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Árvores inteligentes serão implantadas na capital

publicado: 26/01/2026 09h19, última modificação: 26/01/2026 09h19
Projeto usa plantas para verificar condições ambientais, prever incêndios e fornecer dados meteorológicos
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Equipamento pode ser utilizado por órgãos, como Corpo de Bombeiros, Defesa Civil e instituições de monitoramento ambiental | Fotos: Evandro Pereira

por Camila Monteiro*

Os inúmeros benefícios que as árvores trazem já são universalmente conhecidos. O fornecimento de sombra, aumento da umidade do ar e melhora da sua qualidade são alguns deles. Contudo, um projeto desenvolvido na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), pelo professor e pesquisador Cleonilson Protásio, do Laboratório de Microengenharia do Centro de Energias Alternativas e Renováveis (Cear), está potencializando as vantagens advindas das plantas. Por meio de um sensor instalado nos troncos das árvores, os aparelhos conseguem gerar energia, prever incêndios, medir condições ambientais e fornecer dados meteorológicos em tempo real. 

Duas dessas árvores inteligentes vão ser instaladas em praças públicas localizadas no bairro dos Bancários, Zona Sul de João Pessoa: na Praça da Paz e no Parque das Três Ruas. O objetivo é coletar dados que facilitem o entendimento do meio ambiente nessas localidades, avaliando como ele afeta a qualidade de vida das pessoas. O processo está em fase de aquisição de autorizações na Prefeitura, mas segundo o pesquisador, a expectativa é que os sensores sejam colocados no próximo mês, em fevereiro.

“Nas Três Ruas e na Praça da Paz, estamos instalando uma árvore inteligente para fazer monitoramento da qualidade do ar e do ambiente. Agora estamos em tratativas com a Prefeitura e com os órgãos ambientais, para a permissão da instalação e, com isso, pretendemos trazer esse benefício do acompanhamento daquela região”.

Smart Tree

Batizada de Smart Tree, o sensor foi concebido no âmbito da Internet das Coisas Naturais (IoNT — Internet of Natural Things), termo bastante utilizado pelo professor Cleonilson e que diz respeito a um ramo do conceito de Internet das Coisas (IoT). A IoT consiste em uma tecnologia que permite conectar objetos do cotidiano à internet, fazendo com que eles sejam capazes de gerar dados e permitindo a sua automação. Essa implantação, atualmente, é bastante comum em utensílios de casa como geladeiras, lâmpadas, entre diversos outros.

Os sensores que compõem as árvores inteligentes permitem medir variáveis como temperatura e direção e intensidade dos ventos, em tempo real, além de outros fatores. As informações coletadas são transmitidas sem fio para outros dispositivos, podendo formar uma rede de árvores inteligentes que se comunicam entre si até que os dados cheguem a uma central conectada à internet.

Um dos principais diferenciais do projeto é a forma como os sensores são alimentados. A árvore inteligente gera sua própria energia elétrica a partir da diferença de temperatura entre o interior e o exterior do tronco. Essa energia é utilizada para manter o funcionamento dos sensores e dos circuitos eletrônicos, eliminando a necessidade de baterias.

“Eu não coloco uma bateria em uma árvore [inteligente], pois isso vai agredir o meio ambiente. Não seria de bom senso colocar, em uma planta, alguma coisa química. Então, eu vejo a árvore [inteligente] como a própria bateria. Ela gera sua energia térmica ao longo do dia, e conseguimos converter isso em energia elétrica”, detalhou Protásio.

Projeto surgiu na tentativa de solucionar incêndios florestais

A pesquisa teve início a partir de uma preocupação do professor que, enquanto realizava o seu pós-doutorado nos Estados Unidos, quis encontrar alguma solução para os inúmeros incêndios florestais que atingem, todos os anos, o estado da Califórnia. Assim, o pesquisador se deu conta de que a principal vítima desses desastres, as árvores, poderiam avisar quando houvesse uma mudança drástica de temperatura nas proximidades, a partir dos dados gerados por meio dos sensores alocados em seus galhos e troncos.

Laboratório potencializa as vantagens vindas das plantas

Como explicou o pesquisador, essas informações obtidas podem ser enviadas para o mundo inteiro. “Podemos fazer a análise via inteligência artificial e conseguimos realizar a previsão de incêndios florestais. E isso é só o primeiro passo. Com esses dados, conseguimos fazer medições de outros parâmetros ambientais. Tudo para proteger a floresta e o meio ambiente”, destacou Protásio.

Com o avanço da pesquisa, novas possibilidades começaram a surgir. Atualmente, a Smart Tree, localizada no Cear/UFPB, atua também como uma espécie de estação meteorológica natural, capaz de fornecer dados ambientais em tempo real. A tecnologia permite, inclusive, inferir a direção e a velocidade do vento, informações fundamentais tanto para o combate a incêndios quanto para o planejamento urbano.

Essa nova fase da pesquisa está sendo desenvolvida pela mestranda em Engenharia Elétrica da UFPB, Virgínia Vieira. Segundo ela, a instrumentação foi feita para que a árvore pudesse “mostrar” como reage às mudanças do ambiente ao seu redor. Os sensores permitem acompanhar, ao longo do tempo, como a parte interna da árvore responde a variações de temperatura e à influência do vento. Dessa forma, é possível observar o comportamento da árvore em diferentes situações climáticas.

“Em incêndios florestais, o vento tem um papel muito importante, pois ele influencia a direção em que o fogo se espalha e a intensidade das chamas. Além disso, o vento pode levar fagulhas para áreas que ainda não estavam queimando, fazendo com que novos focos de incêndio surjam rapidamente”, explicou a pesquisadora.

Ainda de acordo com Virgínia, conhecer como o vento se comporta, para onde ele sopra e com que força, ajuda as equipes a entenderem melhor o avanço do fogo e a se prepararem caso ocorram mudanças repentinas durante o combate. Essas informações permitem decisões mais rápidas e seguras, ajudando a reduzir os danos causados pelo incêndio.

O equipamento desenvolvido pode ser utilizado por órgãos como o Corpo de Bombeiros, equipes de defesa civil, instituições de monitoramento ambiental em âmbito estadual e federal, além de centros de pesquisa e gestão florestal, especialmente no suporte a operações em áreas remotas ou de difícil acesso, onde a instalação de estações meteorológicas convencionais é limitada.

Segundo o técnico do laboratório Flaviano Batista, que também integra a pesquisa, o trabalho apresenta um potencial muito grande, no entanto, é necessário que haja o incentivo de instituições públicas e privadas para que esse conhecimento possa ser repassado de forma mais ampla para a população.

Parceria com universidade dos EUA

A pesquisa ganhou projeção internacional e resultou em uma parceria formal entre a UFPB e a University of Washington Tacoma, nos Estados Unidos. Em dezembro, o Centro de Energias Renováveis recebeu a visita institucional do engenheiro Robert Ray Landowski, da School of Engineering & Technology da universidade norte-americana, onde será instalada a segunda árvore inteligente do mundo, a primeira fora do Brasil.

De acordo com Protásio, a tecnologia brasileira já possui patente registrada nos Estados Unidos, o que reforça o caráter inovador do projeto e sua relevância científica.

“Ele veio aqui para o Brasil, viu a nossa árvore inteligente, mostramos a ele como funciona, e ele está implantando lá. Olha como é interessante, estamos levando tecnologia para fora. Exportando tecnologia”, afirmou.

Após a implantação das árvores inteligentes nos Bancários, a equipe de pesquisadores pretende expandir o projeto para outras áreas verdes de João Pessoa, como a Mata do Buraquinho, e também para a Floresta Nacional da Restinga de Cabedelo (Flona). A intenção é criar uma rede de árvores inteligentes capaz de fornecer um panorama ambiental detalhado da cidade.

No futuro, parte desses dados poderá ser disponibilizada diretamente à população, por meio de plataformas digitais ou aplicativos. A ideia é permitir que qualquer cidadão possa consultar, por exemplo, a temperatura e as condições ambientais de uma praça antes de visitá-la.

“Uma estação meteorológica convencional é muito cara. A árvore inteligente custa em torno de 2% a 3% do valor de uma estação profissional, e é capaz de fornecer dados compatíveis e facilitar o acesso. Os dados vão da internet para um aplicativo e qualquer pessoa na comunidade pode se beneficiar, sabendo desses dados”, ressaltou Protásio.

 Já Virgínia pontuou que essa tecnologia pode ser utilizada, por exemplo, na floresta Amazônica e em demais áreas de difícil acesso. “Futuramente, queremos expandir a pesquisa, transformar em uma estação meteorológica totalmente autônoma e que não necessita tanto de interferência humana. Essa árvore [inteligente] consegue baratear a ideia de uma estação meteorológica e ser aplicada em locais remotos”.

Como finalizou o pesquisar Cleonilson Protásio, a intenção primordial do estudo científico é beneficiar, de alguma forma, a sociedade e o meio ambiente. Ao transformar árvores em aliadas da tecnologia, o projeto reforça a importância da pesquisa científica no enfrentamento dos desafios ambientais e urbanos. Além de gerar dados, a iniciativa também contribui para fortalecer a relação da população com o meio ambiente, estimulando a preservação e o cuidado com as áreas verdes da cidade.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 25 de janeiro de 2026.