O folheto intitulado “O Perito Criminal e o Mistério dos Sentidos” do perito criminal e cordelista Alysson Medeiros, será lançado hoje, data que também se comemora o Dia Mundial de Conscientização da Acessibilidade. A obra vem acompanhada de um áudio e um vídeo contendo a tradução completa em Língua Brasileira de Sinais (Libras). A obra apresenta uma proposta de inclusão inédita, e conta com a xilogravura da artista Maria Edna, de Bezerros, Pernambuco.
Segundo Alysson, a iniciativa da publicação da obra surgiu quando ele recebeu de presente de um amigo o cordel O ABC do Cuscuz, de Gil Holanda, impresso em braille-tinta (técnica na qual o texto em código braille é sobreposto ao texto em tinta na mesma página). “Depois, pesquisei mais, e soube que havia carência de publicações culturais em braile, especialmente de literatura de cordel. Isso me motivou a escrever uma estória que pudesse relacionar perícia criminal e reflexões sobre acessibilidade”.
O surgimento do título da obra ocorreu numa viagem de férias para São Paulo. Durante o voo, enquanto o avião seguia para aterrissar em solo paulistano, o pensamento de Alysson pousava na titulação de sua obra: “O Perito Criminal e o Mistério dos Sentidos”. Ou seja, o título só não caiu do céu porque Alysson já se encontrava nele.
Ele explicou que o cordel conta uma estória de uma equipe policial que se desloca para atender a demanda em um local de crime. Durante o deslocamento, o grupo se depara com um deficiente visual caminhando na calçada. A partir daí, surgem perguntas e reflexões sobre a atividade pericial e a importância de cada sentido, além da visão, para o exame de diferentes vestígios de um crime.
Sobre a relevância de se investir em publicações para o público com deficiência visual e com baixa visão, o cordelista disse que “se deu depois de uma experiência junto à Imprensa Braille do jornal A União”. “A partir daí, passei a perceber o quão é importante se investir em publicações culturais que possam atingir novos públicos, especialmente os que ainda têm limitações de acesso e de acervo a determinados tipos de obras, a exemplo de folhetos de literatura de cordel”, ressaltou.
Alysson comentou ainda, referindo-se ao título da sua obra, qual poderia ser a conexão da atuação de um perito criminal e alguém que não enxerga. “A ligação maior que vejo é que todos, independentemente de suas limitações, merecem acesso a obras científicas e culturais, ou seja, à acessibilidade. Poder lançar um cordel nesta data [Dia Global para Conscientização sobre Acessibilidade] é importante para levar esta reflexão a meus colegas policiais e ao público em geral”, afirmou.
Analisando a respeito do que esse experimento lhe proporcionou, o autor afirma que outra reflexão que essa experiência lhe trouxe foi a de que todos os peritos estão sujeitos a influência de viés cognitivo durante seus exames, pois, a visão, sem a devida interpretação científica, pode enganar. “Assim como um deficiente visual acaba tendo outros sentidos mais apurados, o perito, no exercício de sua profissão, tem que ter seus demais sentidos apurados enquanto caminha na escuridão de uma investigação. Somente a partir da devida interpretação dos vestígios, com lastro na ciência, é que se consegue se desviar dos obstáculos e seguir no caminho certo da verdade”, salientou.
Na opinião de Alysson, é importante mostrar que a busca pela verdade não é feita por justiceiros infalíveis, mas por profissionais conscientes das próprias limitações. Ele acredita que todos precisam reconhecer e aprender com as nossas próprias limitações e com as alheias para ser pessoas melhores.
Para Hanna Pachu, transcritora braile e gerente da Imprensa Braile de A União, “iniciativas como a do Alysson são muito importantes, pois promovem a acessibilidade informacional para as pessoas com deficiência visual, ampliam o acervo de produtos em braile em seus diversos gêneros e formas literárias e possibilitam a autonomia das pessoas por meio do contato direto com o braile”, esclareceu.
Referindo-se à relevância de se publicar obras voltadas a esse segmento, Hanna diz que o diferencial da obra produzida por Alysson reside na iniciativa do cordelista em disponibilizá-la no formato braille-tinta. Além disso, ainda há o próprio conteúdo do trabalho, que apresenta uma reflexão sobre os cinco sentidos. “Materiais impressos em braile são sempre apreciados e valorizados, pois a tecnologia não pode e nem deve substituí-los. Apesar de as gerações mais novas serem mais adeptas à tecnologia, o braile é essencial para o ensino, o domínio gramatical e a comunicação escrita das pessoas”, observou a transcritora.
Hanna destaca que a Imprensa Braile apoia e prestigia esses trabalhos. “É uma satisfação poder difundir boas práticas de melhorias no processo de acessibilidade e inclusão para as pessoas com deficiência e, consequentemente, ampliar as discussões e ações da sociedade como um todo”, concluiu.
Mais sobre o autor
José Alysson D. M. de Medeiros, natural de João Pessoa, é perito criminal federal, atuando na capital paraibana. Entusiasta da literatura de cordel, escreve folheto desde 2012, principalmente sobre perícia criminal. É autor da obra Perícia em Versos, da Editora Millenium. Já Maria Edna da Silva é artesã e xilogravurista pernambucana, nascida e residente em Bezerros. Desenvolve suas atividades no Memorial J. Borges, continuando o legado do mestre — de quem é nora —, juntamente com outros artistas da família. J. Borges, um dos mais famosos xilogravuristas do Brasil, era considerado o melhor gravador popular do Nordeste pelo escritor Ariano Suassuna.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 21 de maio de 2026.