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conhece as Pancs?

Plantas “não convencionais” são ricas em nutrientes

publicado: 25/05/2026 09h43, última modificação: 25/05/2026 09h43
Comestíveis, elas promovem diversificação alimentar
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Clitoria ternatea, presente em receitas quentes, infusões e coquetelaria, é rica em antioxidantes e tem ação anti-inflamatória | Fotos: Divulgação/Ellen Pereira

por Camila Monteiro*

Taioba, beldroega, jambu, peixinho-da-horta, ora-pro-nóbis, caruru. Essas são algumas espécies das denominadas plantas comestíveis não convencionais (Pancs), termo originado em 2008, e que se refere a espécies não muito frequentes no cotidiano das pessoas, mas que são consideradas como “tesouros nutricionais”.

A natureza oferece uma variedade de recursos e benefícios para a humanidade; dentre as inúmeras vantagens, estão as espécies que podem ser consumidas pelo ser humano. A história da alimentação já registrou o consumo de cerca de sete mil espécies vegetais. Hoje, no entanto, apenas 30 culturas respondem pela maior parte do que se consome no mundo. Somente arroz, trigo e milho concentram quase metade desse total. É nesse cenário de limitação alimentar que as Pancs ganham relevância, pois são uma alternativa concreta para diversificar a dieta, já que são ricas em vitaminas, minerais, fibras, proteínas e antioxidantes. 

O que define uma Panc não é exatamente o fato de ser desconhecida, mas a ausência de cadeias produtivas estruturadas. Segundo Nuno Madeira, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e referência nacional no tema, essas plantas não contam com recomendações técnicas de plantio nem com assistência especializada, diferentemente do tomate, da batata ou da cenoura. “O conceito traz essa questão de serem pouco conhecidas, mantidas pelos agricultores, mas, principalmente, de não terem uma cadeia produtiva estruturada, mesmo que sejam conhecidas em algumas regiões do país”, explicou.

O trabalho do pesquisador carioca tem como objetivo ressignificar o consumo dessas plantas. Indo na contramão das grandes cadeias produtivas, Nuno defende a preservação dessas espécies, bem como a ampliação do entendimento sobre elas. Desde 2006, dois anos antes mesmo de o termo “Panc” existir, ele ocupa o posto de curador de uma coleção de germoplasma de hortaliças não convencionais, isto é, ele guarda o material genético, com o objetivo de conservação. “Eu sempre fui curioso sobre essas plantas diferentes e cultivava no meu próprio quintal, então fui convidado para ser o curador, que é como um guardião de sementes não convencionais”, contou.

Em 2008, concomitantemente com a criação do termo, passou a coordenar bancos comunitários de hortaliças, voltados à difusão do conhecimento sobre plantio, benefícios nutricionais e formas de preparo.

Para ele, o encolhimento da variedade alimentar tem causas claras: a verticalização das cidades e a consequente perda dos quintais produtivos, a mudança nos padrões de vida e o avanço das grandes cadeias produtivas. “As consequências disso são uma insegurança nutricional fortíssima. Tem também a questão da produção em larga escala com muitos agrotóxicos”. As Pancs, em contraste, são resistentes e conseguem ser cultivadas sem grandes dificuldades.

Benefícios diversos

Além do valor nutricional, essas plantas trazem vantagens ambientais e econômicas. A bióloga Juliana Coutinho, mestranda em Horticultura Tropical, destaca que o cultivo de Pancs aproveita áreas antes improdutivas e, por terem exigências sazonais distintas das hortaliças convencionais, ampliam a oferta de alimentos ao longo do ano por serem menos vulneráveis a eventos climáticos extremos, como secas ou excessos de chuva.

Do ponto de vista ambiental, cultivar uma Panc significa reconhecer e valorizar espécies nativas cujo uso está em desaparecimento. “Produzir uma Panc é valorizar a nossa biodiversidade, porque muitas delas ainda são subutilizadas como alimento. Por toda sua diversidade, versatilidade e variedade de nutrientes, são perfeitas para uma alimentação adequada, saudável, ambiental e cultural”, afirma Juliana.

A nutricionista e terapeuta integrativa Fabiana Cordeiro reforça esse panorama: “As Pancs são verdadeiros tesouros nutricionais, são ricas em vitaminas, minerais e compostos bioativos; elas podem transformar a alimentação e trazer mais diversidade para o prato”.

Ressignificar, portanto, o consumo dessas plantas, é resgatar o equilíbrio nutricional da alimentação, além de reforçar o papel dos agricultores familiares, que não conseguem, muitas vezes, competir com as grandes cadeias produtivas.

Paraíba

Na cozinha, as Pancs fazem parte dos pratos, finalizando cada preparo e agregando texturas, sabores e cores

No Nordeste, e especialmente na Paraíba, o encontro com essas plantas pode acontecer de forma espontânea. Chanana, ora-pro-nóbis, taioba, beldroega, caruru, serralha e peixinho-da-horta crescem naturalmente em quintais e terrenos, favorecidas pelo clima regional.

Como exemplificou Fabiana Cordeiro, a chanana (Turnera subulata), conhecida popularmente como “boa noite”, “onze horas” ou “flor-do-guarujá”, é facilmente encontrada na Caatinga e tem uso tanto culinário quanto medicinal. Suas flores, de sabor suave e adocicado, podem ser consumidas in natura, em saladas ou na produção de geleias artesanais. Medicinalmente, é associada a propriedades calmantes, anti-inflamatórias e de apoio à saúde digestiva e respiratória.

Já a ora-pro-nóbis (Pereskia aculeata) carrega um apelido que diz muito sobre seus benefícios: “carne dos pobres”. A trepadeira tem folhas com mais de 25% de proteína. Rica também em fibras, vitaminas e minerais, pode ser consumida de múltiplas formas: sucos, saladas, sopas, caldos, ensopados, compotas, sorvetes ou processada em farinha para pães, bolos, biscoitos e massas.

Em João Pessoa, a Secretaria de Meio Ambiente (Seman) realiza mapeamento do uso de algumas dessas espécies pela população, principalmente taioba, beldroega, hibisco e flores de abóbora. O engenheiro agrônomo Anderson Fontes explica que o trabalho inclui identificar onde as plantas são utilizadas e em quais restaurantes, por exemplo.

Cuidados

O engenheiro agrônomo alerta, porém, para um risco: confundir com uma planta tóxica. A bióloga Juliana Coutinho reforça o aviso. “Pela falta de conhecimento sobre as espécies, muitas vezes não é possível reconhecer se aquele ‘matinho’ do quintal é comestível ou não”.

Assim, os principais cuidados referem-se à identificação correta da planta e à higienização rigorosa, especialmente se forem colhidas em áreas urbanas. A falta de informações pode levar ao uso inadequado. Portanto, é essencial garantir o conhecimento correto sobre qual a parte utilizada para o consumo. “Algumas são consumidas in natura; outras ficam mais saborosas quando cozidas; e há aquelas que precisam, obrigatoriamente, passar pelo cozimento”.

Pratos e receitas

A chef e proprietária do restaurante Casa Caratelli, Ellen Pereira, teve seu primeiro contato com as Pancs ainda na faculdade, em uma disciplina específica sobre o tema. Desde então, as espécies passaram a integrar seu cardápio. “Elas fazem parte dos pratos que compõem o menu, finalizando cada preparo, do clássico ao autoral, agregando texturas, sabores e cores”, conta.

Dentre as espécies que usa, destaca a clitória (Clitoria ternatea), também chamada de “fada azul” ou “flor do feijão--borboleta”, presente em receitas quentes, infusões e coquetelaria. Rica em antioxidantes e com ação anti-inflamatória, a flor também tem propriedades calmantes. “Incluir as espécies em meus pratos agrega valores cuidadosos além da poesia por trás de cada cor e traço. As Pancs são mais nutritivas que as hortaliças convencionais. Proteínas, fibras, vitaminas e ação antioxidante são algumas das vantagens que as espécies nos oferecem. Entre as infinitas possibilidades, cada uma terá algo grandioso para explorar”, concluiu Ellen.

Autonomia

O pesquisador Nuno Madeira recomenda que quem tiver oportunidade pesquise mais sobre o assunto e comece a cultivar essas espécies, seja no próprio terreno, no quintal ou no jardim. “Há várias publicações disponíveis sobre o tema”, lembra.

A psicóloga Miha Maia é exemplo dessa prática. Ela descobriu as Pancs em uma oficina universitária e percebeu que já tinha algumas em casa sem saber. Hoje, usa as plantas para decoração, águas saborizadas e receitas, e defende a ampliação desse saber. “Cria mais possibilidade para a alimentação, inclusive por estar nas ruas e ser acessível para todas as classes sociais. Para mim, conhecimento representa autonomia”.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 24 de maio de 2026.