A história de mais de sete décadas da Fundação Napoleão Laureano (FNL) formata um capítulo especial da própria história da saúde e do humanitarismo na Paraíba. Para contá-la, ninguém melhor que o médico Antônio Carneiro Arnaud, que o fez em livro, intitulado “75 anos da Fundação Napoleão Laureano – Vida e Memória”. A obra foi lançada no dia 8 deste mês, no Manaíra Shopping, em João Pessoa, com direito a um discurso do autor — ex-diretor-geral e atual conselheiro da instituição —, que os leitores de A União terão o privilégio de ler a seguir.
Setenta e cinco anos. Três quartos de século de uma história construída por muitas mãos, guiada por um ideal de solidariedade que atravessa gerações e transforma vidas.
Celebrar os 75 anos da Fundação Napoleão Laureano é celebrar, acima de tudo, a escolha de não abandonar os mais vulneráveis. É celebrar a existência de uma instituição que, há décadas, abre suas portas a quem mais precisa — e que hoje atende, com dedicação e excelência, mais de 90% de seus pacientes pelo Sistema Único de Saúde. Noventa por cento. Deixem esse número ressoar, porque ele é a prova mais eloquente do que esta Fundação representa: não um hospital para poucos, mas uma casa aberta para todos.

- O médico Napoleão Laureano, que deu nome ao complexo, que ainda segue em funcionamento | Foto: Divulgação/Fundação Napoleão Laureano
Esta comemoração ganha um significado ainda mais especial com o lançamento desta obra — concebida para preservar a memória de uma das instituições mais importantes da Paraíba. Mais do que um livro comemorativo, trata-se de um testemunho histórico construído a partir de uma pesquisa paciente, criteriosa e profundamente respeitosa com aqueles que nos antecederam.
Para compreender esta Fundação, é preciso, primeiro, compreender o homem que lhe deu nome e alma.
Napoleão Laureano era médico. Era paraibano. E era, antes de tudo, um homem que olhava para o sofrimento alheio sem desviar os olhos. Diagnosticado com câncer, faleceu aos 36 anos. Nesse cenário, poderia ter voltado seus dias para si mesmo, para a própria dor, para a própria finitude. Não fez isso.
Agiu como os grandes espíritos fazem diante da adversidade: transformou a própria ferida em propósito. Sonhou, com uma clareza que desafia a lógica do desespero, com a criação de um hospital que pudesse acolher e tratar, com dignidade e excelência, especialmente aqueles que não tinham recursos para enfrentar a doença. Sonhou com uma Paraíba onde o diagnóstico de câncer não fosse também uma sentença de abandono.
Napoleão Laureano não viveu para ver seu sonho completo. Mas viveu o suficiente para acendê-lo — e essa chama nunca mais se apagou. É isso que estamos celebrando hoje. Não apenas uma instituição. Estamos celebrando a imortalidade de um sonho.
Sonhos, porém, precisam de construtores.
Inicialmente constituída no Rio de Janeiro, a Fundação foi transferida para a Paraíba após dez anos. Aqui, uma nova etapa começou a ser escrita sob a liderança de Ephigênio Barbosa da Silva, Aloísio Pereira Lima, Wilson Nóbrega Seixas e José Quirino da Silva — que integraram a primeira Diretoria em João Pessoa e tiveram papel decisivo na consolidação desta Instituição. A partir desse trabalho pioneiro, a Fundação fortaleceu suas bases e tornou-se a força mantenedora do Hospital que viria a se tornar referência no tratamento do câncer em nosso Estado.
Para a elaboração deste livro, li e reli as atas das Assembleias e das Reuniões de Diretoria, registrando os fatos e acontecimentos que marcaram esta trajetória ao longo das décadas. Busquei informações nos jornais paraibanos da época e consultei os trabalhos de escritores e jornalistas conterrâneos do doutor Napoleão Laureano. O resultado é uma narrativa que procura resgatar, com fidelidade e respeito, a memória daqueles que idealizaram, construíram e fizeram crescer esta Instituição.
Recebi este convite não por méritos de escritor — mas por circunstâncias que me aproximaram profundamente desta história. Tive a honra de ser o primeiro Diretor-Geral do Hospital Napoleão Laureano, função que exerci durante 17 anos, convivendo de perto com homens extraordinários que se dedicaram a esta causa: meus tios Ruy e Janduhy Carneiro, além de Drault Ernany, Mário Kröeff, Jorge de Marsillac e o Desembargador Severino Montenegro — integrantes da primeira Diretoria da Fundação e protagonistas de uma das mais belas páginas da filantropia paraibana.
Em 1978, eleito Deputado Federal, afastei-me da direção do Hospital. Exerci dois mandatos na Câmara dos Deputados e, mais tarde, servi à população paraibana como Prefeito eleito de João Pessoa. Mas os caminhos da vida político-partidária jamais me distanciaram desta Instituição. Durante minha gestão à frente da Prefeitura, celebramos um importante convênio com a Fundação, e o Ambulatório Janduhy Carneiro passou por significativa ampliação — contribuindo para aumentar sua capacidade de atendimento e reforçar a missão de acolher quem enfrenta o câncer. Concluídas essas atividades, fui eleito membro do Conselho Deliberativo da Fundação Laureano, mantendo sempre vivo esse vínculo que se tornou parte inseparável da minha própria história.
A ideia de registrar essa memória em livros não é recente. Quando o Hospital completou 50 anos, o então Diretor-Geral João Batista Simões sugeriu uma obra comemorativa. Dez anos depois, por ocasião dos 60 anos, o Diretor-Geral Thiago Lins da Costa Almeida voltou a defender essa importância. Em ambas as ocasiões, como Presidente da Fundação, dei total apoio — porque instituições duradouras precisam cuidar não apenas do seu presente, mas da preservação de sua memória.

- Médico Carneiro Arnaud, que, por quase duas décadas, dirigiu a Fundação Napoleão Laureano | Foto: Divulgação/Fundação Napoleão Laureno
Devo registrar, com gratidão, que a publicação desta obra nasceu por iniciativa do Presidente da Fundação, Marcelo Pinheiro de Lucena Filho, sugestão prontamente acolhida pela Diretoria Executiva e homologada pelo Conselho Deliberativo. A eles, meus sinceros agradecimentos pela confiança.
A esta obra somam-se, de maneira muito especial, a apresentação escrita por minha sobrinha Marília Arnaud, cuja sensibilidade literária oferece ao leitor um olhar humano e afetuoso sobre esta caminhada, e o prefácio elaborado pelo Conselheiro Germano Carvalho Toscano de Brito, que engrandece este trabalho com sua reconhecida cultura e compromisso com a história paraibana.
Permitam-me, por fim, uma palavra de caráter muito pessoal.
Ao concluir este trabalho, entendi que nada seria mais coerente com a história aqui narrada do que fazer com que esta obra continuasse servindo à causa que lhe deu origem. Por essa razão, decidi — com alegria e profundo sentimento de gratidão — destinar integralmente ao Hospital Napoleão Laureano toda a receita obtida com a venda deste livro.
Desejo que cada exemplar adquirido represente não apenas a preservação de uma memória que pertence a todos nós, mas também uma contribuição concreta para que esta Instituição continue cumprindo sua missão de acolher, tratar e oferecer esperança aos que dela necessitam.
Há histórias que pertencem ao passado. Outras pertencem ao futuro. A história da Fundação Napoleão Laureano pertence aos dois — porque foi construída com a coragem de quem sonhou, e continua viva através daqueles que mantêm esse sonho em movimento.
Que este livro seja recebido não apenas como a memória escrita de uma trajetória extraordinária, mas como um tributo àqueles que a construíram, uma homenagem aos que a mantêm viva no presente, e uma inspiração para os que terão a missão de conduzi-la no futuro.
Porque as instituições verdadeiramente grandes não vivem apenas de suas edificações, de seus equipamentos ou de suas realizações. Vivem, sobretudo, dos valores que as sustentam e da memória daqueles que dedicaram suas vidas ao bem comum.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 16 de junho de 2026.