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A força paraibana na seleção

publicado: 08/06/2026 09h41, última modificação: 08/06/2026 09h41
Nas 22 edições já disputadas da competição internacional, a Paraíba contou com quatro representantes; em 2026, Matheus Cunha e Douglas Santos ampliarão a presença do estado na Canarinho
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Mazinho, Júnior, Índio, Hulk, Matheus Cunha e Douglas Santos levam DNA da PB ao time nacional | Ilustração: Tônio

por Pedro Alves*

Em 2026 será a primeira vez que dois paraibanos vão jogar juntos uma Copa do Mundo pela Seleção Brasileira. O atacante Matheus Cunha e o lateral-esquerdo Douglas Santos continuarão o legado de presença de atletas paraibanos em mundiais. Antes deles, quatro outros jogadores da Paraíba fizeram parte da Canarinho em Copas do Mundo.

O paraibano que é tetra

Mazinho foi o único paraibano que alcançou a glória maior, portanto, o único do estado a integrar o panteão dos campeões mundiais de futebol por seleções. Mas quem pensa que a trajetória do outrora garoto de Santa Rita foi fácil muito se engana. Antes de alcançar o auge em 1994, o versátil jogador, que atuou na carreira e em Copas como lateral e como meia, amargou uma traumática participação na Copa do Mundo de 1990.

O time comandado por Sebastião Lazaroni é até hoje lembrado com um dos times menos empolgantes que foi a um Mundial. A pressão na época era grande sobre o comandante e, claro, sobre seus comandados. Apesar de uma geração com bons valores, como Careca, Müller, Valdo, Ricardo Gomes, Jorginho, Romário e Bebeto, o time não convenceu durante a competição.

Lazaroni foi acusado de formatar uma equipe bastante defensiva. O time venceu os três jogos da primeira fase, mas acabou sucumbindo para a Argentina de Maradona e Caniggia nas oitavas, mesmo diante da sua melhor atuação no torneio. O time ficou conhecido como a “Era Dunga”, em alusão ao estilo defensivo. Boa parte da geração que foi duramente criticada em 1990 acabou tendo a chance de disputar uma outra Copa, quatro anos depois — entre eles estava Mazinho, que não jogou nenhum minuto em 1990.

Se o leitor lembrar a cena em que Dunga, capitão do tetra, pega a taça de campeão mundial para levantá-la, recordará que antes disso ele faz uma espécie de desabafo que é registrado pelas câmaras da transmissão televisiva. E era mesmo. Dunga “oferece” a taça à imprensa, que tanto o criticou, como também criticou alguns dos seus companheiros de 1990 até 1994, incluindo o paraibano Mazinho, que viria a ser importante para o tetra.

Mazinho começou a Copa no banco de reservas. Entrou na vitória por 2 a 0 contra a Rússia, ficou de fora do triunfo por 3 a 0 diante de Camarões e voltou a entrar no empate com a Suécia por 1 a 1. A partir do mata-mata, o treinador Parreira sacou o seu camisa 10 e capitão Raí e colocou o Mazinho no setor de meio-campo. O time ganhou solidez defensiva, tornou-se ainda mais competitivo e foi avançando até conquistar a taça nos pênaltis sobre a Itália.

“Participar da Copa do Mundo e conquistar o título mundial é o sonho de todo jogador. Estar na Seleção já era um grande objetivo porque era muito complicado. Foi muito sacrifício. Mas pouco a pouco eu consegui galgar esse espaço e chegar a esse objetivo. É o maior ouro da minha vida ter ganhado a Copa do Mundo”, comentou Mazinho à Empresa Paraibana de Comunicação (EPC).

Júnior, Hulk e Índio

Antes de Mazinho, dois jogadores paraibanos marcaram seus nomes na história das Copas. Leovegildo Lins da Gama Júnior, ou simplesmente Júnior, natural de João Pessoa, disputou dois mundiais. O lateral-esquerdo fez parte da inesquecível Seleção que encantou o mundo na Copa do Mundo da Espanha, em 1982, que acabou eliminada pela Itália na famosa tragédia de Sarriá, na segunda fase do torneio, antes das semifinais. Em 1986, Júnior voltaria a atuar em uma Copa, dessa vez no México.

Na ocasião, atuou como meia, e o Brasil crescia na competição até encarar a França de Platini nas quartas de final. Muitos cronistas esportivos da época cravam que o time de Telê Santana fez naquela ocasião a sua melhor atuação no México. Mas a equipe acabou sucumbindo nos pênaltis, após empate por 1 a 1 no tempo regulamentar. Foi a despedida de Júnior em Copa do Mundo.

Voltando 32 anos, temos a primeira participação paraibana em mundiais. O atacante Índio, um dos maiores artilheiros da história do Flamengo, foi convocado para disputar a competição em 1954, na Suíça. Índio nasceu na cidade portuária de Cabedelo.

Aquela edição da Copa marcou a estreia da hoje tradicional camisa amarela em mundiais. Índio não jogou nenhuma das três partidas que o Brasil fez no torneio, mas colocou, pela primeira vez, a Paraíba na competição. O Brasil acabou sendo eliminado nas quartas pela Hungria, que viria a ser vice-campeã, perdendo o título para a Alemanha na decisão.

O último paraibano a disputar uma Copa do Mundo foi o atacante Hulk, que atuou como titular no Mundial de 2014, mas que acabou participando de uma das maiores tragédias futebolísticas da história da Seleção Brasileira. O jogador de Campina Grande participou de seis dos sete jogos do time naquela campanha e jogou cinco partidas como titular.

A participação brasileira, no entanto, acabou sendo marcada pelo fatídico 7 a 1 nas semifinais. O time comandado por Luiz Felipe Scolari foi amplamente dominado pela Alemanha e acabou sendo atropelado, atuando em casa, no Estádio Mineirão, em Belo Horizonte. Hulk viria a se despedir da Seleção na disputa pelo terceiro lugar, quando o Brasil perdeu novamente, dessa vez para Holanda, por 4 a 0.

Douglas Santos: Jogador supera entraves e garante vaga na seleção

Por: Danrley Pascoal

“Neste momento, me vem muitas coisas que eu já passei. Quando eu ia treinar lá em João Pessoa, a dificuldade era grande. Tinha vezes que meu pai não tinha o dinheiro da passagem para me dar. Minha avó me ajudava”, falou emocionado Douglas Santos, 32 anos, no dia 2 de abril de 2013, quando foi convocado pela primeira vez para a Seleção Brasileira. Hoje, ele é um dos dois paraibanos (Matheus Cunha é o outro) que disputarão a Copa do Mundo de 2026, que se inicia na próxima quinta-feira (11).

Douglas deu os seus primeiros passos no futebol ainda nas categorias de base do CSP, na capital paraibana. Profissionalmente, foi lançado ao futebol pelo Náutico em 2012. No curto espaço de tempo, as boas atuações o levaram a ser chamado para a Seleção Brasileira — atuando por um clube nordestino, tendo apenas 19 anos. Na ocasião, o técnico Luiz Felipe Scolari era o comandante do time verde-amarelo. 

Pela Seleção Brasileira, Douglas participou do elenco que conquistou o ouro olímpico na edição Rio 2016 | Fotos: Reprodução/Instagram @douglassantos06

O lateral-esquerdo, desde muito jovem, já chamava atenção pela personalidade, maturidade e forma destemida de jogar. “Quando conheci o Douglas, ele tinha 16 anos. Eu era o treinador da categoria Sub-17 do Náutico. A gente estava em busca de atletas para certas posições. A lateral-esquerda, posição de Douglas, era uma das nossas carências lá em 2010 para 2011. Bastaram 30, 35 minutos para ele já ser selecionado. Apesar de chegar tímido lá, ele era muito determinado. Ele já tinha o talento, já era muito maduro para a posição diante da idade dele”, contou Márcio Galuppo, técnico do jogador no início de sua trajetória no Timbu, em entrevista exclusiva para Elisa Marinho, repórter da Rádio Tabajara.

“Com a gente, ele chegou na metade de 2010 e ficou comigo até o fim de 2011. Algo curioso sobre seu caminho é que, desde o Sub-17, já treinava no profissional. Ele não foi para o Sub-20. Quando a gente conquistou o último título da categoria, Douglas subiu para o time principal a pedido do Waldemar Lemos, que era treinador do profissional naquela época”, explicou Márcio.

Do Náutico, Douglas Santos saiu para o Granada, da Espanha, onde não atuou em nenhuma partida; seguiu para a Udinese, da Itália, não tendo muitas oportunidades. Em 2014, voltou ao futebol brasileiro para vestir a camisa do Atlético-MG. Depois de um bom desempenho no Galo, ele partiu para o Hamburgo, da Alemanha. Desde 2019, o lateral veste a camisa do Zenit, da Rússia, equipe da qual é capitão.

“Para falar a verdade, a gente sempre conversava muito que Douglas iria voar muito alto, que, pelo futebol e pela evolução a cada ano, ele iria chegar muito longe. Mas a gente não esperava uma Seleção. Nunca se imaginou naquela época que ele chegasse à Seleção Brasileira. Pela evolução e pelo que ele desenvolveu nos clubes por onde passou, a Seleção foi só uma consequência”, destacou Márcio Galuppo.

Ouro olímpico

Em 2016, Douglas Santos alcançou um dos maiores feitos de sua carreira. Nos Jogos Olímpicos do Rio, ele conquistou o ouro no torneio de futebol, o primeiro do Brasil em toda história. O lateral-esquerdo atuou nos seis jogos daquela disputa. A partida em que teve mais destaque foi na última rodada da fase de grupos, diante da Dinamarca, quando deu duas assistências na vitória por 4 a 0.

“É um cara que tinha uma leitura de jogo muito boa. Ele errava pouco. E, para um menino tão jovem, era difícil você encontrar. Geralmente, a juventude vem com a ansiedade, vem com uma série de fatores que atrapalham o desenvolvimento do jogo. E ele não. Douglas sempre foi muito tranquilo, muito responsável. Apoiava só na boa, no momento certo. Parecia um cara muito mais experiente do que a idade que ele tinha”, disse Alexandre Gallo em conversa exclusiva com Elisa Marinho. O então técnico foi um dos responsáveis pela consolidação do paraibano no time profissional do Náutico em 2012. 

Na época, Douglas Santos ainda atuava pelas categorias de base, mas já tinha alguns jogos no profissional. Com a chegada de Gallo, que substituiu Waldemar Lemos após o Campeonato Estadual, o jogador consolidou-se como titular da equipe que terminou na 12a posição do Brasileirão, alcançando vaga na Copa Sul-Americana. O atleta esteve em 22 jogos, registrando um gol e uma assistência.

“Eu tenho, na minha visão, aquele menino simples, humilde, na época, muito trabalhador. Quando eu estava em João Pessoa, eu fui parado num shopping pela mãe dele, que veio me dar um abraço e agradecer. Eu não a conhecia, faz muitos anos. E ela veio conversar comigo, foi muito agradável, tiramos fotos e tudo”, conta Alexandre Gallo.

“Eu digo que o mérito da observação é da pessoa que dá oportunidade, mas o verdadeiro mérito é de quem teve uma sequência de carreira tão forte como ele teve, em tão alto nível. Douglas jogou em clubes da Europa, agora está lá no Zenit. Então, acho que o mérito é todo dele. A gente tem a questão da observação, mas o atleta manteve o nível de jogo para estar na equipe principal, sendo muito jovem”, completou Gallo.

Títulos

Ao longo da sua carreira, Douglas Santos conquistou 18 títulos. Além do ouro olímpico, as taças de maior destaque são o título do Campeonato Mineiro (2015) e da Copa do Brasil (2014), jogando pelo Atlético-MG. Na Rússia, venceu por seis vezes a liga local.

“Hoje, ele é um cara muito bem estabelecido, já tem uma idade aceitável, passou por grandes competições na Europa. O treinador [Carlo Ancelotti] não iria convocá-lo se não tivesse levantado absolutamente todas suas informações e minutagem. O Douglas hoje é um cara completo e vai brigar com o Alex Sandro, que é um pouco mais experiente. Acredito que o Brasil está bem servido”, afirmou Alexandre Gallo.

Mateus Cunha: Atleta transforma sonho de infância em realidade

Por: Danrley Pascoal

“É muito gratificante estar onde você sempre sonhou. Nesse nível de maturidade, sabendo das dificuldades, mas preparado para o que der e vier. Depois da lista fechada, nada além do nosso objetivo importa, temos que alcançar isso juntos. É estar bem, preparado e feliz, porque poucos têm a oportunidade de realizar este sonho e faremos o possível para alcançá-lo”. Esta foi a fala de Matheus Cunha, 27 anos, em entrevista coletiva na Granja Comary, antes da Seleção Brasileira viajar para os Estados Unidos.

Cunha, que estreou no time principal da Canarinho em 2021, vive a expectativa de disputar sua primeira Copa do Mundo | Fotos: Reprodução/Instagram @cunha

O atacante estreou pela Seleção em 2021, quando Tite era o treinador. Cunha também viveu a expectativa da convocação para o Mundial de 2022, mas acabou não ocorrendo. Dessa vez, Carlo Ancelotti aposta no paraibano, que é peça-chave no estilo de jogo do italiano. Nascido em João Pessoa, o atacante deu seus primeiros passos no esporte atuando no futsal do Esporte Clube Cabo Branco, com passagem curta pelo projeto Gol de Placa. No futebol, o pessoense iniciou sua carreira no Coritiba. Na capital paranaense, viveu por quatro anos, lutando por seu sonho.

“Ele ter se tornado um homem de bem, apesar de estar distante de mim e da mãe nesse período, é a minha maior alegria. Matheus nunca foi envolvido com nada que desagradasse nem a mim, nem à mãe. Então, ele sempre foi muito focado nos seus objetivos. Agradeço muito aos professores, e também a todo o pessoal do Coritiba. Eu tenho um carinho muito grande pelo clube que formou o Matheus”, declarou Carmelo Cunha, pai do jogador, à repórter da Rádio Tabajara Elisa Marinho.

“A Copa do Mundo mexe muito com o brasileiro. Já tinha acompanhado outras copas, e a gente ficava muito ansioso, ficava muito esperançoso e eufórico. Quando se trata do seu filho, é diferente. A emoção que eu senti na divulgação da lista de convocados foi parecida com a emoção que eu tive quando ele foi campeão olímpico. A alegria é muito grande, não dá para mensurar”, enfatizou seu Carmelo sobre a expectativa para assistir seu filho atuando no Mundial.

Carreira

Para chegar à Seleção Brasileira, Matheus Cunha precisou recomeçar sua carreira algumas vezes. Do Coritiba, foi negociado para o Sion, da Suíça; em seguida, foi para o Leipzig, da Alemanha. Ainda no futebol alemão, atuou pelo Hertha Berlim. De lá, deu o maior salto da sua trajetória, ao ser vendido para o Atlético de Madrid, da Espanha. Sem ter muitas oportunidades, deixou a equipe madrilenha para atuar no Wolverhampton, da Inglaterra. No clube britânico, teve grande destaque. Em 92 jogos, marcou 33 gols. Hoje, veste a camisa de um dos maiores clubes do Reino Unido, o Manchester United.

“Não tem muito mais o que eu possa pedir a Deus. Vai ser mentira se eu disser que era fácil lembrar disso. Depois que eu comecei a entender, comecei a duvidar do quão longe eu poderia chegar. Acho que o trabalho paga. Na minha cabeça, o foco e palavras positivas ajudam você a construir essa jornada. É algo que é prazeroso de se estar alcançando”, comentou Matheus antes do embarque para os Estados Unidos.

A determinação do jogador é destacada por sua mãe, Luziana Cunha, durante a entrevista para Elisa Marinho. “Matheus, com seis anos, eu digo isso em toda entrevista, ele olhou para a cara da irmã, abraçado com ela, e disse ‘eu nem vou estar aqui quando você fizer 15 anos’. Como mãe, já levei para aquele lado sentimental e questionei onde é que ele estaria. ‘Vou estar jogando fora’. Com seis anos falou isso, tem noção? Então, assim, ele sempre foi isso, sempre foi determinado”, relata a mãe do pessoense que cresceu no bairro da Torre.

“Ele sabia onde queria chegar, entende de futebol e sabe até aonde ele pode ir. Eu, enquanto mãe, só entrego carinho, só aquele cuidado. Ele chegou no Coritiba e morava em um quarto que tinha dois beliches e um armário. Cada criança tinha um metro e meio de espaço. E o Matheus estava sempre feliz e satisfeito, porque ele já sabia que precisava passar por aquilo para ser um jogador de futebol. Eu, enquanto mãe, só fiz orientá-lo para as coisas que podiam vir”, destacou Dona Luziana.

Hoje, Matheus Cunha joga na maior liga de futebol do mundo, a Premier League. O atleta é o camisa 10 do Manchester United. Pela Seleção Brasileira, desde 2021, entrou em campo 21 vezes, tendo marcado apenas um gol. Apesar do baixo número de tentos, ele tem um papel tático importante no esquema do atual treinador. Muitas vezes, atua como um meia, um construtor de jogadas. A principal conquista de sua carreira foi o ouro olímpico em 2021, nos Jogos Olímpicos de Tóquio, no Japão.

Gol de Placa

Renildo Linhares trabalhou com Matheus Cunha quando o atacante dava os primeiros passos no futsal e no futebol. Com 11 anos, o ainda garoto esteve no projeto Gol de Placa, conhecido em João Pessoa por formar alguns atletas paraibanos. “Professor Renildo”, como é reconhecido nas escolinhas de futsal, relembra das primeiras impressões daquele menino “comunicador”.

“A impressão foi a melhor, ele era muito diferente. Assim, tanto da parte técnica — era um atleta muito acima da média — quanto à questão de se comunicar — de ter um carisma e magnetismo. Tanto que todo mundo gostava muito dele. Ele conversava com todo mundo, conversava com os pais dos colegas e com os adversários. Onde ele estava, não passava despercebido”, contou Renildo em entrevista para Elisa Marinho.

“Matheus tem uma coisa especial. Assim, eu acredito muito nele. Eu acho que ele tem tudo para ajudar muito nossa Seleção. Vai depender de outros fatores, é claro, mas ele é um vencedor, tem uma estrela muito grande, além de um talento absurdo. Eu tenho muita fé que a Seleção vai se sair muito bem nessa Copa. Tomara que, correndo tudo bem, ele possa se destacar. A gente está sempre na torcida por ele”, completou o treinador.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 07 de maio de 2026.