteta e urbanista e coordenadora-geral do projeto, Alessandra Soares, que também esteve à frente da reunião. “A gente compreende com a população, entende mais ou menos o que são essas necessidades, e depois disso a gente vai dizer, ‘Ó, a gente sabe que a prefeitura está atuando aqui’, ‘A gente sabe que o governo está atuando naquele lado’, e quais são os espaços que não têm atuação para que a gente possa atuar e que é interessante a partir do que a população falou. Pode ser que surja uma praça, algum mecanismo de limpeza de água, uma ponte”, cita Soares.
O plano do projeto divide-se em três etapas: leitura do território, com produção de dados do local; as oficinas de formação técnica da comunidade, com construção do projeto a ser desenvolvido; e a execução no território de obra de pequeno porte. As oficinas são locais de escuta ativa pelas quais a equipe poderá entender quais os problemas ambientais da comunidade e que soluções já foram dadas, de alguma forma. “O projeto parte, principalmente, da escuta e da compreensão das práticas sociais já existentes no território, ou seja, do que as pessoas já fazem para resolver problemas e para viver”, destaca Alessandra.
Comunidade participante

- Entre as soluções, estão jardins de chuva, telhados verdes, hortas comunitárias, praças arborizadas, filtragem de água da chuva, canteiros pluviais etc
O envolvimento da comunidade também vem da participação de jovens do próprio território entre os técnicos de campo do projeto. A técnica em Arquivologia e Bibliografia Técnica Milena Rodrigues mora desde os três anos na Comunidade do S, e está contribuindo para levantar informações sobre o passado do local para ajudar a fazer a leitura do território e contribuir para as formações. “Nesse momento, eu estou intermediando essa comunicação com a comunidade. Tenho fornecido meus trabalhos arquivísticos para o IAB. Também tenho ajudado nos registros, na recuperação da memória da comunidade”.
Ela relata que o trabalho com os arquivos e registros da comunidade a fazem perceber os problemas ambientais já existentes no entorno no passado. “O avançar da comunidade foi se constituindo, se estabelecendo pelo aterramento do mangue”, frisa a jovem. “Começou a ter muito impacto. Como é uma área que alaga, muitas casas alagam também. Antes, não tinha, porque todo mundo morava lá dentro [do Lixão do Róger], muitos moravam dentro do lixão. Quando foram invadindo para a área de cá, onde era realmente um mangue, tem essa vazão de água muito grande, então começaram a ser muito impactados os próprios moradores com o tempo”.
O projeto tem resultado no conhecimento e aprofundamento da história da comunidade, suas origens, fazendo entender de onde se vem e estudando para onde ir, em questão de melhoria do meio ambiente. É o que acha Ricardo Silva, liderança local que tem família na Comunidade do S há 15 anos e mora há três no local, e também está atuando como técnico de campo. “A gente fez uma pesquisa com os moradores da comunidade local e o que eles passaram é que aqui tem uma necessidade maior de mais plantações, mais árvores, mais vegetação e também uma área de lazer em relação à quentura, ao calor, tipo piscina, ou fonte mesmo de água”. Outros pontos sensíveis aparentes também se referem aos alagamentos e à legalização de água e energia.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 15 de março de 2026.