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Agroflorestas

Sistema é alternativa sustentável

publicado: 02/03/2026 09h15, última modificação: 02/03/2026 09h15
Modelo adaptado às condições climáticas da região combina o plantio de árvores com o cultivo de lavouras
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Associação Comunitária Agrícola transformou as agroflorestas em produção de alimentos para os alunos de escolas públicas | Foto: Divulgação/Acam

por Íris Machado*

A Paraíba é o estado mais atingido pela desertificação, segundo o Instituto Nacional do Semiárido (Insa). Cerca de 93,7% do território paraibano — 209 dos 223 municípios — está em áreas suscetíveis a essa modalidade de degradação ambiental, que afeta a qualidade do solo e a produtividade agrícola. Nessas regiões, uma solução recente aposta na sustentabilidade para recuperar a produção: as agroflorestas ou sistemas agroflorestais (SAFs), capazes de restaurar a vegetação local, melhorar a qualidade do ar e diversificar o cultivo.

“A gente tem um desafio grande, que é produzir numa condição de muita luta. Se você não tiver um reservatório que possa lhe dar suporte na irrigação para a produção agrícola ou no armazenamento de água para a produção animal, você não tem como produzir. O sistema agroflorestal tem uma particularidade: nós não brigamos com as condições climáticas, nós nos adequamos às condições climáticas”, revela o técnico da Empresa Paraibana de Pesquisa, Extensão Rural e Regularização Fundiária (Empaer), Ricardo Pereira.

As agroflorestas integram o cultivo agrícola ao florestal, de acordo com as condições naturais de cada ambiente. Entre o plantio de árvores e a lavoura, a diversidade de espécies permite que o agricultor produza o ano todo, independentemente da estação. “Ao mesmo tempo em que você consegue plantar conjuntamente várias culturas, você também consegue introduzir ou estabelecer atividades florestais que valorizam a vegetação local. Isso é muito bom porque você tem, por exemplo, na região do Cariri, atividades agrícolas que são de grande importância nutricional para o rebanho e adaptadas àquelas condições em que o semiárido é mais forte”, aponta.

Antes de implantar uma agrofloresta, é preciso personalizar o espaço que será explorado, de modo a prepará-lo para receber as culturas adequadas. Ao retomar a cobertura vegetal do território, esse processo facilita a absorção de nutrientes e reduz a emissão de gases de efeito estufa. Esses benefícios espalharam os SAFs no Brasil e em outros países de clima tropical.

“Na maioria das vezes, agora, as chuvas são torrenciais. Chovem grandes quantidades de água num pequeno espaço de tempo, então o solo desnudo não tem condições de absorver aquela água que cai momentaneamente. Na nossa região, mais seca, nós temos culturas de apoio, que são aquelas que vão tornar o ambiente mais frio, com menos insolação, que vão fazer a ciclagem de nutrientes, ou seja, que as podas vão servir para realimentar o terreno. Nesse processo, o solo vai ficando mais rico em matéria orgânica, vai disponibilizando sombra para a produção de outras plantas, como plantas de ciclo curto. Feijão, milho, amendoim, gergelim. A gente conforta o ambiente para que a gente possa implantar aquilo que a gente deseja”, reforça.

Políticas nacionais incentivam essa maneira de produção. Agricultores que manejam SAFs recebem financiamentos bancários e linhas de crédito mais vantajosas do que os gastos acumulados do passivo ambiental, necessários para a recuperação dos prejuízos decorrentes da atividade agrícola. “A gente tem uma demanda de mercado muito maior. A sociedade está tomando consciência e está cobrando isso dos agricultores, que o produto que chegue na mesa do consumidor que mora na cidade seja um produto limpo, livre de agrotóxico, um produto que respeite a mão de obra e o meio ambiente onde ele foi produzido, que tenha um perfil social diferenciado. O grande problema é que, muitas vezes, para conduzir um sistema agroflorestal, você precisa ter a posse da terra, porque é um processo lento. Fazendo isso em terras de arrendamento ou de terceiros, vai ser difícil chegar ao final [do ciclo produtivo]”, salienta. 

Fabiano Rodrigues: “São saberes ancestrais e resilientes” | Foto: Leonardo Ariel

Como relata a professora Izabela Rangel, do curso de Ciências Agrárias da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), a duração dos ciclos depende dos arranjos desenvolvidos em cada região. São investimentos de curto, médio e longo prazos, que podem durar de três meses a 15 anos. Na Paraíba, as agroflorestas já ocupam quintais em municípios tanto litorâneos quanto sertanejos, a exemplo de Conde, João Pessoa, Lagoa Seca e Catolé do Rocha.

“Na Mata Atlântica, em ambientes mais ombrófilos, a gente sabe que os ciclos de vida são mais fáceis. A gente tem um tempo maior de chuva e de umidade e consegue produzir hortaliças de uma forma mais constante. Já no semiárido, na Caatinga, a gente trabalha com o período de seca, em que há uma demora maior para um retorno produtivo. Mas, independente de qual área, não é apenas um produto agrícola ou agropecuário produzido. A biodiversidade promove uma variedade de produtos extraídos, tanto hortícolas como frutícolas e florestais. Comparados aos monocultivos, que fazem a extração excessiva de nutrientes do solo e causam desequilíbrios na flora e na fauna, os sistemas agroflorestais fazem o inverso”, levanta.

Conhecimento que promove inclusão social

Essa prática, além de contribuir para o equilíbrio de ecossistemas degradados e impulsionar a agricultura familiar, também é um instrumento de inclusão social. Coordenado pela professora Izabela, um projeto levou técnicas de difusão agroflorestal a dependentes químicos em tratamento na Fazenda da Esperança Dom Marcelo Pinto Carvalheira, localizada em Guarabira, no Brejo paraibano. Junto a orações, momentos de lazer e trocas de experiência, as ações laborais no campo integravam as atividades de reabilitação ao plantio de alimentos saudáveis para consumo interno. “Foi do zero. Nós fizemos todo o manejo do solo, a introdução das espécies e o cuidado delas para manutenção e produção. Todo esse trabalho junto com os acolhidos, para eles entenderem todo o processo, da escolha do solo que a gente tinha que beneficiar até a colheita final”, lembra.

A princípio, a fazenda apresentava terras compactadas, ácidas e com baixa fertilidade, ocupadas apenas por braquiárias. Em pouco tempo, a introdução de matéria orgânica nos canteiros renovou a paisagem da propriedade, cujo solo floresceu com sementes de feijão, goiaba, macaxeira e melancia, entre tantas outras. Repassar esse conhecimento à comunidade, na visão de Izabela, foi a principal missão da equipe na tentativa de retomar a produtividade local.

“Os acolhidos mudaram muito. Teve acolhidos lá que nos falavam: ‘Aqui é um ambiente que a gente vem sempre, onde a gente se sente junto à natureza, que a gente relaxa’. ‘Nossa, por conta desse projeto, eu consegui parar de cometer coisas que eu não considero mais certas’. ‘Ah, eu não sabia plantar um pé de couve. Agora eu sei como plantar e como colher’. Isso era muito, muito positivo, porque era o nosso objetivo, trazer esse conhecimento para essas pessoas e capacitá-las de alguma forma para que elas pudessem sair dali e realizar algum plantio otimizando pequenos ambientes, inclusive no quintal de casa”, salienta.

Na capital, uma iniciativa da Associação Comunitária Agrícola do Muçumagro (Acam) transformou agroflorestas em salas de aula. A lavoura abrange a sede da organização e três instituições de ensino da localidade: a Escola Municipal Professor Abraão Alves de Carvalho, a Escola Cidadã de Tempo Integral (Ecit) Professor Olívio Pinto e a Escola Estadual de Ensino Fundamental Professora Tércia Bonavides Lins. “A gente fortalece e, ao mesmo tempo, dá aula para pessoas com muitos anos de agricultura, mas que infelizmente ainda usam agrotóxicos e pesticidas. Nosso enfoque é esse: ensinar as crianças a cultivarem em pequenos espaços, mas da forma que a natureza trabalha”, pontua o vice-presidente da Acam, Wallam Silva.

Todos os produtos cultivados nas hortas são destinados à alimentação dos alunos e à cozinha da organização, enquanto o excedente do plantio é ofertado à comunidade pelo valor simbólico de R$ 1. A Acam também promove uma feira agroecológica, em que as transações ocorrem por meio da moeda social Real Muçu, administrada pelo banco comunitário Muçubank. Ações como essa movimentam a economia da região e inserem os associados, majoritariamente quilombolas e pescadores, na cadeia produtiva.

A ideia é construir um sistema autossuficiente, de custo zero. Na sede, por exemplo, um reservatório recolhe a água da chuva a fim de irrigar a plantação, economizar os recursos naturais e reduzir as despesas da associação. Isso, para o coordenador dos SAFs da Acam, Fabiano Rodrigues, é o que mais difere a modalidade de produção agroflorestal da convencional: são saberes que envolvem uma agricultura ancestral, resiliente, que convive em harmonia com a comunidade e a natureza.

“Quando a gente vai montar um projeto, a gente tem que ter dimensão do que a gente quer. Quais são as sucessões, quais são as densidades, quais são as necessidades da área. É até um embate quando a gente vai criar um novo sistema, porque as pessoas têm esse pensamento de ‘terra ruim’. Só que não existe terra ruim, existe terra mal manejada. Toda terra é boa. Porque, se a gente utiliza o monocultivo, como muitos, as pessoas acham que a terra é ruim ou que está faltando alguma coisa, mas, na verdade, ela está precisando de florestas. Porque o nosso maior insumo é matéria orgânica, que se dá por meio das plantas. A gente não precisa de água, a gente não precisa de química, a gente não precisa de certas máquinas. A gente só precisa de conhecimento”, destaca.

Essa proposta, desenvolvida como um laboratório vivo, surgiu quando Fabiano cursava o 1º ano do Ensino Médio, em 2023, na Ecit Professor Olívio Pinto, sob o comando da professora Suzana Alves. Agora, no terreno da instituição, ele acompanha o crescimento da agrofloresta na figura de educador. “Todo esse sistema é um sistema inteligente, um sistema que, por si só, consegue se desenvolver. O que mantém ele resiliente é o margaridão, é o capim-elefante, plantas que, na maioria das vezes, são consideradas invasoras. Mas isso só acontece quando a gente não sabe trabalhar com elas”, afirma.

São mais de 30 espécies introduzidas em um só canteiro, entre árvores, flores, frutas e hortaliças. Lado a lado, é possível encontrar uma riqueza de culturas, de chichá-do- -cerrado e mogno a graviola e jasmim-do-caribe, um sistema que consorcia a banana à macaxeira, pés de abacaxi e cajarana. Duas semanas atrás, impulsionado pelo florescimento da amora, beterraba e tomate nas outras hortas, Fabiano plantou sementes de manga; sem demora, elas começaram a germinar.

“Por mais que eu não venha manejar, as plantas que estão aqui vão passar por uma sucessão e as árvores vão prevalecer. Por mais que as flores morram, por mais que os feijões saiam, a sucessão da vida está aqui. É uma agrofloresta totalmente sustentável. A mamona me dá mais fósforo; já o margaridão me dá mais nitrogênio. Então eu não preciso comprar esterco, não preciso comprar inseticida. Aqui a gente só revolveu a terra uma única vez. A gente só entrou com a enxada uma única vez. Depois, é só tesoura”, brinca.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 1º de março de 2026.