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O valor da liderança experiente

publicado: 02/09/2024 09h32, última modificação: 02/09/2024 09h32
Com décadas de desenvolvimento intelectual na bagagem, idosos são peças-chave em movimentos sociais
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Ilustração: Bruno Chiossi

por Emerson da Cunha*

Não é difícil encontrar lugares voltados para atividades físicas e intelectuais para o público com mais de 60 anos. Cada vez mais, aumenta-se a procura por um estilo de vida mais saudável e ativo. Academias de ginástica e grupos de socialização são exemplos de ambientes que favorecem a longevidade.

No entanto, à medida que há mais idosos envolvidos nessas atividades, há também pessoas com mais de 60 anos que não se contentam em ser apenas participantes, mas que desejam ocupar — ou continuar ocupando — espaços de liderança política, acadêmica, comunitária e associativa. Com idade e experiência, podem utilizar décadas de desenvolvimento social, político e intelectual para aprimorar estratégias de determinados grupos e trocar figurinhas com os mais jovens.

"Amo o que faço e não vejo a pessoa idosa como incapaz. Nós podemos exercer qualquer função. Acho que, quando a gente para, a gente adoece"
- Irene Galdino

Irene Galdino, 71 anos, é uma dessas idosas que se mantêm na luta por direitos. Presidente do Conselho Municipal em Defesa dos Direitos das Pessoas Idosas de João Pessoa, ela conta por que não conseguiu parar de trabalhar.

“O que me incentiva a continuar lutando pela causa da pessoa idosa é a minha própria formação. Eu sou assistente social e gerontóloga, amo o que faço e não vejo a pessoa idosa como incapaz. Não tenho essa visão de incapacidade. A pessoa idosa pode exercer qualquer função dentro do seu limite, dentro da sua disponibilidade e dentro do seu querer. Eu acho que, quando a gente para, a gente adoece, a gente para de viver”, diz Irene.

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A professora Adelaide Alves, 60 anos, aposentou-se da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) em 2019, mas sentiu que poderia continuar a contribuir com a educação, espaço que tem ocupado há cerca de 40 anos. Assim, decidiu manter as orientações a mestrandos e a doutorandos no programa de Pós-Graduação da instituição. Além disso, foi convidada a atuar no Conselho Estadual de Educação.

“Vamos envelhecer com muita dignidade. E, assim, muito consciente das coisas que a gente pode fazer e das capacidades e potencialidades que a gente ainda tem”, propõe a docente. “Eu acho até que, na sociedade contemporânea, vai ter que ser revista essa noção de que se é idoso a partir de 60 anos, porque nós estamos com outra expectativa de vida agora. Conheço muita gente, e eu me incluo nisso, que chegam aos 60 no auge da capacidade produtiva e no auge da maturidade intelectual”, complementa.

Protagonismo político

Há, ainda, quem passeie tanto pela liderança acadêmica quanto pela social e política. Um exemplo é a professora aposentada da UFPB Rita Porto. Entre 2020 e 2022, durante a pandemia de Covid-19, ela dirigiu a Diretoria de Políticas Educacionais do Sindicato dos Docentes da Universidade Federal da Paraíba (Adufpb) e foi pioneira na discussão sobre segurança e eficácia da educação remota. Depois, assumiu a Diretoria de Assuntos de Aposentadoria e Seguridade Social.

"Vamos envelhecer com dignidade. Conheço muita gente que chega aos 60 anos no auge da maturidade intelectual"
- Adelaide Alves

Rita Porto recorda que se filiou à entidade assim que ingressou na instituição, em 1993. Porém, só passou a participar ativamente de gestões depois que se aposentou, em 2017.

 “Costuma-se falar em ‘professor da ativa’, mas os professores aposentados não são inativos. Vários colegas estão escrevendo livros. Às vezes, permanecem em casa por falta de convite e de respeito ao que produziram. Muitos saem da universidade porque o tempo, ali, terminou, mas eles têm um potencial incrível. Fizeram graduação, especialização, mestrado, doutorado, pós-doutorado. As lideranças sociais precisam respeitar os intelectuais e trazê-los para perto. Mas não pode ser qualquer intelectual tradicional, tem que ser um intelectual orgânico, com história para contribuir com os movimentos”, pontua Rita Porto, que atualmente é vice–presidente do sindicato.

Ativismo faz bem para o idoso e combate a discriminação

O geriatra João Borges considera que a presença de idosos em cargos de liderança é salutar, pois eles carregam bagagens de vivências que podem favorecer tomadas de decisões mais sábias. Além disso, podem trazer conhecimentos e relacionamentos para facilitar alianças políticas que favorecem avanços no campo da conquista de objetivos.

“Neste período da vida, no qual, normalmente, encontram-se aposentados, os idosos dispõem de mais tempo para investir no seu crescimento humano e espiritual, bem como para investir na comunidade e associações, para desenvolvimento de lutas e trabalhos, que visam melhores condições de vida para sua comunidade e sociedade em geral”, pontua Borges.

"Vários colegas estão escrevendo livros. Às vezes, falta respeito ao que produziram, mas eles têm um potencial incrível"
- Rita Porto

Para o geriatra Walter Araújo, por sua vez, a atuação de pessoas com mais de 60 anos em lugares de liderança pode ser benéfica não apenas aos próprios idosos mas também à sociedade como um todo.

“Grupos com pessoas diferentes, com idades distintas, tendem a ter visões de mundo e de solução de problemas diversas. Então, a presença de pessoas idosas em grupos sociais pode agregar ideias diferentes e mais experiência na tomada de decisões. Para a sociedade, isso implica maior autonomia e independência de uma população cada vez maior na nossa pirâmide etária. Com isso, há ganho em saúde, qualidade de vida e longevidade”, aborda o médico.

Além disso, o geriatra frisa que as pessoas mais longevas contam com uma extensa história de vida e merecem ser ouvidas e respeitadas, tendo, em sua maioria, muito a contribuir. “Precisamos cuidar e atentar para os problemas de saúde da nossa população mais longeva mas também evitar a infantilização e o etarismo, que é a discriminação com base na idade”, conclui o especialista.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 31 de agosto de 2024.