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Impermeabilização gera alagamentos

publicado: 06/04/2026 09h55, última modificação: 06/04/2026 09h55
Asfaltamento sem um sistema de drenagem adequado reduz a infiltração da água no solo, causando desastres
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Incidentes afetam principalmente cidades de médio e grande porte, causando desde transtornos no trânsito até danos a imóveis | Fotos: Evandro Pereira

por Samantha Pimentel*

Quando chuvas intensas atingem, sobretudo, as médias e grandes cidades, é comum que problemas como alagamentos e inundações ocupem os noticiários. A água entra nas casas de moradores, principalmente em regiões periféricas, provoca a perda de móveis e eletrodomésticos e causa danos estruturais aos imóveis, além dos riscos à vida. Em casos menos graves, transtornos como engarrafamentos também são provocados pela falta de drenagem adequada nas vias e espaços urbanos. Nesse cenário, opções mais sustentáveis vêm sendo apontadas para garantir a melhor infiltração das águas pluviais e para que elas sigam seu curso natural, sem causar prejuízos. A escolha dos materiais usados em obras de urbanização e pavimentação do solo e a presença de parques urbanos e outros espaços verdes em meio às cidades também fazem a diferença.

Segundo Andréa Carla Lima Rodrigues, engenheira civil e professora da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), o manejo de águas pluviais é um direito da população, garantido por lei. “A gente tem uma lei nacional de saneamento básico — a Lei nº 11.445/2007 —, que estabelece como direito da sociedade quatro pilares: o abastecimento de água potável, o recolhimento de águas residuárias de esgotos, o recolhimento de lixo e a gestão de resíduos sólidos e, também, a gestão e o manejo de águas pluviais”, aponta. Porém, mesmo presente no texto, esse manejo inadequado está associado à problemática de inundações e alagamentos, que acontecem recorrentemente todos os anos.

Dados do Atlas de Desastres, base nacional consolidada pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional a partir de registros de estados e municípios, apontam que, de 1991 a 2024, o Brasil registrou 5.448 mortes causadas por desastres, sendo 71,8% classificados como enxurradas, alagamentos, inundações ou chuvas intensas. Na Paraíba, no mesmo período, foram 37 óbitos e mais de 105 pessoas desabrigadas ou desalojadas. Nesse cenário, as enxurradas representam 78,38% dos casos observados em solo paraibano, enquanto os demais se referem a seca ou estiagem.

Os números indicam um fenômeno resultante de uma quebra no ciclo natural da água. Conforme explica Andréa, parte da água das chuvas deveria naturalmente se infiltrar no solo, alcançando os lençóis subterrâneos. “No entanto, quando a gente faz o processo de urbanização, normalmente, limita-se esse processo de infiltração e, obviamente, há um maior percentual de água que vai escoar pelas ruas, pela superfície do solo”, afirma. Com o uso de concreto, asfalto ou outros materiais do tipo, os ambientes vão sendo impermeabilizados, o que impede ou ao menos reduz bastante a possibilidade de infiltração desse recurso.

“O que normalmente deve ser feito? Existem as estruturas do sistema de drenagem urbano, que são feitas para coletar esse excesso de água que vem pela superfície. Isso inclui os canais, as bocas de lobo, sarjetas, guias, todos esses elementos que devem ser feitos antes de pavimentar uma rua”, elucida a professora.

A gerente operacional de Coleta Seletiva da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas-PB), Jessika Rodrigues, também pontua que a pavimentação de vias tem relação direta com o aumento de problemas de alagamento nas cidades. “Superfícies como asfalto e concreto reduzem drasticamente a infiltração da água no solo, aumentando o escoamento superficial e fazendo com que grandes volumes de água cheguem rapidamente aos sistemas de drenagem. Como esses sistemas, em geral, não são dimensionados para esse volume e velocidade, ocorre o transbordamento”, declara.

O cenário ainda é agravado por fatores como a obstrução de galerias por resíduos descartados de forma incorreta e a ocupação inadequada de áreas naturalmente sujeitas à inundação, sobretudo por famílias em situação de vulnerabilidade social e econômica. Por isso, esses problemas costumam potencializar-se em áreas periféricas.

Um levantamento realizado pelo Instituto Trata Brasil e divulgado no ano passado aponta que, pelo menos, 32,49% dos municípios brasileiros não possuem qualquer tipo de sistema de drenagem de água da chuva. A pesquisa foi feita com base no Diagnóstico Temático do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (Sinisa) para Drenagem e Manejo de Águas Pluviais Urbanas (Dmapu), um documento técnico produzido pela Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental do Ministério das Cidades com dados de 2023.

Materiais

A professora Andréa chama a atenção para outro problema: em muitos casos, os sistemas de drenagem e o manejo de águas pluviais são desconsiderados durante a execução dos projetos urbanos. “Hoje também já se avançou muito nos materiais de uma forma geral, e a gente já tem vários tipos de pavimentos que são mais porosos e permitem uma maior infiltração da água. Alguns asfálticos já são considerados permeáveis e temos soluções em concreto também mais permeáveis, que são o que a gente chama de ‘piso-grama’”, exemplifica.

Há outras opções, como blocos intertravados drenantes, que permitem a infiltração da água da chuva diretamente no solo. “Além dos materiais, entram as soluções complementares, que funcionam como uma engrenagem integrada de drenagem urbana. Os jardins de chuva, por exemplo, são projetados para captar e infiltrar a água em áreas com dificuldade de escoamento, reduzindo alagamentos e processos erosivos. De quebra, ainda qualificam o espaço urbano, trazendo vegetação e melhorando o microclima”, afirma Jessika.

A gerente operacional da Semas-PB destaca ainda as valas de infiltração, estruturas simples que conduzem a água para o solo, favorecendo a recarga dos aquíferos e diminuindo o volume que iria para as galerias pluviais. “Em cidades como João Pessoa, onde há períodos de chuvas intensas combinados com expansão urbana, esse conjunto de soluções deixa de ser tendência e passa a ser necessidade. É uma mudança de lógica: sair de um modelo que só drena rapidamente para outro que retém, infiltra e equilibra o ciclo da água dentro da própria cidade”, ressalta.

Soluções sustentáveis transformam cidades em “esponjas”

O sistema de drenagem mais convencional, feito de “estruturas cinzas”, é um modelo que vem sendo substituído por opções cada vez mais sustentáveis, conforme aborda Andréa Rodrigues. “O que se pensa hoje é muito mais alinhado aos conceitos de sustentabilidade e de cidades inteligentes. Existe um arquiteto chinês, Kongjian Yu, criador do termo ‘cidades-esponjas’, e, pela ideia do conceito, a gente tem que diminuir a necessidade de construção de infraestruturas em concreto, com canalizações e grandes canais, e trabalhar mais com a questão de que as cidades podem absorver essa quantidade de água que cai da chuva. Por isso esse termo ‘esponja’”, afirma a professora.

Parques Parahyba, em JP, ajudam a reduzir impactos

Segundo Jessika Rodrigues, a presença de parques urbanos e áreas arborizadas exerce um papel estratégico na mitigação de alagamentos. “Na prática, esses espaços funcionam como áreas naturais de infiltração e retenção temporária da água da chuva, reduzindo o volume que escoa superficialmente e aliviando a sobrecarga das redes de drenagem, especialmente em eventos de chuva mais intensa”, esclarece.

Além disso, a vegetação melhora a estrutura do solo, aumenta sua porosidade e favorece a absorção da água, contribuindo diretamente para a redução dos picos de cheia. “Em cidades como João Pessoa, onde o regime de chuvas pode ser concentrado em determinados períodos, esses espaços são ainda mais relevantes, pois ajudam a equilibrar o ciclo hidrológico urbano e a preservar a qualidade ambiental. Trata-se de uma solução que une engenharia e natureza de forma inteligente, trazendo não só benefícios hidráulicos, mas também conforto térmico, melhoria da qualidade do ar e bem-estar para a população”, acrescenta a gerente operacional da Semas-PB.

Ela também comenta que, nas “cidades-esponja”, a sustentabilidade deixa de ser um conceito abstrato e passa a ser um elemento estruturante do desenvolvimento urbano. Já a professora Andréa elenca soluções como telhados verdes e sistemas de reaproveitamento da água da chuva que podem ser implantados como uma política pública. “Existem alguns estudos aqui, na universidade, [que abordam] a possibilidade de transformar em lei o recolhimento de água de chuva em prédios públicos. E, quando se faz essa captação, deixa--se de lançar essa água no sistema de drenagem e acaba-se tirando um pouco do excesso no sistema. Por outro lado, a gente consegue utilizar essa água, reduzindo a conta de água”, detalha.

De acordo com ela, alguns países já vêm experimentando soluções mais sustentáveis desse tipo, a exemplo da Inglaterra, Holanda e China. No Brasil, a professora cita os exemplos de Belo Horizonte, onde há jardins de chuva, e São Paulo, com calçadas verdes que facilitam a absorção da água. “Na Paraíba, aqui, na universidade, vários professores estudam essa questão. Mas a legislação também tem que ajudar nesse sentido, gerando, nas pessoas, uma consciência maior sobre o uso de água da chuva”, diz Andréa. Para ela, cabe aos gestores executar grande parte dessas políticas, enquanto a população deve cobrar por essas ações.

Já Jessika especifica, como exemplos de soluções sustentáveis no estado, os Parques Parahyba, em João Pessoa. Esses são espaços lineares implantados em áreas estratégicas da cidade, com múltiplas funções. “Do ponto de vista da drenagem, eles ajudam a reduzir a velocidade do escoamento superficial, ampliam as áreas de infiltração e contribuem para diminuir pontos de alagamento. Por estarem localizados próximos a canais urbanos, esses espaços também funcionam como áreas de amortecimento. Em situações de chuva intensa, parte da água que poderia transbordar para vias e áreas ocupadas é temporariamente retida e infiltrada no solo, reduzindo impactos e favorecendo a recarga de aquíferos e a conexão com outros corpos hídricos”, afirma.

A gerente operacional da Semas-PB informa ainda que iniciativas vêm sendo conduzidas pela secretaria, reforçando essa linha de atuação, com projetos voltados à arborização urbana, recuperação de áreas degradadas e proteção de matas ciliares. Entre os destaques, estão o programa Paraíba Mais Verde e ações voltadas à educação ambiental.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 05 de abril de 2026.