Restos de frutas, legumes, cascas de ovos, verduras, borra de café e folhas secas. Todos esses materiais podem ser utilizados na compostagem, prática que tem como finalidade converter lixo orgânico em adubo natural, substituindo produtos químicos.
A compostagem orgânica é um processo biológico controlado e natural que recicla resíduos sólidos de origem vegetal ou animal. “É uma forma de tratamento aeróbio que utiliza microrganismos [bactérias e fungos] e invertebrados [minhocas] para decompor matéria orgânica, transformando os resíduos em adubo, devolvendo nutrientes à terra, reduzindo o volume de lixo enviado aos aterros sanitários e diminuindo a emissão de metano”, explicou a pesquisadora e coordenadora do Projeto de Compostagem da Empresa Paraibana de Abastecimento e Serviços Agrícolas (Empasa), Silvana Alves.
Os benefícios da atividade são inúmeros. Além dos citados pela pesquisadora, também atua no combate às mudanças climáticas, na melhoria da qualidade do solo, bem como trabalha o conceito de economia circular. 
A professora Elisângela Rocha, coordenadora da Comissão de Gestão Ambiental (CGA), da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), concorda que a prática traz diversas vantagens. “Utilizamos recursos da natureza, como frutas e legumes, e devolvemos para ela os nutrientes. Isso é circularidade. Eu estou contribuindo com o meio ambiente, devolvendo para ele o que eu tirei. O que eu não posso mais utilizar, eu tento transformar, reaproveitar, reciclar, eu transformo em um outro produto, uma nova matéria-prima, para não extrair mais ainda do ambiente”, afirmou.
Além da questão ambiental, a compostagem também possui impactos sociais e econômicos, já que é possível agregar valor aos resíduos orgânicos e comercializar o resultado desse processo.
É o caso do agricultor Jasper Ferreira, de 36 anos, que possui um sítio com sua esposa, em Jacarapé, na Zona Sul da capital, e utiliza técnicas de compostagem há cerca de 15 anos. Para ele, a prática contribui tanto de maneira coletiva quanto individual. “Uma das práticas que realizamos é a política de compostagem, aproveitando todo o resíduo orgânico gerado no sítio e nas feiras de que participamos. O composto que produzimos é utilizado nos canteiros como adubo, fechando ciclos e integrando processos naturais. Com isso, conseguimos reduzir nossa demanda por serviços públicos de limpeza e evitamos que esses resíduos sejam enviados para o aterro sanitário. Além disso, essa prática diminui nossos custos com adubação e reduz também os gastos da prefeitura”, pontuou.
O agricultor ainda acrescentou que, no sítio, além da compostagem do que sobra das feiras, ele já realizou o processo com fezes humanas. Trata-se do chamado “banheiro seco”, sistema que não utiliza água para descarga. Os dejetos são cobertos com serragem ou folhas e passam pelo processo normal de compostagem, transformando-os em adubo orgânico. “Essa tecnologia é bastante interessante em diversos contextos, principalmente para regiões onde ocorre grande estresse hídrico ou em locais com dificuldades de tubulação, onde o lençol freático é muito raso para uma fossa, por exemplo”. Jasper ressalta, porém, que utiliza esse tipo de adubo apenas em árvores frutíferas, e não em hortaliças ou plantas de ciclo curto.
Materiais
Os materiais mais utilizados, segundo a coordenadora da Empasa, são restos de alimentos, como frutas e verduras, cascas de ovos, pó de café (com o filtro), sachês de chá, aparas de grama, grãos, bagaço de cana-de-açúcar, folhas secas, papelão e serragem.
O cuidado deve estar em não utilizar alimentos gordurosos, que podem impermeabilizar o composto e dificultar sua degradação. Restos de carnes, laticínios, frutas cítricas em excesso também não são recomendados.
É possível realizar compostagem em qualquer lugar, inclusive em apartamentos. “É um método simples. Eu mesma armazeno o meu material orgânico em casa, em um recipiente. Você vai depositando os resíduos neste local e vai revolvendo diariamente para oxigenar”, explicou Elisângela Rocha. Ela ainda destaca que, por ser um processo natural, não há uso de produtos químicos. A professora também recomenda diversificar os resíduos utilizados, pois isso acelera o processo de decomposição. “Eu convido todos a fazer a compostagem caseira. Aqui, na universidade, temos a nossa, todos os órgãos que produzem resíduos deveriam investir e produzir o seu próprio composto”, afirmou.
Experiências
A Comissão de Gestão Ambiental da UFPB assessora o gabinete da reitoria nas ações de gestão e sustentabilidade ambiental nos quatro campi da instituição. No Campus I, em João Pessoa, a comissão mantém uma compostagem voltada exclusivamente para sobras de podas de árvores. “Estamos dentro da mata, então precisamos estar podando as árvores para que elas cresçam bem. Por isso, sempre temos materiais como galhos e folhas”, explicou Elisângela.

- Prática diminui custos com adubação e reduz também os gastos com limpeza da prefeitura | Fotos: Jasper Ferreira/Arquivo pessoal
A professora detalha a diferença entre esse tipo de compostagem e aquela feita com restos de alimentos. “Folhas e galhos são resíduos mais resistentes, então demandam mais tempo. Aqui, na universidade, temos 12 composteiras e o resultado pode ser utilizado em pomares, hortas, jardins. Ele pode ser usado diretamente ou misturado com outro tipo de terra. Mas ele está pronto para ser utilizado em qualquer ambiente, do vaso de planta da sua casa até grandes hortas”, comentou.
A própria universidade utiliza o adubo no plantio de canteiros, jardins e áreas verdes do campus. Além disso, a comunidade externa, tanto pessoas físicas quanto jurídicas, também podem adquirir o material gratuitamente. Basta acessar a página da CGA e preencher o formulário.
No início deste mês, de 3 a 9 de maio, foi celebrada a Semana Internacional da Reciclagem. A CGA aderiu à campanha promovendo ações de conscientização ambiental. “Entregamos nosso adubo para a comunidade externa e para todos os centros de ensino para fazer a sensibilização e educação ambiental. Realizamos também a entrega na feira Ecovárzea, distribuindo o composto para os agricultores e visitantes”, comentou Elisângela.
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Empasa
A Empasa também oferece esse serviço gratuitamente à população. A doação de adubo é destinada a hortas, assentamentos, associações e organizações não governamentais, mediante solicitação por ofício.
Um dos destaques da empresa é a compostagem de laranja. De acordo com Silvana, na Central de Abastecimento de João Pessoa (Ceasa-JP), a fruta é o principal produto gerador de resíduos orgânicos. Diante da necessidade de promover a destinação ambientalmente adequada desses resíduos e incentivar a transformação da matéria orgânica em insumo sustentável, a empresa iniciou uma pesquisa, em 2023, em parceria com a UFPB, por meio do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental.
O composto orgânico foi produzido a partir de resíduos de laranja combinados com palha de capim-braquiária. O estudo foi desenvolvido em duas etapas, contemplando os períodos de verão e inverno, com o objetivo de avaliar o comportamento do processo de compostagem em diferentes condições climáticas. Foram aplicados dois tratamentos experimentais, sendo o segundo enriquecido com um acelerador natural à base de melaço de cana-de-açúcar e extrato de levedura.
Atualmente, o composto obtido encontra-se em fase de testes na produção de algodão orgânico, apresentando resultados promissores. Além disso, estão previstos novos testes na produção de hortaliças no segundo semestre, ampliando as possibilidades de aplicação agrícola do composto e fortalecendo práticas sustentáveis de reaproveitamento de resíduos orgânicos. Para Silvana, a pesquisa desenvolvida na Ceasa-JP demonstra o potencial da compostagem como alternativa sustentável para o gerenciamento de resíduos orgânicos.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 31 de maio de 2026.