Conhecida pelo sabor marcante e pela presença em sucos, sorvetes e doces, a mangaba, fruta nativa do Brasil, tem seu nome originado no tupi e quer dizer “coisa boa de comer”. Contudo, ela tem uma importância que vai além da alimentação. A mangabeira permite associar a coleta de frutos à manutenção da vegetação e ao sustento de famílias. Porém, o avanço das construções e da cana- -de-açúcar sobre áreas onde a espécie ocorre coloca em discussão a necessidade de conservar esses espaços, mesmo em um estado que lidera a produção extrativa.
Em 2025, a Paraíba registrou um total de 907 toneladas de mangabas colhidas. Os dados são da Pesquisa da produção da extração vegetal e da silvicultura (Pevs), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada no dia 24 de setembro deste ano. O estado lidera a produção nacional, à frente do Rio Grande do Norte (605 toneladas), Minas Gerais (387 toneladas) e Sergipe (301 toneladas). Em 10 anos, a produção estadual de mangaba passou de cerca de 250 toneladas, em 2016, para 907 toneladas, em 2025, representando um aumento de 268,7%. Contudo, em relação a 2024, apresentou uma redução de 0,8%.
A produção extrativa é aquela obtida pela retirada de produtos da vegetação natural, sem que tenham sido originados de plantios. No caso da mangaba, os frutos são coletados das árvores que já existem nesses ambientes. Por isso, os dados da pesquisa não devem ser confundidos com o volume colhido de áreas plantadas por agricultores, como ocorre em parte do município de Pitimbu, no Litoral Sul. Lá, existem plantios tecnificados, enquanto outras regiões possuem muitas mangabas, porém são de geração espontânea.
No Litoral Norte, Rio Tinto, Baía da Traição e Marcação concentram os maiores volumes registrados pela pesquisa, com 300, 283 e 178 toneladas, respectivamente. Juntos, os três municípios respondem por cerca de 84% da produção extrativa estadual.
O engenheiro agrônomo Jailson Oliveira destaca a relação da prática com comunidades indígenas, onde a mangaba integra a comercialização de frutos da região. De acordo com o profissional, a adaptação da espécie ao clima local favorece sua ocorrência no Litoral.
Sua presença em meio à vegetação nativa também permite o aproveitamento dos frutos sem que seja necessário retirar a mata para implantar um pomar. “Como toda espécie frutífera nativa, ela consegue conviver bem dentro da floresta, o que já é um ponto positivo, porque você ganha em questão de equilíbrio ambiental. Você não precisa devastar áreas para fazer a implantação dessas culturas. Então você consegue cobertura de solo e são vários ganhos do ponto de vista ambiental”, detalhou o profissional.
Assim, além de movimentar a economia local, a coleta da mangaba é uma importante fonte de renda para muitas famílias, com forte participação das mulheres coletoras, sendo a conservação das suas áreas imprescindível para a manutenção da atividade.
Melhoramento de mudas
A Empresa Paraibana de Pesquisa, Extensão Rural e Regularização Fundiária (Empaer) gera tecnologias e as difunde para os produtores. Foi o que aconteceu no assentamento rural de Camucim, no município de Pitimbu, no Litoral Sul do estado. Conforme explicou o pesquisador da empresa Edivaldo Galdino, a produção de mangaba é majoritariamente extrativista, isto é, os agricultores não plantam, apenas fazem a colheita de árvores que nascem espontaneamente. “Depois de estudarmos como se planta, como se produz a muda, fomos levar qualificação, por meio de treinamentos para os produtores, para que eles não dependessem apenas do extrativismo”. Assim, na região, há cerca de 100 hectares de mangabeiras plantadas com mudas produzidas pela Empaer. “São plantas de alta qualidade genética”, afirmou Edivaldo.
O atual secretário de Agricultura de Pitimbu, Edivaldo Xavier, era líder comunitário do assentamento na época do projeto, realizado em parceria com a empresa estatal. Ele conta que a plantação aconteceu há mais de 20 anos.
Hoje, mais de duas décadas depois, as árvores de copa ampla e troncos tortuosos continuam produzindo. O secretário explica que os pomares são conduzidos por agricultores familiares e não utilizam irrigação artificial. Os cuidados incluem a limpeza das áreas e, conforme a prática adotada por cada produtor, adubação e poda. “O agricultor só faz limpar mesmo e, em período de colheita, coleta e vende, ou nas feiras livres ou para algumas agroindústrias”, pontuou Edivaldo Xavier.
Contudo, áreas de plantio vêm sendo substituídas por construções e pelo cultivo de cana-de-açúcar. Segundo o secretário, a situação também é observada em localidades próximas, como o município de Conde, onde havia campos nativos da espécie. Segundo o secretário, a mangaba ainda continua sendo muito importante para a região. “O preço é atrativo, cada dia que passa o valor fica melhor, justamente porque aqui há alguns campos. Muitas famílias sobrevivem dessa produção”.
A perda desses espaços reduz as possibilidades de coleta para quem depende das árvores que crescem espontaneamente. Diante desse cenário, percebe-se a importância da manutenção dos plantios, que têm ajudado famílias a continuar comercializando a fruta em meio à redução dos campos nativos.
Estado tem maior banco de germoplasma de mangabeira do país
Em João Pessoa, a Estação Experimental de Jacarapé da Empaer mantém o maior banco de germoplasma de mangabeira do país. Segundo o engenheiro agrônomo Jailson Oliveira, o espaço reúne material da espécie e integra o trabalho de pesquisa desenvolvido no estado.
Bancos de germoplasma são coleções mantidas para conservar recursos genéticos, que podem ser utilizados em estudos e no desenvolvimento de materiais para o cultivo. Os estudos acerca da espécie realizados pela empresa estatal acontecem desde o início da década de 1990 e vão desde a produção da muda até a fase de pós-colheita. De acordo com Edivaldo Galdino, é de fundamental importância est u d a r a mangabei - ra, visto que a cultura da mangaba está sendo extinta, devido à pressão urbana e imobiliária.
Típica do Cerrado, da Caatinga, dos tabuleiros costeiros e de áreas de restinga no Nordeste brasileiro, a árvore adapta-se bem a solos ácidos, pobres em nutrientes e a climas com períodos de seca.
Na estação pessoense, há uma espécie de mangabeira originária do Cerrado. “Essas plantas demoraram muito a reagir, ou seja, demoraram a florir e frutificar, mas, até que enfim, elas conseguiram e os frutos são bastante vigorosos, são frutos grandes, de boa palatabilidade”, explicou o pesquisador.
Benefícios
A mangabeira possui funções ecológicas que vão desde a recuperação do solo até o aumento da biodiversidade local, servindo de alimento para diversas espécies. Também atua para atrair polinizadores, como as abelhas. “Ela protege o solo contra a erosão, devido à proteção da sua copa, ao amortecer as gotas de chuva. E, depois, também por meio de caimento de folhas, que se decompõem e melhoram as características do solo fornecendo matéria orgânica”, detalhou Edivaldo Galdino.
A árvore e o fruto produzem látex. A substância possui propriedades medicinais, como explica o pesquisador. “Ele é utilizado para tratar herpes e alguns problemas gástricos”. Galdino ainda acrescenta que, durante a Segunda Guerra Mundial, o material foi utilizado em substituição ao látex da seringueira em tempos de escassez. “Inclusive, alguns produtos são melhor produzidos com o látex da mangabeira”.
Além disso, a mangaba é uma fruta rica em vitamina C, ferro, fósforo e cálcio, e também é conhecida por seu sabor único, que fica mais doce à medida que ela amadurece. Assim, além da importância ambiental e social, a mangaba contribui para diversificar a alimentação. A nutricionista Germana Carvalho destaca a presença de vitamina C, fibras e compostos antioxidantes. Segundo ela, a vitamina auxilia no funcionamento do sistema imunológico, na formação de colágeno e na absorção do ferro dos alimentos, enquanto as fibras contribuem para o funcionamento intestinal.
A nutricionista orienta que o consumo da fruta fresca e o preparo do suco próximo ao momento de ingestão ajudam a preservar a vitamina C, sensível ao calor e ao armazenamento prolongado. “A mangaba é uma ótima opção para diversificar a alimentação e aproveitar os benefícios nutricionais das frutas regionais”, afirmou.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 18 de outubro de 2026.