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Paraibano está em relatório da ONU

publicado: 11/03/2026 09h20, última modificação: 11/03/2026 09h20
Filipe Magalhães integrou documento “Um futuro que escolhemos”, que reuniu 287 cientistas de 82 países
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Magalhães integrou o grupo de revisores do documento que elaborou o diagnóstico sobre o colapso ambiental, e nele são apontados os caminhos para a regeneração | Foto: Arquivo pessoal

por Joel Cavalcanti*

Um sociólogo paraibano é o único representante do Nordeste a figurar na elaboração do “Global environment outlook 7” (GEO-7), a mais abrangente avaliação científica já realizada pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). Filipe Magalhães, assistente de diretoria da Companhia de Água e Esgotos da Paraíba (Cagepa), atuou como revisor do documento intitulado “Um futuro que escolhemos”, lançado oficialmente em dezembro de 2025.

O relatório é o resultado do trabalho multidisciplinar de 287 cientistas de 82 nações e funciona como um diagnóstico profundo sobre o estado atual, as tendências e as perspectivas do meio ambiente global. Para Magalhães, a importância do documento reside na sua escala e no seu propósito de sobrevivência. 

Foto: Divulgação/ONU

“Esse documento é o mais amplo que a humanidade já produziu sobre o meio ambiente. A partir daí, ele aponta não só para um alerta global, porque a gente está indo rumo a um colapso da nossa casa, desse meio ambiente, mas também aponta os rumos que poderiam aliviar esse colapso”, explica o sociólogo.

Efetivo da Cagepa há 15 anos, Filipe Magalhães construiu uma carreira como cientista social de formação, agregando ao currículo um mestrado na área de Desenvolvimento e Meio Ambiente, definindo-se hoje como um cientista social e ambiental. Atualmente, trabalha na interface com a Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD), focado no financiamento de projetos de sustentabilidade.

A participação no GEO-7 ocorreu a partir de um processo seletivo global que começou no início do ano passado. Movido pela curiosidade e pelo hábito de consultar relatórios internacionais de órgãos como ONU Habitat e ONU Water em suas pesquisas, Magalhães respondeu a uma chamada pública da ONU para interessados em compor o corpo de revisores. O critério exigia perfis multidisciplinares que pudessem validar a base científica do estudo e oferecer novas camadas de análise ao texto principal.

Gargalo da gestão

O relatório GEO-7 traz conclusões urgentes sobre a viabilidade do modelo econômico atual frente à finitude dos recursos naturais. Um dos pontos mais críticos destacados por Magalhães é a dissonância entre o conhecimento científico produzido e a execução de políticas públicas. Ele aponta que, embora as evidências estejam disponíveis, os tomadores de decisão falham em implementá-las.

“Os estudos apontam, sobretudo, que a gente tenta trabalhar muito em soluções, quando, na verdade, o problema está na gestão, na governança e na inteligência estratégica. Então a universidade consegue produzir conhecimentos, e os cientistas dizem ‘esse é o caminho’, mas, na hora da execução das políticas públicas, não são consideradas uma parte das evidências científicas que foram disponibilizadas”, afirma.

Outro aspecto relevante é o que Magalhães chama de “inviabilidade da economia linear em um planeta circular”. Segundo o revisor, o consumo desenfreado de recursos ultrapassa a capacidade de regeneração da biosfera. O documento reforça que o mundo ignora agendas de desenvolvimento e sustentabilidade há décadas, aproximando-se de “pontos de não retorno”. Na prática, o trabalho de um revisor consiste em garantir a coerência e o rigor técnico das informações apresentadas pelos autores.

Filipe Magalhães analisou o documento integralmente, mas concentrou suas contribuições diretas em seis capítulos, com ênfase especial na área de recursos hídricos. Em um dos trechos, ele interveio em um estudo sobre balanço hídrico, alertando para a necessidade de considerar variáveis como perda de água e padrões de consumo que não estavam devidamente contemplados. Magalhães inseriu a perspectiva das ciências sociais no debate ambiental.

Ele propôs reflexões sobre a “ética do cuidado” e o peso da herança colonial na exploração predatória de recursos no Brasil. “O revisor pode sugerir textos autorais mesmo. Falar em uma época de cuidado necessita conter primeiro com a época colonial, que é uma ética de exploração dos recursos, que é uma ética de não convivência com a diversidade, não reconhece a diversidade como valor”, detalha.

Em outro momento da revisão, o sociólogo atuou para evitar interpretações enviesadas sobre o crescimento populacional, alertando que argumentos sobre “superpopulação” poderiam ser distorcidos por grupos ideológicos de extrema direita para defender controles de natalidade em detrimento dos direitos humanos.

Identidade regional

Pela contribuição ao GEO-7, Filipe Magalhães recebeu, no último dia 4, uma carta de agradecimento assinada por Maarten Kappelle, Chefe de Ciência do Pnuma. O reconhecimento chancela a importância de ter vozes do Sul Global e, especificamente, do Nordeste brasileiro, em fóruns internacionais. Para o sociólogo, sua participação foi indissociável de suas origens paraibanas e sua formação. “O modo da gente ver o mundo, a gente sempre carrega nossa identidade profissional e acadêmica, então a gente é um resultado disso. O modo de eu enxergar os problemas do mundo contribuiu para que eu tivesse uma visão transversal e pudesse contribuir de forma mais adequada ao estudo”, pontua o profissional.

Embora o relatório indique caminhos de transformação que poderiam injetar trilhões de dólares no Produto Interno Bruto (PIB) global até 2070 caso o mundo mude sua trajetória, o tom de quem analisou os dados de perto é de cautela extrema. Filipe Magalhães ressalta que o sentimento é de gratidão pelo trabalho realizado, mas de profunda preocupação com o horizonte que se desenha.

O sociólogo reforça que o documento projeta décadas difíceis caso não ocorra uma ruptura imediata no modo de vida da sociedade. “A gente está indo, e o documento justamente aponta que, se não houver uma ruptura nessa direção, uma ruptura mesmo de caminho, a gente caminha para vias muito difíceis nas próximas décadas, e no próximo século pode chegar um colapso da biodiversidade a um nível nunca visto”, finaliza.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 11 de março de 2026.