O protagonismo paraibano foi, sem dúvidas, um dos destaques do 27º DFB Festival, realizado na última semana, na Praia de Iracema, em Fortaleza. Considerado uma das principais plataformas de moda autoral e economia criativa do Brasil, o evento reuniu estilistas, marcas independentes, estudantes e empreendedores criativos de todo o país, tendo como eixo temático a relação entre território, cultura e identidade. Nesse cenário, a Paraíba marcou presença por meio de marcas que transformam técnicas artesanais, memórias coletivas e referências culturais nordestinas em linguagem contemporânea. Entre os destaques, estiveram Morada e Carnavália, além de estudantes do Centro Universitário de João Pessoa (Unipê), que participaram do tradicional Concurso dos Novos, espaço dedicado à revelação de novos talentos da moda brasileira.
O labirinto de Ingá
A Morada, fundada pela designer Lu Azevedo e sediada em João Pessoa, apresentou a coleção Gira, construída a partir de uma longa pesquisa sobre o bordado labirinto, técnica tradicional preservada por mulheres do Quilombo Pedra D’Água, no município de Ingá. O desfile integrou o projeto Mãos da Moda, iniciativa da plataforma Nordestesse em parceria com a âncora Riachuelo.
“O labirinto tem relação com o território do Agreste e também com essas mulheres, que me receberam e acreditaram no projeto”, revelou a designer, sobre a escolha pela tipologia de bordado e a soma criativa com as mulheres do quilombo.
A coleção propôs uma releitura do labirinto, deslocando-o do imaginário tradicional para uma estética mais urbana e ousada. O trabalho artesanal aparece tanto em detalhes quanto em peças inteiramente bordadas, executadas pelas artesãs quilombolas que participam da iniciativa há seis anos. tecidos como jeans 100% Tencel, linho e rami serviram de base para criações que dialogam com alfaiataria, moulage e diferentes técnicas manuais.
Além da valorização do fazer artesanal, a coleção apresentou referências à força feminina por meio de homenagens a figuras presentes nas tradições afro-brasileiras, reforçando discussões sobre identidade, ancestralidade e protagonismo das mulheres.
“Gira” é uma narrativa sobre as mulheres, através do bordado. São 12 looks, que começam com a pureza da mulher tradicional, fazendo referência ao casamento, e depois essa mulher ganha sua autonomia, poder e liberdade. Por isso, usamos entidades femininas como referência. E nas cores a gente sai do branco e chega no azul-marinho com dourado. É a experimentação de um labirinto contemporânceo”, detalhou Lu Azevedo.
O macramê de Araruna
Já a Carnavália levou à passarela a coleção Trama Delírio, resultado de uma colaboração com a associação Aramê, formada por artesãs de Araruna especializadas na técnica do macramê. O trabalho também foi desenvolvido dentro do projeto Mãos da Moda e teve como inspiração a obra do artista pernambucano Tunga.
Fundada pela designer Duda Carvalho, a Carnavália tem construído uma trajetória baseada na aproximação entre cultura popular, experimentação estética e técnicas artesanais. Em Trama Delírio, ampliou essa pesquisa ao incorporar materiais, bordados e superfícies que remetem tanto ao universo festivo do Carnaval quanto às investigações poéticas da obra de Tunga.
A coleção transformou tranças, nós, redes e texturas em elementos centrais da narrativa visual. O desfile reuniu peças produzidas a partir do trabalho coletivo das artesãs de Araruna e do ateliê da marca, em João Pessoa: “É uma honra estar ao lado de tantos nomes da Paraíba, um sonho realizado. O DFB é uma catapulta que lança nomes autorais nordestinos ao mercado, que normalmente ficariam atrás dos palcos. Teve uma seleção por edital e tinham várias tipologias de artesanato possíveis. Quando vi macramê, me remeteu a uma experiência pessoal que tive em Inhotim e me atravessou. Então procurei as macramistas da Aramê e o resultado são 12 looks”, confidenciou Duda Carvalho, que também convidou a criadora de calçados de João Pessoa Rayssa Gadelha, com sua marca autoral Errigë, para compor as produções.
“A gente já tinha feito outros dois desfiles no Salão do Artesanato, mas esse foi inédito. Aramê e Carnavália se conheceram a partir do Mãos da Moda. Duda visitou nossa sede e nós visitamos o ateliê dela. É diferente. Estávamos acostumadas a fazer macramê de forma livre, independente, e ser direcionadas foi um desafio grande, mas, ao mesmo tempo, muito gratificante”, acrescentou a presidente da associação, Maria José Jerônimo.
Estudantes no top 8
A programação também abriu espaço para alunos de Design de Moda do Brasil inteiro, por meio do Concurso dos Novos. E nele, os estudantes do Unipê ficaram entre os oito finalistas — pelo terceiro ano consecutivo. O pódio, ao fim, ficou com instituições do Paraná (UTFPR), do Ceará (Unifor) e de Santa Catarina (Udesc), respectivamente.
A coleção Tybyra, desenvolvida por eles e coordenada pela professora Dyana Barreto, partiu da figura histórica de Tibira do Maranhão, indígena tupinambá executado no início do século 17 por sua dissidência sexual, para construir uma reflexão sobre permanência, resistência e ocupação dos espaços urbanos. Inspirada na própria Praia de Iracema, local do evento, e nas camadas culturais que atravessam o bairro, a coleção apresentou texturas, manualidades e uma paleta com tons de vermelho, roxo e azul.
“A equipe foi formada por seis alunos, que fazem parte da equipe oficial, e mais seis estudantes na equipe de apoio. O trabalho começa assim que o edital é lançado. E temos o projeto de extensão Runway, que treina os alunos para competições, de preferência os que têm as maiores notas. É um trabalho contínuo. No nosso ano de estreia no Concurso dos Novos, em 2017, levamos o ouro. E, em 2024 e 2025, assim como este ano, ficamos entre os oito finalistas”, explicou Dyana Barreto.
A participação paraibana no DFB Festival 2026 — o antigo Dragão Fashion Brasil — evidencia o fortalecimento de uma moda que ultrapassa a dimensão comercial e se afirma como expressão cultural e ferramenta de desenvolvimento local. Em comum, os projetos apresentados têm o compromisso de valorizar comunidades artesãs, preservar saberes tradicionais e criar oportunidades de geração de renda por meio da economia criativa.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 17 de junho de 2026.