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Insetos têm fama injusta de vilões

publicado: 29/12/2025 09h07, última modificação: 29/12/2025 09h07
No verão, o aumento das temperaturas e das chuvas traz à tona rotinas fundamentais para o equilíbrio da natureza
animais_insetos_abelha © roberto guedes (10).JPG

Abelhas, formigas, borboletas, aranhas e pulgões têm funções específicas para a manutenção do equilíbrio do ecossistema | Roberto Guedes

por Priscila Perez*

Basta um zumbido para despertar o instinto de sobrevivência. Chinelo, vassoura, veneno. Qualquer coisa serve para eliminar o inimigo, de mosquitos a baratas, passando por formigas e besouros — todos colocados sob o mesmo rótulo de ameaça. E, no verão nordestino, o incômodo cresce exponencialmente à medida que a temperatura aumenta. Mas nem tudo o que voa, pica ou rasteja é, de fato, vilão. “Os insetos não são exatamente maus, por essência. A gente é que cria as condições para que eles nos façam mal”, explica o engenheiro agrônomo e doutor em Entomologia Agrícola, Leonardo Dantas, professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

Por mais comum que seja associarmos alguns insetos à vilania, a tentativa de classificá-los em bons e maus simplifica demais o que acontece na natureza. Distante desse maniqueísmo, há muitos fatores em jogo, como temperatura, umidade, acúmulo de lixo e até a presença de predadores naturais, além da própria dinâmica do ecossistema. Porém, antes de aprofundarmos essa questão, vale categorizar o que realmente é um inseto, para evitar confusões. Segundo o professor, para além da imagem do “bichinho cheio de pernas”, os integrantes desse grupo compartilham uma estrutura corporal bem definida: cabeça, tórax e abdômen, com seis patas, antenas e, em geral, um par de asas. Portanto, aranhas, escorpiões e carrapatos ficam de fora, pois pertencem à turma dos aracnídeos.

Combustível da vida

Elucidada a dúvida, já parou para pensar por que as famosas muriçocas parecem só dar o ar da graça durante o verão? A sensação é de que passamos boa parte do ano sem a presença delas, até que as altas temperaturas as atraem para as nossas casas. A explicação para a invasão delas e de seus colegas, de asas ou não, é simples: temperatura e umidade são o combustível da vida dos insetos. Como são animais de sangue frio, não produzem calor próprio e, por isso, dependem do ambiente para regular o corpo. Em temperaturas mais baixas, o metabolismo desacelera e os níveis de atividade também caem. Já com o termômetro nas alturas, conseguem se reproduzir e se desenvolver melhor, multiplicando-se mais rapidamente. “Eles estão presentes o ano inteiro, mas o aumento da temperatura acelera o metabolismo e o ciclo de vida. Por isso, parecem surgir de repente”, detalha o professor Leonardo. Vale lembrar que o calor, combinado às chuvas esparsas, multiplica os criadouros e as fontes de alimento — cenário perfeito para transformar o verão em festival de zumbidos.

Nas cidades, os insetos mais frequentes nessa época do ano são mosquitos, moscas, baratas, formigas, vespas e abelhas, que ficam menos visíveis quando a temperatura está mais amena. Já em jardins e hortas, pulgões, lagartas, joaninhas, libélulas e besouros aparecem em busca de folhas e flores, desempenhando funções de polinização e controle biológico de pragas. Em vez de vilões e mocinhos, é preciso entender que cada espécie tem um papel importante no equilíbrio do meio ambiente. “Há vespas que parasitam ovos de baratas, joaninhas que comem pulgões, abelhas que garantem boa parte das frutas que consumimos. Mas, por falta de conhecimento, muita gente mata esses insetos”, lamenta o professor.

Vilania

Mesmo assim, não dá para ignorar o poder de fogo de alguns insetos. Leonardo recorre a uma comparação curiosa para mostrar como as aparências enganam. “Se você colocar um mosquito e uma serpente em um mesmo espaço, provavelmente irá fugir da serpente. Mas existem muitas que não são peçonhentas. Já o mosquito pode transmitir dengue e chikungunya. Então, eu correria dele, com certeza”, reflete. Citar o Aedes aegypti é emblemático por conta das doenças que carrega, mas o especialista lembra que esse mosquitinho zebrado não seria um problema se não encontrasse as condições ideais de reprodução nos centros urbanos, criadas pelas pessoas. “Ele só se tornou uma ameaça porque encontrou dentro das cidades o que precisava: caixas d’água destampadas, lixo e calor. No ambiente natural, seria apenas mais um mosquito”.

Na prática, ao perder o hábitat natural, muitos insetos deslocam-se para as cidades, aproximando-se das casas em busca de alimento e abrigo. Conforme o biólogo Eudécio Carvalho Neco, gerente operacional de Educação Ambiental e do Campo da Secretaria de Educação da Paraíba (SEE-PB), quanto mais degradado o ambiente estiver, mais esses animais estarão perto das pessoas. “É o que chamamos de espécies sinantrópicas. O lixo acumulado, o esgoto exposto e a falta de saneamento criam o ambiente perfeito para baratas, mosquitos e escorpiões”, explica. Para ele, a solução para essa questão está no manejo inteligente, com limpeza urbana, planejamento ambiental e consciência coletiva.

Venenos atacam pragas, mas matam polinizadores

Se entender o que faz cada inseto pode soar desafiador, para Eudécio, o equilíbrio é o centro de toda a questão. O aumento das populações de insetos no verão é natural e necessário para o equilíbrio dos ecossistemas, um sinal de vitalidade ambiental, de acordo com o especialista. Eles polinizam plantas, servem de alimento para aves, anfíbios e répteis, e ainda ajudam a decompor a matéria orgânica, um ciclo invisível, mas essencial para a vida. As formigas, por exemplo, arejam o solo e dispersam sementes, enquanto as moscas atuam como pequenas operárias da reciclagem, transformando restos orgânicos em nutrientes que retornam ao ambiente. E até as baratas cumprem sua função como recicladoras naturais de resíduos.

Já o que chamamos de “praga” é apenas uma resposta ao desequilíbrio ambiental, quando o ser humano desestabiliza essa dinâmica. Parece até improvável, mas qualquer desequilíbrio causado a esses pequenos seres pode gerar grandes consequências. Eudécio explica a relação: “Quando usamos agrotóxicos, podemos afetar as abelhas e, consequentemente, os serviços ecológicos prestados por elas, como a polinização. E isso interfere diretamente na oferta e na variedade de frutas, em última instância”, detalha. Muitas vezes, embora o alvo sejam os insetos indesejáveis, acabamos eliminando, também, os mais benéficos, como abelhas, joaninhas e libélulas. “O que causa um efeito em cadeia e pode levar ao aumento de pragas mais resistentes”, alerta.

Além disso, o uso indiscriminado de venenos contamina o solo, a água e os alimentos, afetando não só o meio ambiente, como também a saúde humana. Para Eudécio, o caminho está em práticas sustentáveis, como a agroecologia, o controle biológico e a educação ambiental, que permitem conviver com os insetos sem precisar exterminá-los. “O equilíbrio natural depende da convivência, não da eliminação total desses organismos”, resume.

Convivência

Essa harmonia defendida pelo biólogo ganha vida no quintal de Maria José Souza Sobral, moradora de Mangabeira, em João Pessoa. Aos 61 anos, ela transformou o próprio terreno em uma “microflorestinha”, como gosta de chamar. “O jardim, para mim, é uma terapia, porque cuidando das plantas você não pensa em nada, e o corpo relaxa. Eu não tomo remédio nenhum, porque a natureza é meu remédio”, conta, sorrindo.

No espaço que cultiva há duas décadas, a regra é simples: nada se mata, tudo se observa. “Se é lagarta, deixo comer [as folhas], porque, pouco tempo depois, ela vira borboleta. As formigas também comem, mas depois vão embora. Acredito que todos têm uma função”, diz. Mesmo as abelhas, que visitam o jardim nas floradas, têm seu espaço. “Elas colhem o néctar e vão embora. Nunca me atacaram”, comenta. Não por acaso, a moradora não usa venenos em seu jardim — se precisa controlar algo, recorre a soluções naturais. “Acho fantástica a presença desses animais. Eles escolheram minha casa para morar e isso é um presente do universo”, afirma. Em vez de sentir-se incomodada, Maria José acredita que os insetos representam um sinal de saúde. “Hoje, a maioria das pessoas só pensa em destruir, por isso a natureza está pobre. Mas esses bichinhos podem nos ajudar bastante”, finaliza.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 28 de dezembro de 2025.